Frei João Costa, OCD
1. Não há ressurreição sem paixão, sem morte. E eis que, depois da paixão e morte de Jesus, aconteceu o que tinha de acontecer, e Ele tinha prometido: ressuscitou. A ressurreição de Jesus (e não a sua morte) é o que celebramos ao longo dos dias da Páscoa. Levamos, aliás, um dia do tamanho de uma semana – é hoje a Pascoela – a celebrar a ressurreição do Senhor. E não bastando tal dia, celebrá-la-emos durante cinquenta como um só! Celebrá-la-emos durante a longa jornada da fé de cada um! O que mais neste tempo de luz nova haja de considerar-se é que se quase todos Lhe falharam (salvou-se a Mãe, um pequenino punhado de mulheres e um menino, João), Ele não, Ele não nos falhou! E jamais nos falhará. Se, primeiro, uns se acobardaram ou Dele se esconderam, Ele saltou do sepulcro onde O haviam encarcerado por três dias, e veio ao seu encontro! E se outro O traiu amargamente, e um outro negou abertamente conhecê-l’O, Ele veio, depois, sempre depois, ao seu encontro, para os confirmar na amizade que os unia, e que jamais Ele rasgou ou declinou. E se agora todos se sentem envergonhados, temerosos e arruinados, Ele apressa-se a trazer-lhes o que mais falta lhes faz: o perdão e a reconciliação, o consolo e a paz – e é Ele quem os dá sem que sejamos nós a pedir. O Ressuscitado vem, pois, com cicatrizes – e tem mesmo de tê-las e tem mesmo de exibi-las –, mas não com mágoas; tem boa memória, e tem, sobretudo, perdão!
2. Leio no Expresso desta semana um ensaio de J. Gameiro sobre a dignidade relacional. O que aquele psiquiatra escreve naquele jornal leio tudo; não é para concordar ou discordar da sua escrita leve, profunda, experiencial, humana, mas para desfrutar e aprender dela. Neste sábado (15 de abril) li-o para discordar. Apressada por ali encontrei a palavra perdão e fui ler com atenção: «O perdão resolve, temporária ou definitivamente, a raiva, a zanga e dá novo ar a uma relação, mas não consegue limpar a indignidade dos actos praticados».
Discordo, obviamente. Tal como discordo quando oiço: «Perdoo, mas não esqueço». Perdoar é perdoar, esquecer é esquecer. São verbos diferentes, não são sinónimos nem concomitantes. Por isso discordo. Tal como discordo de J. Gameiro que, obviamente, escreve fora das linhas em que me inscrevo e revejo. Ele é médico, eu padre; de algum modo cientista, eu nem aprendiz. Tenho, porém, um não sei quê que me diz que o perdão tem algo de fundante e eterno: lava uma árvore inteira, desde as folhas e os frutos por nascer até às raízes mais profundas da alma. Lava e cura, já agora. Serena e engrandece. Engrandece e enobrece, jamais diminui.
Perdoar lava a mão que fere e abranda a dureza da cicatriz que persiste.
3. E eis que vejo uma sala obscura, obscurecida, fechada, depressiva. De repente, não sei situá-la no tempo. Sei, sim, que existe. Pode ter sido há dois mil anos, pode estar a acontecer agora. Uns quantos homens rondam por ali, mas talvez nem sejam homens, talvez, espectros, fantasmas.
Não sei dizer como, sei que o escuro da sala é irrompido e iluminado por dentro; sei que a fria laje de pedra é quebrada e removida por dentro, como se o Morto sempre tivesse estado ali e, agora, fendendo o bafo escuro com o vigor de um círio aceso, poderosamente se erguesse para alumiar a sala, o coração e o rosto dos espectros, para lhes falar, os inundar de vida, os afogar em alegria nova.
Uma coisa tenho por certa: o Morto que ora naquela sala se alevanta e luminosamente se impõe, é o Ressuscitado, é Jesus Crucificado – o Homem das cicatrizes. Isso mesmo foi o que sentiram os primeiros discípulos quando, na auto-reclusão imposta naquele obscuro cenáculo pres-sentiram a brisa suave de Jesus irrompendo-lhes por ali dentro, pelos olhos, pelas mãos, pelas narinas, até à alma! Foi aquilo tão veementemente forte, tão luminosamente verdade, que jamais duvidaram estar na presença de Jesus – aliás, dariam e deram a vida por isso! Não é que tenham encontrado palavras para dizer ou perceber a ressurreição, não. Simplesmente viram as marcas das feridas no corpo de Jesus e identificaram-no com o Mestre outrora tão amado e depois negado e depois ultrajado e morto. O não saber compreender como, luminoso e majestoso, estava Ele ali, no meio deles, rasgando a noite e dissuadindo-os do medo escuro, só tem paralelo na alegria que neles estralejou. Uma alegria assim, a única que por si só pode arrebentar o coração, só explode quando sente e sabe que temos por inexoravelmente alcançada a vitória sobre um inimigo invencível que contra nós arremetera para nos devorar – e não há inimigo mais omnívoro que a morte! Por isso que o Morto estivesse Vivo não sabiam eles explicar, mas também não sabiam como suster a alegria que dali irrompia porque ali estava Ele, novo, de novo e invencível, com eles!
4. Das palavras até agora ditas re-sublinho três: traição, morte, perdão. O homem traído por seus amigos mais íntimos – íntimos e eleitos para o ser – fora conduzido à morte por seus inimigos. Sim, estivera morto; mas ao Único que podia e pôde visitar os mortos para lhes quebrar as cadeias que os prendiam à escura morte foi dado o fôlego mais forte: o de erguera-se do escuro poço da morte, vir para o meio dos seus amigos – que traidores eram, que medíocres eram, entendamo-lo bem! – para… para os perdoar, e perdoando-os, reerguê-los, firmar-lhes a fé e a amizade, e enviá-los como seus mensageiros.
Isto a mim me basta; isso me basta, sim: digam-me não existir perdão, digam-me da impossibilidade do perdão para sempre, digam-me que por traição, ciúme, cobardia ou indiferença as mãos e a consciência ficam manchadas e impossibilitadas de purificar-se e branquear-se. Digam-me todas essas impossibilidades, digam-me, que isso mais me recorda que um Homem se ergueu do reino da morte para ser constituído seu vencedor; e erguendo-se Vencedor do pior dos inimigos, o primeiro passo seu foi ir à sala onde jantara pela última vez com aqueles amigos – precisamente os que O haviam traído e abandonado nas mãos dos inimigos. Bem sabia o Homem que, vencidos e humilhados, ali os encontraria; bem sabia que se o arrependimento matasse mortos ao haveria de ver; bem sabia que lambendo as chagas do remordimento os acharia. E, porém, quando definitivamente se poderia deles vingar, atirando-lhes tudo à cara, culpando-os e humilhando-os, Ele, afinal os perdoou! E dando-lhes de seguida um abraço de paz, engrandeceu-os!
Assim é Jesus, o Homem das cicatrizes! Só um coração traído, rasgado e macerado e, porém, ardentemente vitorioso, pode perdoar!
5. Como certo dia reflectiu o Papa Bento XVI, também a mim me impressiona que no início de cada Missa, sempre cada um e cada uma de nós haja de confessar a sua culpa, sua culpa, sua «tão grande culpa», e logo ali, humilde, haja de fazer o seu pedido pessoal de perdão. Ou seja: óbvio é que somos perdoados antes de O recebermos como Palavra e como Pão – pedir perdão e ser perdoados vem sempre em primeiro lugar. Havemos, por isso, de reparar que não nos basta comê-l’O! Obrigados somos a, previamente, nos deixarmos ser preparados, afeiçoados e alindados por Ele, e só depois, obrigatorimente depois, dignos de abrir boca e comungá-l’O…
O perdão existe e é eficaz. Perdoar não é esquecer nem ignorar o mal feito ou sofrido. «Perdoar, como dizia aquele velhinho Papa, não é ignorar, mas transformar, ou seja, depois da morte na Cruz, Deus deve entrar neste mundo e opor ao oceano da injustiça um oceano maior de bem e de amor».
Sim, sim, depois da morte e sepultura, sendo já livre das peias do tempo e do espaço, podendo escolher fugir para o céu, Jesus preferiu reentrar no mundo e construir uma história nova. Poderia ter-nos abandonado, mas preferiu vir para o meio daquela sala escura e depressiva, e amar-nos, e abraçar-nos. Podia ter-se negado, mas é óbvio preferiu voltar para nós para nos perdoar! Quem isto pode perceber?
6. Aquele Papa Velhinho tão mal-amado em seus dias, escreveu no seu testamento espiritual: «Do fundo do coração peço perdão a todos aqueles a quem fiz mal de algum modo». Sim, Deus o perdoe, e em cada dia Ele nos perdoe também a cada um e a cada uma de nós, para que em nós se acrescente a consolação do perdão por maior que possa ser a nossa culpa pessoal. Poderá, afinal, existir grandeza maior do que a de ver que Deus acredita em mim e na minha força de mudança e de transformação? E perdoados que somos, não nos deveríamos ver a nós mesmos como um rio de bem que mais se acrescenta e cada vez se volve maior que o oceano de maldades no nosso mundo?










