Armindo Vaz, OCD

Em clima de Ano Santo, o 27.º jubileu ordinário da história da Igreja proclamado para 2025, tem vindo a ser celebrado por grupos sociais, institucionais, religiosos ou diocesanos, com o apoio e a participação dos Papas Francisco e Leão XIV ou do respectivo bispo. Importa recuperar algumas linhas da sua espiritualidade, para a assumir e viver neste «ano da graça do Senhor», renovando o compromisso com os valores da esperança, da paz, da reconciliação e da solidariedade.

A longa prática de celebrar um ano jubilar cada 25 anos só aconteceu na passagem do jubileu de 1450 para o jubileu de 1475. Em 1450 a Europa estava no Renascimento. Com a expansão marítima dos portugueses e dos espanhóis, o mundo alargou-se e ganhou outra dimensão, que não tinha na Idade Média, quando se pensava que o mundo acabava na ponta ocidental da Europa, no cabo Finis terrae. Novos mundos eram noticiados. Grandes transformações culturais, artísticas e científicas aliavam-se a novas descobertas. A humanidade era mais apreciada. Havia motivações que, na consciência das pessoas, fizeram do jubileu de 1450 um acontecimento que marcava a transição do mundo medieval para o mundo moderno. Foi um jubileu com grande afluência de gentes de toda a Europa a Roma: cum jubilo ligavam o sagrado e o profano, a espiritualidade e a romaria, em que romeiros peregrinos conviviam e concelebravam com autóctones locais. O envolvimento das multidões fazia do jubileu um convite ao júbilo. Fazia-se penitência e celebrava-se a vida, interligando também a fé e a arte.

Se até à celebração do de 1450 o jubileu se conjugava mais com os “autos”, carnais no melhor sentido da palavra, e com os “mistérios”/representações religiosas medievais, a partir daí a motivação do jubileu já era espiritual: era a salvação da alma, contendo como elementos essenciais a procura e a concessão da indulgência, a peregrinação e a visita às quatro basílicas maiores de Roma.

Mas essa era uma motivação distinta da original, que tinha inspirado o jubileu bíblico (no livro do Levítico 25). De facto lá tinha profunda dimensão humana e social, embora não esquecesse a espiritual. De lá vem a palavra jubileu, pelo latim da Vulgata, jubilaeu, que traduzia o hebraico yobel, originariamente chifre de carneiro. Porque o chifre de carneiro era usado como trombeta para anunciar e iniciar o ano jubilar, yobel passou a designar também jubileu, ano jubilar, conotando ainda o som festivo de júbilo, difundido com o ressoar do chifre de carneiro. Até é possível que o substantivo júbilo, que vem do latim tardio jubilu-, provenha afinal de jubilaeu-.

O jubileu bíblico mandava que cada 50 anos se deveria fazer repousar a terra, não a cultivando, e se deveriam restituir em Israel os campos que tivessem sido arrendados ou vendidos desde o ano jubilar anterior; todas as propriedades, requeridas por causa de dívidas, deveriam ser devolvidas aos seus proprietários anteriores ou aos seus herdeiros. Os escravos deviam ser resgatados e libertados. Assim diz o texto fundamental que descreve a origem do jubileu: «Declarareis santo o ano cinquenta e proclamareis pelo país a libertação para todos os seus habitantes. Será para vós um jubileu [yobel]: voltará cada um de vós à sua propriedade e cada um voltará à sua família. Este ano cinquenta será para vós ano jubilar [yobel shenat]: Não semeareis, não colhereis do que cresce espontaneamente, nem vindimareis as vinhas que não foram podadas, porque é um jubileu [yobel], que será sagrado para vós. Comereis do campo o que ele produzir… Não vos prejudiqueis um ao outro… Ninguém de vós prejudique o seu próximo… Eu sou o Senhor, vosso Deus» (Lv 25,1.8-17).

Não se sabe se historicamente Israel celebrou alguma vez um ano jubilar, sem trabalho algum nos campos. Importante era a mensagem, um apelo à grande oportunidade para melhorar o relacionamento com Deus, com as pessoas e com a natureza, implicando a remissão de dívidas. Por isso, os primeiros tradutores da Bíblia hebraica (para o grego, desde o séc. III até ao séc. I a.C.) traduziram o «ano do jubileu [yobel]» como «ano, símbolo da libertação/perdão» por excelência. Era a grande libertação, por motivos humanos e religiosos, um ano de liberdade, de festa, em que o povo se sentia voltar à condição original de libertado por Deus (da escravidão do Egipto). De facto, o jubileu aparecia como instituição divina, palavra de Deus a Moisés para todo o povo: «O Senhor disse a Moisés no monte Sinai» (Lv 25,1). E significava que a vontade de Deus era a libertação total e a fraternidade universal.

Por isso, no evangelho de Lucas, que quer apresentar a vida de Jesus como obra de libertação universal para todos os que aderissem à sua mensagem, na página admirável que traz o seu discurso programático, colocado logo no início do seu ministério público (Lc 4,16-30), Jesus cita o profeta Isaías: «O Espírito do Senhor… enviou-me a proclamar aos prisioneiros a libertação…, a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano de graça do Senhor». Citando assim as Escrituras, Jesus abria o sentido último delas. Via na passagem de Isaías a expressão do seu próprio projecto de vida humana, que dava corpo ao projecto de Deus. Uma vez que Jesus aparece como Filho de Deus, a libertação sentida como promessa em Isaías irrompeu em Jesus como o hoje de Deus, fiel a si próprio e aos humanos. Portanto, este «ano favorável do Senhor» refere-se claramente ao ano do jubileu israelita e significa que Jesus em pessoa o realizou em pleno, com todas as actualizações: actualizou-o e tornou-o mais eficaz. Sendo ele próprio a «proclamar um ano de graça do Senhor», sugeria que a sua missão era anunciar e comunicar efectivamente o perdão de Deus a todos os povos, perdão total e não só ao povo de Israel.

Esta plena remissão dos pecados por Jesus é precisamente o que se deve ver como indulgência plenária ou plena, a palavra e a realidade à volta da qual girou a história dos jubileus até aos nossos dias. É fundamental entender o seu alcance para compreender o significado do jubileu.      [continuará]