Irmã Sofia da Cruz, Carmelo de Aveiro
Entendo bem as dificuldades que sentes na oração e não me parece que tenhas de desanimar por isso, pelo contrário, pelas dificuldades, tens de permanecer firme, fiel e perseverante ao tempo que estabeleceste para a oração. Só assim poderás sentir alegria de ultrapassar as dificuldades e conhecer a força do amor de Deus que nos torna fortes e vitoriosos em Cristo Jesus.
As dificuldades fazem parte do caminho de todos nós que queremos ser orantes. Elas são apenas uma oportunidade para crescermos interiormente e nos enraizarmos em Cristo. Vou partilhar contigo um momento orante do meu caminho.
Habitualmente despertava às seis horas para apanhar o autocarro das seis e vinte e cinco que me levava próximo do local da oração, que era das sete às oito. Num dos dias fui para a oração cheia de angústia, parecia que nada fazia sentido, a minha vida era como um amontoado de coisas dispersas entre si, não havia continuidade nem nexo e, na verdade, eu não acabava de me identificar com o que vivia. Sentia-me cansada e abatida. E todo o tempo da oração andei à volta destes sentimentos que me centravam em mim e me afastavam de Deus. Abri a Sagrada Escritura à procura duma Palavra que me desse Vida, mas nada me tirava daquela aridez.
Entretanto, o tempo tinha passado e deram sinal para concluir a oração. Na esperança de encontrar algum sinal da presença de Deus, voltei a abrir a Sagrada Escritura e deparei-me como o capítulo quatro do Evangelho de S. João, que falava da Samaritana. Lentamente, como quem procura um tesouro, comecei a ler e parei no versículo vinte e nove que diz: «Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será Ele o messias?» Ao parar aqui, senti que alguém estava a olhar para mim intensamente, levantei os olhos à procura da pessoa que me olhava, mas não encontrei ninguém, todos estavam recolhidos a fazer o exame da oração. Voltei a fixar a atenção nas palavras do evangelho, mas de novo aquele olhar intenso estava obre mim e parecia penetrar no meu interior profundamente, levantei os olhos à procura da pessoa, mas não a encontrei. De novo me centrei nas palavras da mulher, mas o olhar foi mais intenso e penetrante então levantei os olhos e olhei em frente, diante de mim tinha uma imagem de Cristo crucificado de tamanho real, então caí na conta que era Ele que me estava a olhar. Era o seu olhar penetrante e profundo que unificava todo o meu ser e me enchia de vida nova.
Deus estava a olhar para mim e o seu olhar enchia-me de paz, de luz, de alegria. O Seu olhar transformava a minha vida em amor, de tal maneira que tudo se tinha convertido em graça e dentro de mim ficava a síntese: o único necessário é deixar-se olhar por Deus.
Este encontro foi tão forte e profundo que me impelia a correr para anunciar. De facto, deveria deixar o grupo de oração e ir à Faculdade de Bioética dar pistas de oração. Não sei como foi, mas o percorri o caminho até ao autocarro em menos de metade do tempo e parece-me que não pus os pés no chão, o amor que levava dentro de mim era de tal maneira que me fazia voar. O amor tinha-se apoderado de todo o meu ser e era impossível que ele não transbordasse por todos os lados.
Aos estudantes falei do encontro transformador da mulher samaritana com Jesus, a partir o versículo que me tinha tocado a mim: «Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será Ele o Messias?»
Do Contexto Narrativo e Social
O Encontro no Poço: Jesus quebra barreiras culturais, religiosas e de género ao falar a sós com uma mulher samaritana (um grupo historicamente rival dos judeus).
A Revelação Omnisciente: Antes deste versículo, Jesus revela conhecer o passado íntimo da mulher (os seus cinco maridos e a sua situação atual), sem qualquer julgamento ou condenação.
A Transformação Imediata: Impactada por essa revelação, a mulher deixa a sua cântara de água (símbolo das suas preocupações terrenas) e corre para a cidade para partilhar a descoberta.
“Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz”
O Poder da Omnisciência: Para a mulher, o facto de um estranho conhecer toda a sua vida era uma prova clara de uma faculdade divina ou profética.
A Cura da Vergonha: O seu passado, que antes a isolava da sociedade (levando-a a tirar água à hora mais quente do dia para evitar as pessoas), torna-se agora o tema central do seu testemunho público.
O Evangelho Prático: Ela não prega uma teologia complexa; ela simplesmente convida os outros a terem a mesma experiência pessoal que ela acabou de viver (“Vinde ver”).
“Não será este o Cristo (o Messias)?”
Uma Pergunta Retórica: Na língua original (grego), a estrutura da pergunta sugere uma timidez humilde, mas cativante. Ela não se impõe como doutora da lei, mas lança uma dúvida que desperta a curiosidade de toda a comunidade.
A Identidade Revelada: Pouco antes, no versículo 26, Jesus tinha afirmado explicitamente: “Sou eu, que falo contigo”. A mulher processa essa revelação e partilha-a de forma a que os seus vizinhos queiram investigar por si mesmos.
A Expectativa Samaritana: Os samaritanos aguardavam o Messias (chamado por eles de Taheb), que viria principalmente como um mestre e restaurador que revelaria todas as coisas. A capacidade de Jesus de “dizer tudo” encaixava perfeitamente nessa expectativa.
O Impacto Missionário do Versículo
A Primeira Evangelista: Ironicamente, uma mulher marginalizada torna-se a primeira missionária a levar a mensagem de Jesus à região da Samaria.
Resultado do Testemunho: Mais à frente no capítulo (João 4:39), o texto bíblico afirma que “muitos dos samaritanos daquela cidade creram nele, por causa da palavra da mulher”.
Da Fé Indireta à Fé Pessoal: O convite dela funciona perfeitamente. Os samaritanos vão até Jesus, pedem-lhe para ficar com eles e, após dois dias, concluem: “Já não é pelo que disseste que cremos; porque nós mesmos o ouvimos, e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo” (João 4:42).
O contágio das minhas palavras parecia cativá-los e lançá-los para o desejo de também eles se deixarem olhar por Jesus para se deixarem amar e transformar em amor. Para mim foi muito consolador ver os seus olhos a brilhar iluminados pela luz que Jesus lançava sobre eles.
Não posso concluir a resposta à tua carta sem te falar da célebre máxima de S. João da Cruz, que certamente já conheces: “O olhar de Deus é amar”.
A ligação entre o encontro da mulher samaritana em João 4 e a afirmação de São João da Cruz é profunda, tocando no núcleo da teologia bíblica e da antropologia espiritual. O que a samaritana experimentou de forma histórica e narrativa no poço é exatamente a realidade teológica que o místico carmelita sistematizou séculos mais tarde no seu poema Cântico Espiritual.
Aconselho-te a levares para a oração esta partilha orante da relação entre a experiência da Samaritana e a afirmação do santo e te coloques, tu mesmo, sob o olhar de Deus.
“O Olhar de Deus é Amar”
No comentário à estrofe 32 do Cântico Espiritual, São João da Cruz explica que o olhar humano pode ser apenas informativo ou curioso, mas o olhar de Deus é ativo, criativo e transformador.
O olhar que concede valor: Para o místico, Deus não nos ama porque somos bons ou belos; nós tornamo-nos belos e dignos porque Ele nos olha com amor.
Olhar é fazer mercês: Na linguagem de São João da Cruz, “el mirar de Dios es amar y hacer mercedes” (o olhar de Deus é amar e conceder graças). Deus, ao olhar para a alma, nela imprime a Sua própria graça e formosura.
A Convergência com João 4: “Disse-me tudo o que fiz”
Quando a mulher samaritana diz que Jesus “lhe disse tudo o que ela fez”, ela não está a descrever uma adivinhação fria ou uma acusação. Ela está a descrever a experiência de se sentir plenamente vista.
Um olhar sem julgamento: Jesus expõe a sua verdade (cinco maridos e o atual companheiro) sem qualquer tom de condenação ou desprezo. Ele olha para a sua ferida existencial e para a sua sede de afeto com total compaixão.
A revelação da verdade sob a ótica do amor: O facto de Ele saber tudo e, mesmo assim, continuar ali, a conversar com ela e a oferecer-lhe “Água Viva”, prova que aquele olhar conhecedor era, essencialmente, um olhar amoroso. Ela sentiu-se amada na sua total vulnerabilidade.
Paralelos Teológicos e Espirituais entre as Duas Visões
| Dimensão Espiritual | A Mulher Samaritana (João 4) | São João da Cruz (Cântico Espiritual) |
| A Iniciativa | Jesus já estava sentado junto ao poço à espera dela. | Deus olha primeiro para a alma antes que ela o procure. |
| O Efeito no Passado | O passado de vergonha é integrado e transformado em testemunho. | O olhar divino limpa, purifica e cura as quedas da alma. |
| A Transformação | Ela deixa a cântara; a sua sede interior é saciada. | A alma fica ferida de amor e corre atrás do Amado. |
A Síntese: O Conhecimento Divino como Abraço Misericordioso
A grande intuição que une João 4 a São João da Cruz é a desmistificação de um “Deus vigilante fiscalizador”.
Para a samaritana, descobrir que Alguém sabia tudo sobre ela poderia ter sido assustador; no entanto, resultou numa libertação jubilosa.
São João da Cruz explica o porquê: porque quando Deus nos “examina” com o Seu olhar, esse exame não é um tribunal inquisitorial, mas sim um processo de purificação e embelezamento.
A omnisciência de Jesus no poço não é um exercício de poder intelectual, mas a manifestação visível do olhar eterno do Pai que, ao conhecer a nossa miséria, responde com a superabundância da Graça.
Fico a rezar por ti, para que te deixes olhar por Deus e sintas o abraço terno e misericordioso com que Ele te acolhe a cada instante e dá sentido a toda a tua vida. Não te esqueças que a oração é o lugar onde Deus nos olha profundamente para nos encher do Seu amor. Nunca desistas de oração!










