1. No contexto desta obra, qual é a relação entre o Escapulário e a ideia de «Vestidos de Céu» que dá título ao livro?
É uma boa pergunta. O livro Vestidos de Céu tem duas partes: a primeira é composta por biografias; a segunda por orações.
Não saberei bem dizer se o termo biografias está bem aplicado; sei o que quero dizer com ele: que cada texto – e são dezasseis, um por cada dia que antecede a Festa de Nossa Senhora do Carmo! – narra a história de vida duma pessoa que, em algum momento, foi revestido do Escapulário do Carmo. São histórias que li, vi, mas contaram ou a que assisti em primeira mão; são histórias – chamo-lhes estórias para dizer narrações – de pessoas que, a partir dalgum momento das suas vidas, viveram vinculadas a Nossa Senhora do Carmo, ao ponto de imitarem a Sua vida e virtudes, através do Escapulário.
O Santo Escapulário do Carmo é o motor de cada uma destas dezasseis estórias, logo, portanto, também deste livro.
Creio que os católicos portugueses, pelo menos os mais antigos, estão familiarizados com a narração da entrega do Escapulário a São Simão Stock. Estando a nossa Ordem em risco de vida, Frei Simão increpou ao Céu um sinal de protecção. Que se a nossa Ordem era consagrada a Nossa Senhora, isto é, se todos os Irmãos e tudo o demais era Dela, porque não haveria Ela de cuidar de nós? Porque não nos daria um sinal da sua protecção? E foi assim que a 16 de Julho de 1251, depois duma longa e intensa jornada de oração, segundo a tradição, Nossa Senhora do Carmo apareceu a Frei Simão, sexto Prior Geral da Ordem e lhe entregou o Escapulário, dizendo-lhe: «Recebe, meu filho muito amado, este Escapulário de tua Ordem, sinal de meu amor, privilégio para ti e para todos os Carmelitas: quem com ele morrer, não se perderá. Eis aqui um sinal da minha aliança, salvação nos perigos, aliança de paz e de amor eterno».
Ou seja, o Escapulário foi trazido do Céu pelas mãos da Mãe de Jesus e nossa Mãe; e por Ela nos foi-nos dado, a nós, peregrinos de esperança, como sinal de Sua maternal protecção. E é assim que ainda hoje o usamos como prenda de Maria e como sinal de consagração a Ela. E quando o digo nós, digo as Irmãs e os Irmãos Carmelitas, religiosos e leigos que se associam a nós pelo uso do mesmo Escapulário, logo pela mesma consagração a Nossa Senhora.
Em suma: O Escapulário veio do Céu e é dado a quem o quiser receber e através dele imitar a vida de Quem o trouxe e no-lo deu.
A mensagem do livro, resumida no seu título é, pois, esta: pessoas existem que, ao nível da excelência da virtude, se vestem ou vestiram com o Escapulário do Carmo, ou seja, se vestem de Céu; e depois fazem e fizeram do caminho peregrinante das suas vias uma vida marieforme, enformada pelos modos, sentimentos e virtudes de Nossa Senhora do Carmo, e Lhe consagraram tudo: haveres e sentires, preces e dores, alegrias e esperanças, urgências e necessidades.
Se eu tivesse de apresentar o Escapulário a um povo que cantasse: «Somos um povo que caminha / e juntos caminhando podemos alcançar / outra cidade onde há justiça…», eu dir-lhe-ia: sim, tu que caminhas pelo pó da terra, usa o Escapulário e confia; confia e boa caminhada.
2. Que papel desempenham estas biografias na transmissão da tradição carmelita?
Outra boa pergunta. Devemos, porém, matizar o horizonte que ela supõe; ou seja: creio não me enganar se disser que este não será um livro que virá a ser muito conhecido. Não apostaria nisso… Logo também a resposta não se torna muito urgente; mas aí vai, pois, em algum momento, sim, o livro contribuirá para prolongar o amor e devoção a Nossa Senhora do Carmo:
Atrevo-me a dizer que o valor destas biografias é o testemunhal: em quase oitocentos anos de tradição, em todo o orbe cristão, homens e mulheres houve que se arraigaram aos fios do Escapulário com todas as forças, como quem não tivera outra boia de salvação! Pergunto, por exemplo: a que se agarraram os marinheiros espanhóis e portugueses durante as travessias das Descobertas, se não ao Rosário e ao Escapulário? Dir-me-ão que eram movidos pelo medo e que se agarraram ao que puderam; pois era, e nós? A que nos agarramos nós quando nos falha o chão das certezas racionais? Eu respondo: à primeira quinquilharia factual ou espiritual que estiver ao alcance. Negue-me quem quiser, que não precisarei de provar. Basta olhar com olhos de ver.
Estas dezasseis Biografias do Escapulário – ressalto a cifra dezasseis porque não descarto, noutra hora, achegar-me às trinta! – são a prova de que em todos os tempos e lugares, e em todos os contextos sociais, o Escapulário do Carmo representou uma tábua de salvação, um farol orientador, uma mensagem de serenidade e de paz. O que caladamente o Santo Escapulário nos diz é: tens mãe, tens mãe, tens mãe! Todos temos uma Mãe que nos aconchega! Que cuida de nós! Nos ampara e abraça! Nos adverte e até chora por nós!
Não sou eu que o digo, mas os santos e os simples biografados neste livro. Não existe santo que não tivesse de suportar tragédias, nem gente simples que não tivesse suportado dificuldades e contradições. Uns e outros testemunham-nos que o Escapulário do Carmo é um apoio em momentos de crise, é uma voz serena que nos diz: filho, filha, tem calma! Confia! Sou tua mãe e estou contigo! Confia!
Além disso, provavelmente não existiu tempo tão órfão (e tão solitário) como o nosso! Logo não existe um tempo que tanto precise do testemunho dos que nunca se sentiram abandonados ou sós, porque pertenciam a Nossa Senhora do Carmo! A prova está nestas biografias que bem vale a pena ler.
Se estas biografias reforçarão a tradição mariana carmelitana de hoje? Nem duvido! Serão uma simples pedrinha, um calçozito, mas ajudarão. E o mérito nem é meu, óbvio! É de quem em nossos dias nos prova com suas estórias que a Mãe do Céu nunca nos abandona. Nunca deixa de ser Mãe! Por isso, o que mais desejaria é que dentro de cinquenta anos alguém escrevesse as Novas Biografias do Escapulário para contar que, em pós estas, muitas pessoas continuaram a testemunhar que sim, que podemos não querer ser filhos, mas a Mãe dos Carmelitas é sempre Mãe e nos ama e nos beija, nos guarda e acalma, mesmo se chegamos a casa sujos e maltrapilhados.
Sim, estas estórias do Escapulário ajudam a fincar hoje o amor e a devoção a Nossa Senhora do Carmo e ao Santo Escapulário – não passamos de alicerces dos que hão-de vir!
3. Como é que este livro poderá ser uma forma de evangelização e inspirar aos seus leitores o amor pelo escapulário?
Quem vai a Maria não fica nunca por Ela retido, nem nos seus braços nem no seu colo. Não fica nem retido nem repousado. Quem se achega ao pé da Mãe, talvez nem lhe suba ao colo, por que Ela nos leva para Jesus! Essa é a missão da Mãe: encaminhar tudo e todos para Jesus! A sua tarefa é não perder nenhum filho, nenhuma filha, mas entregar-nos todos a Jesus. Sim, somos filhos da Mãe! Mas a Mãe sabe que o nosso caminho e fim é Jesus, e é para Ele que Ela porfia e nos encaminha.
Não recordo se em alguma linha do livro isso fica claramente dito. Se não o disse, digo-o e recordo-o agora aqui: A Mãe não tem nada de seu, somos todos de Jesus! Todos para Jesus, a Quem Ela nos oferece e apresenta!
A aliança que pelo Escapulário estabelecemos com a Mãe está sempre subordinada à Aliança redentora que Jesus selou com o seu Sangue! A da Mãe aponta para o Filho! Não pode ser de outra maneira.
(Quero, talvez, corrigir-me; sim, é possível que se nos achegamos à Mãe, Ela nos tome e nos sente no Seu colo! É bem possível, sim, que Ela é a Mãe de Misericórdia! Faço, porém, uma ressalva: o colo é Dela, mas só enquanto trono do Menino Jesus! O que a mim me parece aceitável é que se lhe subimos ao colo ou Ela nos ampara e sustenta nos seus braços é para nos colocar frente a frente a Seu divino Filho! É como se dissesse: João, meu filho, és de Jesus! Agora descansa junto Dele, a labuta virá depois!).
Creio que fica também implícito outro pormenor muito consolador: a confraternidade. Por Maria somos para Jesus e somos irmãos de Jesus. E em Jesus somos todos irmãos. Por isso é frequente, ou melhor, era antes muito frequente, que os que se consagravam em aliança com Maria, se constituíam em confraternidades ou confrarias que, como células dum povo peregrino, depois se processionavam fraternalmente de Escapulário do Carmo ao peito e com suas opas pelos ombros. Ora, esse peregrinar como irmãos é um grande sinal profético que nos diz que Jesus nos quis irmãos e nos deixou o exemplo ao fazer-se nosso irmão para caminhar connosco – e não é isto uma grande mensagem evangélica?
Quero ainda ressaltar outro pormenor: quem usa o Escapulário, mesmo que disso não seja consciente, está sempre em oração! Não é uma oração de belas palavras, de fórmulas perfeitas ou litúrgica. É uma oração calada, uma oração afectuosa, filial, delicada, terna, serena. Sobretudo, calada. É oração porque dedicação olhos nos olhos a Nossa Senhora; é imitação dessa Mulher toda centrada em Jesus; é comunhão com Ela pois que, pelo Escapulário participamos todos da sua ternura e do Seu sorriso, e da incansável delicadeza das Suas mãos!
Sim, quem usa o Escapulário, pelo facto de o usar, e isso significar união com a Virgem Maria, já reza incessantemente.
Quero confessar uma coisa que tenho por certa, sem que agora me ocorra alguma prova: um dia – ó feliz dia! – todos e cada um de nós saberá quão devedor é da oração dos outros; e, quem sabe: se mais devedor da oração dos outros que da sua! O que quero dizer é que se muitos usam o Escapulário, e com ele e através dele muito rezam, eu sei e confio que muitos mais são os que, sem saberem, beneficiam dessa oração gentil e generosa; não por mérito automático de quem o usa, isso não, mas porque Deus assim quis!
A oração é caridade em acto. Impulsionados pelo Escapulário, não fazer mal e fazer todo o bem que podermos é assemelharmo-nos a Deus, e isso tem valor de salvação! Ora se tem, e tem, alguém, para além de mim, especialmente para além de mim, tem de beneficiar disso! Esse benefício silencioso e intestemunhado é caridade da melhor e sem interesse, é dar por dar, sem mérito de quem dá nem de quem recebe. É oração gratuita.
Deus não é merceeiro que conte tostões, mas a sua graça não pode perder-se, mesmo se se nos achega através de simples sinais sagrados, como o Escapulário do Carmo.
A caridade é o coração do Evangelho, é o próprio Deus! Ora, com certeza que o Escapulário é anúncio de Evangelho; pode ser silencioso, e é; e não sendo palavroso é modesto sinal e fala de Evangelho – nunca puxa para o mal, sempre para o bem, para a conversão, a fidelidade de vida, a imitação de Quem no-lo deu! Pelo que sim, pelo tudo e pelo muito bem que fazemos à Igreja e ao mundo quando usamos o Escapulário, considero que isso é um acto de perfeita evangelização!
(Quanto à segunda parte é melhor não me alongar, nem me repetir, porque, creio, já deixei respondido na pergunta dois. Obrigado.)
… e 4. E pode o Escapulário ser visto como um símbolo de protecção e compromisso na vida dos fiéis, segundo as biografias do livro?
Símbolo de protecção, lá isso é, disso também não haja dúvidas. Aliás, isso sempre foi bem sabido e bem assumido pelos Irmãos do Carmo e pelos devotos do Escapulário. Isso o sabem os que o recebem e dele se revestem depois duma catequese mariana mais ou menos breve. Repare-se: quando no ano de 1251 Nossa Senhora do Carmo entregou o Escapulário a frei Simão Stock o que fez foi entregar, através dele, aos Irmãos da Ordem um avental – de que eles já se revestiam nas tarefas diárias –, dizendo-lhes que ele seria sinal ou símbolo de protecção. Ora, um avental é isso mesmo: não é um mero sinal, é mesmo uma veste protectora ou então não seria avental, não é? É óbvio que um avental protege o corpo e a roupa da sujidade, evitando o conspurcamento.
Sinal de protecção lá isso é o Escapulário.
Já, porém, não aceito que o seja dessa forma mágica que em algumas circunstâncias e eras ele foi visto e assumido. O Escapulário não é um escudo com super-poderes, nem tem poderes de martilhar como o martelo de Thor! É um paninho, melhor, dois rectangulozinhos de pano castanho; e acreditem, não defende de nada: nem de raios nem de coriscos, nem de borrascas nem de cheias, nem de frios nem de calores, nem de espadas nem de setas. Não defende, não, disso estejam seguros.
Pelo contrário, o que o Escapulário diz é que, em nossos actos e pensamentos, na nossa vida social e de oração, na nossa vida de trabalho e de oração, devemos ser como o foi e viveu Quem no-lo deu. E quem no-lo deu foi a Virgem Maria, sob o título de Mãe e Irmã dos Carmelitas!
Recordemos: nada é tão poderoso como uma Mãe. Apareça uma cobra diante duma criança e, num salto, a Mãe põe-se ali no meio dos dois. Assim fez Ela quando o dragão lhe quis tragar o Filho recém-nascido! Usar o Escapulário atrai o olhar da Mãe benevolente e defensor. (Mas ela não seria boa mãe se não cuidasse dos outros filhos que se revestem de ganga, ou com pernas na cabeça, ou com turbantes, ou sejam metaleiros. Não seria boa mãe, não…)
A Mãe protege-nos, sim; mas, sobretudo, acorda-nos e desperta-nos para os perigos.
O que, porém, jamais consigo imaginar é que quem usa o Escapulário faça o mal, chame-se ele falcatruas ou chame bem ao mal, desdenhe ou espezinhe alguém, como se isso o engrandecesse como ser humano, nem daí decorressem consequências. O Escapulário Castanho é uma branca, uma aspiração a nunca enfileirar pela bandeira do mal! Ao contrário, convida-nos a fazer sempre o bem, ou pelo menos todo o bem que pudermos. Essa é toda a força e protecção que dele nos vem. E é assim que eu me sinto bem usando-o.
Contudo, se protege, e protege, o Escapulário, também não pode ser assumido como amuleto ou esconjuro contra forças do mal, peçonhas, males de inveja, energias negativas mais o tera-pelotão de negatividades que alguns fazem crer que a diário nos atormentam; o que te peço, leitor, leitora, se acaso aqui te achegaste é que confiras o início desta resposta; e que tomes também por certeza que o Escapulário também não é licença para pecar ou salvo-conduto para fazer maldades ou praticar injustiças. Não, não é.
Concluo, que já é hora: quando olho para Jesus vejo o ser humano mais puro (por ser também divino), de mão mais terna e doce e, ao mesmo tempo, o ser mais frágil e vulnerável, porque é amor e só amor, e porque, amando-nos, jamais se desviou ou evitou algo, jamais deixou de enfrentar, muitas vezes silenciosamente, de pé, ou de joelhos, na oração, toda a maldade – tal é a única tarefa do amor. E todo o amor é vulnerável.
Diante de qualquer dor Jesus sempre estremece, não desvia jamais o olhar, traz esperança para o futuro. Por outro lado, todo o diálogo silencioso do Escapulário e o seu sereno repousar sobre o peito de quem o usa é igualmente toque vulnerável, como o amor do Coração de Jesus – toda essa vulnerabilidade do sinal de eleição de Nossa Senhora do Carmo é, pois, também toda a sua força protectora.
Fazer todo o bem que pudermos, nunca fazer o mal e dele defendermos todos quantos pudermos, ainda que pobres e fracos, esse é o todo o poder que o Escapulário inspira e se lê nos testemunhos biográficos destes irmãos e irmãs que se revestiram do Escapulário e se publicam neste livro Vestidos de Céu.
Obrigado pelas perguntas esclarecedoras.










