Frei Francisco Braguês, OCD

Teresinha foi uma jovem de grandes desejos. Como boa filha de Santa Teresa de Jesus, nunca apoucou os desejos! E o seu maior desejo era ser santa.

Penso que todos nós sentimos cá dentro esse mesmo desejo… Mas chocamos com a realidade da nossa fragilidade, da nossa miséria, dos nossos limites. Teresinha exclamava: «Sempre desejei ser santa. Mas, ai de mim! sempre verifiquei, ao comparar-me com os Santos, que há entre eles e eu a mesma diferença que existe entre uma montanha, cujo cume se perde nos céus, e o obscuro grão de areia» (Ms C, 2vo).

Tal como Teresa de Lisieux, também nós projetamos a santidade para alturas inalcançáveis, obtendo uma imagem irreal e manipulada da “candura” dos santos. Outra tentação é reservarmos o caminho que nos conduz à verdadeira felicidade – outro nome para nos referirmos à santidade – apenas para alguns. É muito fácil acharmos que “isso não é para mim” ou então que “isso é só para alguns escolhidos”! Ninguém pode ficar de fora!

Apesar desse abismo que nos separa dos ideais de santidade, reconhecemos que habita em nós uma sede de felicidade e de nos unirmos cada vez mais a Deus. Como é belo encontrarmos em Teresinha remédio para isto: «Deus não pode inspirar desejos irrealizáveis. Posso, portanto, apesar da minha pequenez, aspirar à santidade. Fazer-me crescer a mim mesma é impossível; tenho de suportar-me tal como sou, com todas as minhas imperfeições. Mas quero procurar a maneira de ir para o Céu por um caminhito muito direito, muito curto; um caminhito completamente novo» (Ms C, 2vo).

Os desejos que sentimos no nosso interior e que Deus vai provocando em nós de formas tão criativas não podem ser impossíveis de realizar. A sede de infinito que habita em cada ser humano é despontada por Deus. Umas vezes, é labareda acesa, outras vezes é cinza que necessita de ser remexida para reacender. Mas o desejo, esse nunca desaparece, pois Deus escolheu-nos para sua morada.

Teresa do Menino Jesus é profética nos nossos dias. Resigna-se à verdade daquilo que é. Não busca uma imagem idealizada daquilo que pretendia ou gostaria de ser. A jovem carmelita descobre-se amada por Deus como é, e não como gostaria de ser. Seria belo descobrirmos na verdade daquilo que somos, apesar dos espinhos e abrolhos, um jardim mimado por Deus onde Ele tem as suas delícias.

Espanta-me a pressa de Teresinha. Sim! Tinha pressa de ser santa! Por isso, busca um caminho curto, pequenino e eficaz. Também nós não temos essa presa, de que se rasgue finalmente o véu e possamos chegar à meta? Mas as escadas para subirmos a esses patamares são altas e íngremes…

No final do século XIX, século de invenções e avanços técnicos admiráveis, começam a surgir os elevadores. Teresinha, que os havia visto, descobre que necessita de encontrar um ascensor que a leve até Jesus, evitando assim as duras escadas. Por fim, descobre-o: «O ascensor que me há de elevar até ao Céu, são os vossos braços, ó Jesus! Para isso não tenho necessidade de crescer; pelo contrário, é preciso que eu permaneça pequena, e que me torne cada vez mais pequena» (Ms C, 3ro).

Sentimos o gozo e o gáudio desta jovem francesa quando descobre que deixando-se abraçar por Jesus poderá, enfim, chegar à santidade tão desejada. Este pequeno caminho, não pode ser percorrido pelos grandes e gente inchada de si própria. É o caminho do Evangelho, dos bem-aventurados, dos pobres e humildes, dos mansos e puros de coração. É o caminho de Jesus que abre os seus braços para nos fazer descobrir as maravilhas do seu amor. É o caminho da misericórdia, daqueles que se descobrem profundamente amados por Jesus, onde são desvendados os segredos desta ciência saborosa reservada aos pequeninos.

O caminhito, afinal, é para gigantes, como Teresa do Menino Jesus. Para ele, todos estamos convidados. Vivamos somente do e no amor de Deus. Que esta bela melodia nos ajude a dar o salto para os braços de Jesus e a vivre d’amour: https://www.youtube.com/watch?v=ll5ZYPxOf8c.

* Publicado no Diário do Minho de 2 abril 2023