Armindo Vaz, OCD

Hoje, por causa da crise demográfica, da esperança de vida prolongada e das questões ligadas à Segurança Social, fala-se e escreve-se muito sobre a longevidade. Oferecemos aqui ao leitor – ao idoso e ao jovem que será idoso – elementos bíblicos para ele próprio delinear uma espiritualidade que valorize a sua longevidade.

Uma das realidades que o ser humano enfrenta toda a sua vida e que sempre se impôs à consideração dos mortais é o decorrer do tempo, a fugacidade da vida. Sobretudo no fim da vida física atinge-o a falta de tempo, como drama, como tragédia ou como dom, sendo tudo o resto muito secundário. Com o tempo, cansamo-nos ao subir escadas. Mas o tempo nunca se cansa: Fugit irreparabile tempusO tempo foge irrecuperável (Virgílio, Geórgicas, III, 284). O problema é tão grande como invencível, tão grande que é invencível. Nem os poetas o conseguem mudar: por muito que lhe cantem, ele não «volta para trás» (nem «o tempo para mim parou», como canta António Mourão). Não volta; e em horas fugidias vai dobando o fio da meada da vida humana, qual Penélope, fiel esposa de Ulisses, na Odisseia. Desliza entre mil ocupações, distracções e desatenções, até que a morte fria, de passos mudos, o transforma em eternidade.

Se não se pode vencer, a solução está porventura na velha táctica bélica: juntar-se a ele, pô-lo do nosso lado, procurando ser feliz todo o tempo que a vida durar, instituir «o tempo, esse grande escultor» (Título de um livro de Marguerite Yourcenar), em amparo do corpo e da alma, especialmente a pensar na melhor idade da vida, que é a última. Também a fé bíblica se sentiu interpelada pela ligação do tempo à vida das pessoas, particularmente à velhice, com a sua carga de debilidade, sofrimento e limitações, mas também de glória e esplendor. Vamos descobrir esta ligação, reflectindo sobre ela em vários pontos.

Entre as idades da vida humana, a Bíblia salienta a longevidade serena e próspera do justo que fecha a sua existência terrena «cheio de dias» e com numerosa descendência que quase o imortaliza. Este retrato aparece quase estereotipado: «Os dias de vida de Abraão foram 175 anos. Depois Abraão foi-se extinguindo e morreu numa feliz velhice, ancião e cheio de dias, e foi juntar-se aos seus» (Gn 25,7-8). De Isaac, a quem se atribuem 180 anos, diz-se: «morreu e juntou-se ao seu povo, ancião e cheio de dias» (Gn 35,28-29). Jacob vive até aos 147 anos «e juntou-se aos seus» (Gn 47,28; 49,33); e o seu filho José, até aos 110 anos (Gn 50,26). «Os anos de vida de Levi foram 137… Os anos de vida de Amram foram 137» (Ex 6,16-20). Moisés apagou-se aos 120 anos, sem que tivesse decaído o seu vigor (Dt 31,2; 34,7) e «adormeceu com os seus pais» (Dt 31,16). David «adormeceu com os seus pais» (1Rs 2,10), «muito velho, cheio de dias, de riqueza e de glória» (1Cr 29,28). Tobite teve uma velhice longa «na felicidade, continuando sempre a bendizer Deus», vendo o sucesso do seu filho Tobias e «morrendo em paz aos 112 anos» (14,2-3). A heroína Judite «avançou em idade na casa do seu marido, até chegar aos 105 anos de idade» (16,23). Job «viveu 140 anos, viu os filhos e os netos por quatro gerações e morreu ancião e cheio de dias» (42,16-17). O sacerdote Matatias «chegou ao fim dos seus dias» em idade avançada, «abençoou os seus filhos e juntou-se aos seus pais» (no ano 166 a.C.: 1Mc 2,69).

A longevidade era de tal importância que serviu para caracterizar o futuro ideal de Jerusalém: «Não haverá lá adulto que não chegue à velhice, pois será ainda novo aquele que morrer aos cem anos» (Is 65,20). O motivo será retomado pelo profeta Zacarias no seu retrato de Jerusalém em festa, com «anciãos e anciãs que se sentarão nas praças de Jerusalém, cada um com a bengala na mão pela sua longevidade» (8,4).

A tradição bíblica prefere falar de dias a falar de anos, como se quisesse valorizar o instante vivido. A vida aparece assim como o longo trilho dos dias; e os dias aparecem como os passos de um caminho, metáfora de uma vida. A velhice é a aproximação ao fim do caminho, em relação vital com o percurso feito: representa o esplendor do ser humano. Mas que significam estas longas idades atribuídas às personagens fundadoras do povo bíblico, idades que não são objectivas mas conotativas?

Os humanos são, em grande medida, desejo e procura; e ninguém os pode culpar por quererem satisfazer o seu desejo, do qual brota quase tudo na vida. Desejo de quê? – De dar sentido pleno à vida, de modo que não acabe feita em cacos, em frustração ou desgraça. Ora, atribuir idades super-humanas às importantes pessoas respectivas era uma forma de a Bíblia sugerir que elas se realizaram plenamente e que a sua vida estava completa, dando muito de si e da sua longa vida ao seu povo. Sugeria que o ancião a quem se atribuía longevidade exorbitante tinha contribuído mais para fazer memória dos acontecimentos da história humana: a longa memória deles não deixava que o pó dos anos cobrisse com o esquecimento os gloriosos dias de uma vida.

Mas este tema complexo, que entretece história, simbolismo e espiritualidade, merece mais ponderação. Tê-la-á…