Frei João
I.
1. Mais que os outros três juntos, o Evangelho de São Lucas coloca muitas vezes Jesus em oração, de tal modo que alguns teólogos o intitulam de «Evangelho da oração». De tão intensa, a íntima comunhão de amor que Jesus vivia com o Pai manifesta-se no seu modo de orar de tal modo que, tocados e comovidos, os discípulos hão-de um dia pedir-Lhe que os ensine a rezar.
Como deveria ser fascinante ver Jesus a rezar! Quem me dera…
Se o ver é já aprender, quem me dera ter contemplado aquele silencioso e amoroso diálogo do olhar que, na força do Espírito Santo, envolvia o Pai e o Filho, e se tornava delicada manifestação de Deus Trindade. Essa comunhão de amor é, pois, também hoje, o ambiente onde a nossa oração pessoal e comunitário se deve desenvolver.
2. O capítulo nono de São Lucas situa Jesus algures na fase final da etapa da Galileia. Até ali tinha Ele andado pelas cidades, vilas e aldeias da região a cumprir o seu programa de levar a Boa Nova aos pobres, aos marginalizados, aos oprimidos. Acompanhavam-no alguns discípulos, gente que se tinha encontrado com Ele, que tinha escutado o seu libertador anúncio do Reino de Deus e que decidira embarcar nessa aventura. Jesus, porém, não queria ficar-se apenas pela Galileia. Por isso, cumprida aquela etapa, o projeto deveria avançar para uma nova fase, pois Ele tinha a intenção de se dirigir a Jerusalém e de ali enfrentar as autoridades judaicas. Era lá que tudo se haveria decidir; era lá que se consumaria o êxito ou o fracasso do Reino.
Contudo, antes, de se abalançar ao caminho, Jesus parou – convém muito ter isso em conta. Em certo dia, tendo os discípulos por perto, Jesus parou e pôs-se a orar sozinho – tal é como, neste domingo doze do tempo comum, somos informados quanto ao modo como dá Ele início à nova e definitiva etapa do Evangelho.
Pode quem me lê ir agora reler os versículos dezoito a vinte e quatro daquele capítulo de Lucas, e ficará informado do demais, isto é, do quanto disse o Senhor aos discípulos, quer quando junto deles indagou sobre como o povo em geral O identificava, quer sobre o que eles próprios pensavam, quer ainda sobre a necessidade de estarem dispostos a viver as consequências dessa assunção. De facto, não é suficiente saber que Jesus Cristo é o Messias. É também necessário aceitar o modo como escolhera Ele realizar a sua missão messiânica e salvadora – essa é a sua pedra de toque, mas neste texto não iremos por aí.
A oração solitária de Jesus é o que me ocupará.
3. Foco-me, pois, na disposição e no acto da oração solitária de Jesus.
Antes de retomar o anúncio do Evangelho, Jesus parou, Jesus rezou. E, acresce, Lucas, os discípulos estavam por ali. Se é certo que o Evangelista não diz nunca que os discípulos rezaram com Jesus, também não diz que não rezaram ou que se distraíram, dormiram ou jogaram às cartas. E eu não afirmo uma coisa nem outra; afirmo o que afirma o Evangelista: estavam por ali, por perto de Jesus, enquanto Ele, Jesus, sim, rezava. Porém, se de Jesus se diz que rezava e dos discípulos não se afirma tal, provavelmente, eles não rezaram – e, no mínimo, nem rezaram com Jesus; é o que me parece. E como o processo de adesão a Jesus é mesmo um processo, isto é, supõe um andamento, uma gradação, uma evolução – também na oração –, então, parece-me, eles estão ainda muito incipientes; pelo que não rezaram, que ainda lhes falta muito tempo para que, encantados e maravilhados com o modo de Jesus rezar, eles Lhe peçam: «Mestre, ensina-nos a rezar».
4. Retomemos o início do Evangelho de hoje; diz-se-nos ali: «Jesus orava sozinho».
Existem com certeza vários modos de rezar, pelo menos, a sós, e também, em grupo ou comunidade.
Vamos pela oração solitária de Jesus e, penso eu, compreenderemos porque dela, naquela hora, não partilharam os discípulos.
Em primeiro lugar, estou certo, dela não participaram, porque Ele não quis nem os chamou. Sim, existe um modo solitário de rezar, um modo que Jesus praticou, promoveu, ensinou e ainda hoje somos convidados a praticar e a ensinar a rezar. E, em segundo lugar, dela não participaram porque se mormente a oração solitária fôr um diálogo amigável entre cada um de nós e o Pai – e sim, a oração solitária é-o –, então, é compreensível que ninguém mais nela se deva intrometer, nem mediar, nem pontificar: nem o marido, nem os filhos, nem o padre nem o professor, nem o médico nem o psiquiatra, nem o patrão nem os outros membros do grupo de oração; nem o presidente nem o amigo mais amigo, nem os discípulos nem a Mãe.
Para que ninguém se intrometesse entre Ele e o Pai, Jesus apartou-se naquele dia tal como se apartava frequentemente dos discípulos para orar (mas também orava com eles em grupo, atenção!), porque o que, naquela hora, tinha Ele para conversar com o Pai era diferente do que qualquer um deles e de nós tinha e temos para lhe dizer – era pessoal; porque Ele é Filho e eu criatura; Ele o Salvador e eu nem a pegoreiro vou; porque o que Ele haveria de dizer eram palavras santas e puras, e as minhas são cheias de bolor, lodo e barro.
Sim, ainda faltava tempo para os discípulos aderirem radicalmente a Jesus; para assumirem e darem corpo ao Seu projecto. Ora, se isso sucedia, como haveriam eles de aprender a rezar-dialogar com o Pai se ainda não estavam inteiramente sintonizados com o coração do Mestre? Se ainda não sabiam querer O que Ele queria? Se não sabiam caminhar pelos mesmos caminhos que o Pai inspirava a Jesus? Do que iriam falar a sós com o Pai: dos rebanhos? Das redes vazias? Dos rendimentos em perda? – Que sim, poderiam falar disso, mas o Pai tinha um sonho e o sonho era o Reino; mas por Reino ainda eles entendiam uma coisa diferente da do Pai!
– Enfim, como naquela hora em que Jesus rezou solitariamente estava difícil para Eles falarem com o Pai, ao jeito solitário de Jesus! –.
5. Eis, pois, que em mais um momento decisivo da sua vida, Jesus se pôs a rezar solitariamente. São João conta-nos que quando Jesus os informou sobre o fito daquela subida a Jerusalém (no fim da evangelização da Galileia), Tomé respondeu: – Vamos até lá também, para morrermos com Jesus. Enfim, não sabia o que dizia; mas aquela sua resposta indica-nos que tinham sido bem informados do que lá iam fazer, do que lá se haveria de passar. Ou seja, indica-nos que, em primeiro lugar, a oração em solitário de Jesus dera frutos, fora esclarecedora, jamais se enquadrara num perder tempo, pelo contrário, mostrara-se princípio de rápida aceleração pelo caminho fora; isto é, dentro em breve, estariam mesmo em rápida ascensão a Jerusalém. Em breve se achegariam à Páscoa, à Ascensão, ao Pentecostes. Sim, digo bem quando digo dentro em breve porque, na verdade, a oração não serve para entorpecer nem para alienar nem para adiar, não serve para adormecer ou para evadir, mas para decidir, configurar e avançar.
Depois daquela oração em solitário, reforçado nas suas intenções e união ao Pai, Jesus quase voou para Jerusalém (e os discípulos com Ele)! Porque a oração é decisivo princípio de aceleração para a missão!
II
6. Rezava Jesus em comunidade no Templo, nas casas, nas sinagogas. E sozinho frente ao mar, nos desertos, nas bordas das montanhas, recluído entre o arvoredo. Situando-o orando numa bela ladeira, vejo-O desde outra; e, desde a minha tenho também diante do olhar aquele grupo de discípulos andados ainda bem longe do Pentecostes, muito distantes de alcançarem rezar na força do Espírito Santo. Acresço, por isso, uns parágrafos sobre como abrir-se e favorecer a oração:
7. Nunca Deus se envergonha dos nossos limites humanos. Nem mesmo quando rezamos. Deus é pai e não desdenha dos filhos. Não se ri se somos gagos, nem se espanta se não somos capazes de articular sons inteligíveis, porque a música que Ele mais ouve é o nosso calado coração. Que importa se Lhe rezamos irrazoavelmente ou gagejando – Ele entende-nos. Se lhe rezamos com sono, também. Se aflitos, idem. Se como bebés, Ele percebe o nosso beicinho e doce olhar. E se na velhice as sombras nos toldam a razão, a Sua luz alumia os dois únicos neurónios decentes que ainda nos restem e vê o que nem sequer entendemos querer dizer-Lhe.
Nenhum pai ousaria deitar um filho a um rio. Nem o Pai nosso nos condena ao fogo; muito menos se não soubermos rezar. Ah, e podemos ser grandes pecadores, sim. Empedernidos, até. Se Lhe rezamos, Ele aceita. Não digo que goste, digo que Ele preferiria que em tudo nos parecêssemos a Jesus, mas se não, paciente, Ele aguarda-nos, fica à coca, esperando que num imprevisto, numa volta de mar, num percalço ou num baixar das defesas, permitamos que Ele nos enterneça e seduza o coração. E então toca-nos levemente à porta e, se, lha abrirmos por dentro, Ele entra para rezar connosco.
8. Para que bem rezemos, importa, sobretudo, que nos conheçamos bem, não suceda que nos julguemos girafa sem que passemos de reles pulga. Que creiamos ultrapassar as nuvens e tocar a lua, quando apenas somos pequenino bichinho-de-conta, que ao mínimo ruído se encolhe e se esconde. Importa muito que saibamos que não somos nem Leão nem Cordeiro. Talvez apenas lagartixa ou, quem sabe, algo mais simpático.
Isso sim, o que importa é que, para rezarmos, nos conheçamos bem. Que de frente enfrentemos e assumamos as nossas torpezas e torções, engelhas e papos nos olhos da alma. Para isso não há como ser-se humilde, realista. Repara: se vais pedir uma esmola a um rico não julgues que és recebido de igual maneira, se diante dele te apresentas mais bem vestido que ele ou se de roupa de cote! Olha que quem te ouve percebe se em falsete lhe falas fábulas ou se há fome de sal e sede de azeite no timbre da tua língua.
Sobre isto Santa Teresa de Jesus tem palavra autorizada. Começando a falar sobre oração, diz ela no Livro da Vida, ser impossível rezar sem humildade: «como este edifício, [da oração] tem a sua fundação na humildade, quanto mais próximos de Deus estivermos, tanto maior deverá ser esta virtude, pois, se assim não for, tudo perderemos» (12:4). Por não sermos realistas, mas fantasiosos, digo eu. De facto, quanto mais nos aproximarmos da luz, mais em nós se vê qual seja o nosso quarto e quais as teias-de aranha, o desalinho e o pó que o habitam.
Sobre a necessidade do vero autoconhecimento em vista à oração, Santa Teresa é severa e assevera-nos nas Primeiras Moradas: «a questão de nos conhecermos é tão importante que eu gostaria que não houvesse nisso nenhuma negligência, por mais elevadas que estejais nos céus. Enquanto estamos nesta terra, não há coisa que mais nos importe do que a humildade. E assim volto a dizer que é muito bom, extremamente bom, entrar primeiro no aposento do conhecimento próprio antes de voar aos outros, porque esse é o caminho. Se podemos ir pelo seguro e plano, para que haveremos de querer asas para voar? Devemos, pelo contrário, aprofundar-nos mais no conhecimento de nós mesmas» (2:9). Não podia a Mestra, está bom de ver, ser mais assaz prudente e verdadeira. De facto, rezar não é assunto delicodoce, que ocorra aquando de ventos favoráveis, antes obriga a que se evite toda a negligência sem jamais se mermar na humildade.
Jamais sobre nós sejamos cegos ou tacanhos no teste do algodão.
9. Orar é como treinar; melhor, orar implica muito treinar – não digo malhar, digo treinar, mas treinar fazendo, rezando. Não nego que também exige esforço, disciplina. – Perdoem-me se parece que endoido, mas não me sai da ideia que um ensaio geral, por vezes, sai melhor que a sessão pública. – Treinar, treinar é a solução. E se o é para os mergulhadores e os corredores de fundo, enfim, para os atletas e os artistas, também o é para os orantes.
Pegando na metáfora teresiana direi que ninguém se faz amigo sem que se cruze diante do olhar desse Amigo que (nos) olha – de facto, nunca me fiz amigo de nenhum bosquímano!
Eu não entendo de oração nem ouso ensinar alguém a rezar; já, porém, oro para entendê-la, e entendendo-a, ore melhor. – O princípio é, penso, de Santo Agostinho; e quer dizer isto mesmo: a Deus entende-se na capela, diante da luzinha tremeluzente do sacrário, não no escritório, diante do écran do computador que nos abre para o poderosamente inefável mundo da IA. Tudo nos abre para os mistérios de Deus se formos pela via da fé; é pela fé, não pela força, nem pela vontade nem pela inteligência – mas pela sua deposição – que nos aproximamos do sacrário do mistério. Só a oração humilde, constante e confiada convence a Deus a abrir-nos esse sacrário cujos ignotos mares foram preparados para extasiar as almas que porfiam sob as tempestades. E se me perguntarem a mim, pobre pecador, como isso é, como isso se faz e se entende, apenas direi que não sei, que não entendo, que oro para entender e entendo para orar.
10. E para concluir, façamo-lo ouvindo palavras dum mestre que sabia centrar no essencial a quantos com ele caminhavam pelo caminho da perfeição. Os excertos que seguem resumem o quanto atrás fica dito: i) não basta rezar, é necessário permanecer, continuamente, noite e dia, na oração; ii) na oração tanto mais alegria achamos, quanto mais tudo nela se oferece com gosto ao Amado; iii) e por último: a força da prece que elevamos ao Céu apenas está em dar gosto a Deus que gosta de dar; e quanto mais damos, mais gostamos de Lhe dar.
Ensinando sobre oração, São João da Cruz insistia muito em que por razão ou justificação alguma, mesmo se santa, ela fosse abandonada; insistia: «procure, pois, ser contínuo na oração e no meio dos exercícios exteriores não a deixe. Quer coma, quer beba, quer trate com os de fora, quer faça qualquer outra coisa, ande sempre desejando a Deus, pondo n’Ele o afeto do seu coração» (Conselhos a um Religioso, 9), «porque o verdadeiro amante só está contente quando tudo o que ele é, vale, tem e recebe, o emprega no Amado, e quanto mais é tudo isso, tanto mais gosto tem em lho dar» (Chama de Amor Viva III, 1); e, perspicaz e sábio, concluía, resumindo: «para alcançar as petições que temos no nosso coração, não há melhor meio do que pôr a força da nossa oração naquilo que é mais do gosto de Deus; porque então, não só nos dará o que Lhe pedimos, que é a salvação, como ainda aquilo que vê que nos convém e nos é bom, embora não Lho peçamos» (III Subida 44:1-2).
11. AVISO: O autor destas linhas não é sábio nem é santo. Escreve como escreve: sem acerto e, às vezes, sem conserto. E se cita sábios e santos é só porque os copiou em algum lugar, jamais porque seja bom a imitá-los como eles imitaram a Cristo. Avisado que é, o leitor saberá ler, previamente, este aviso e dispensará a leitura de tudo o mais. Obrigado.










