Armindo Vaz, OCD
Maio sintoniza com Maria e com orações cristãs feitas a ela, a celebrá-la e a invocá-la. Já desde o séc. XVII se combinou com devoções, procissões, peregrinações e recitações do rosário em honra dela. Mas aqui vamos em busca da oração feita por ela, para ver como rezava ela.
Não são muitos os textos do Novo Testamento que falam da oração dela. Mas, quando os evangelhos canónicos registam o primeiro acontecimento teológico sobre a vida de Maria (nas cenas da anunciação do anjo e da visitação a Isabel, que inclui o magnificat), põem-na a rezar, a proclamar a grandeza de Deus, na conclusão do episódio. Está no evangelho de Lucas 1,26-56. E mal começamos a escutar o relato da anunciação do anjo, acorrem à memória as imagens que a multiforme arte cristã difundiu nos muros, quadros, telas, capelas e igrejas, pintando o enviado de Deus à jovem que era convidada a aceitar ser mãe do filho de Deus. De facto, a cena evangélica põe a transcendência, simbolizada pelo anjo, em diálogo com o mundo dos humanos e a interpelá-los: não parecendo oração em sentido estrito, convoca a piedade para a oração de louvor e contemplação. Não admira, pois, que nas centenas de pinturas clássicas da «anunciação do anjo a Maria» os artistas a tenham pintado a ler as Escrituras em atitude de oração meditativa. Isto não é tentativa forçada de achar o que não existe. Realmente, a jovem aí apresentada é tão sublime que só pode ser admirada e contemplada em atmosfera e atitude de oração. O cintilante ícone da «anunciação a Maria» não é simplesmente poesia. É contemplação e oração.
O diálogo avassalador entre os dois protagonistas do quadro, o mensageiro divino e Maria, é a expressão plástica da Palavra de Deus a comunicar-se a ela, que a fez compreender que o seu filho era filho de Deus. De facto, o anjo da Palavra é um ícone da Palavra de Deus, também palavra das Escrituras hebraicas, que seria familiar a Maria e que o mensageiro divino cita em abundância, fazendo-lhe pelo menos doze referências: a textos, temas, imagens, figuras, personagens, expressões e palavras. Assim, Maria a responder ao anjo é, na realidade, Maria a rezar com a Palavra de Deus. E esta conclusão não é alegoria. Dimana do teor do próprio texto. O anúncio a Maria complementa os numerosos anúncios de nascimento prodigioso no Antigo Testamento, desde o de Isaac, passando pelos de Sansão e de Samuel, até ao do Emanuel. É a mesma mensagem, do princípio ao ponto culminante da revelação bíblica, que alimentava a meditação e a oração de Maria.
Se no diálogo do anjo com Maria temos a Palavra de Deus a dirigir-se a ela, essa é uma superior forma de oração: é Maria orante à escuta da Palavra de Deus, anulada a distância, mantida a transcendência. Aliás, nesta cena do anúncio da concepção e do nascimento de Jesus estão presentes os elementos da oração cristã: Deus Pai actua pelo seu Espírito no interior de Maria, gerando nela o filho Jesus, que enche a sua vida e lhe dá o mais elevado sentido. Por sua vez, Maria, tendo respondido incondicionalmente a esse eterno desígnio de Deus e dispondo-se a realizar na sua vida o que a ela correspondia (“faça-se em mim segundo a tua Palavra”), pode ser vista como modelo de oração, na medida em que a oração dela confirma a fidelidade à palavra de Deus. A sua oração tinha sido eficaz. De facto, logo a seguir, indo apressadamente visitar a prima Isabel, a sua vida pôs-se a caminho em obediência à palavra de Deus (Lc 1,38-39), representada pelo anjo.
Noutro pormenor da cena, o primeiro que Lucas conta de Maria apresenta-a como «virgem»: “O anjo Gabriel foi enviado por Deus… a uma virgem…; o nome da virgem era Maria” (1,27). E, quando ela, ao anjo que lhe propõe ser mãe, responde que é virgem, “o anjo disse-lhe: O Espírito Santo virá sobre ti…”. A linguagem figurativa e contemplativa de Lucas – que, como a de Mateus no mesmo contexto da anunciação do anjo a José, não é de história nem de biologia, nem se pode entender à letra – reforça bem dois absolutos: o protagonismo absoluto do Espírito de Deus na geração activa de Jesus e a virgindade de Maria enquanto símbolo do ser absoluto e darealidade transcendente na geração passiva de Jesus. Em Maria a fecundidade vem do Espírito de Deus (“o Espírito Santo virá sobre ti”). A virgindade significa que o seu filho é de Deus: dois pólos da vida de oração de Maria, o Espírito de Deus e a virgindade dela, a transportarem para a contemplação de Jesus como filho de Deus e de Maria como sacrário do filho de Deus. De facto, a afirmação do nascimento de Jesus da virgem Maria não visa defender a sua castidade intocada. Quer apelar à fé no mistério de Jesus como filho de Deus, colocando-o no centro da oração de Maria à escuta: “ele será grande, será chamado filho do Altíssimo…; o que é concebido santo será chamado filho de Deus”. Ela percebeu o mistério do seu filho em diálogo com a Palavra de Deus: “como será isso?”. E a Palavra de Deus remete-a para a acção do Espírito: “o Espírito Santo virá sobre ti”. A vida humana compreende-se melhor a partir do Alto.










