Armindo Vaz, OCD

Compreende-se que a Bíblia faça a exaltação e o encómio da velhice. É para ela, conjugada com a sabedoria, que convergem os valores mais nobres da vida inteira, como: o discernimento entre o que é importante e o que não é, entre o que pode mudar e o que deve permanecer, entre o que é perene e o que é caduco, a consciência dos limites, a coragem (como a do mártir macabeu “Eleázar, varão de idade avançada, um dos primeiros doutores da Lei”: 2Mc 6,18), a serenidade, o respeito por si próprio, o testemunho irradiante de uma vida pacata que deixa transparecer o sentido mais profundo das coisas, o sentido último dado à existência em Deus, a valorização da vida vivida sem a estragar num breve acto de desatino… Porque o tempo desgasta, envelhece e destrói a embalagem da pessoa, o ancião bíblico investia no seu conteúdo. Neste sentido, era um autêntico sobrevivente: tinha sobrevivido à eventual perda da esposa, de familiares, a acidentes, à migração, à guerra, à fome, às críticas devastadoras…, tudo motivações para ele se sentir beneficiado pela bênção de Deus. Depois de muitos trabalhos e sofrimentos, o ancião sentia a alegria incontida dos náufragos que chegam à praia, salvos da tempestade.

Mas, a equação entre longevidade e sabedoria não era automática. E a longevidade não era um valor só por si, pois poderia não saciar o tempo do ancião. Na perspectiva bíblica, é mais o temor reverencial do Senhor a dar sabedoria. Job põe a questão assim: “Não são os anciãos os mais sábios, nem sempre os anciãos compreendem o mais justo” (Job 32,9). O salmista concorda: “Tenho mais entendimento que os anciãos, porque tenho cumprido as tuas instruções” (Sl 119,100). Continuando esta linha de argumentação, o livro da Sabedoria no séc. I a.C. defende que “velhice venerável não consiste em longa vida, nem se mede pelo número dos anos. As cãs dos homens são a prudência; e verdadeira velhice é uma vida imaculada” (4,8-9). Velhice louvável e louvada é aquela em que a rectidão é a forma da existência. É a rectidão que enche de luz e torna nobre a velhice. Quem recebe as honras não é a velhice mas a sabedoria, porque mesmo grandes personagens nem sempre souberam manter com a idade a coerência que se esperaria delas. Exemplo dessa inconsistência foi Salomão, que, depois de uma juventude sábia, ao tornar-se ancião se deixou extraviar gravemente. Os seus biógrafos foram implacáveis no veredicto: “Quando envelheceu, as suas mulheres atraíram-no para adorar outros deuses, de modo que ele deixou de amar o Senhor, seu Deus, de todo o coração” (1Rs 11,4). Por isso, não admira que nas invectivas dos profetas os anciãos mal comportados sejam considerados os primeiros responsáveis pela situação de corrupção moral e humana da gente (Is 3,14; 9,14; Ez 8,10ss). De que serve a inteligência se não gera sabedoria?

De qualquer maneira, a Bíblia oferece uma gramática humana para aprender dos seus anciãos a sapiência que faz amizade com o tempo e com a lenta aproximação do fim de vida. De resto, na Bíblia, a morte do “ancião cheio de dias” não aparece como um monstro devorador ou um fantasma medonho. É simplesmente – parafraseando Fernando Pessoa – um deixar de ser visto no caminho ao dar a última curva (a poesia de Pessoa reza assim: “A morte é a curva da estrada, / Morrer é só não ser visto.”), como se a pessoa ao fim da vida longa sentisse o cumprimento da missão que lhe fora encomendada pelo «Deus dos pais». E aqui a fé bíblica vive uma tensão: enquanto a morte em plena juventude leva a clamar dramaticamente diante de Deus «porquê?», o fim de uma velhice venerável é resgatado da angústia. Mesmo assim, o fim da velhice chega sempre demasiado cedo (cf. G. LIVINGSTON, A velhice chega demasiado cedo, a sabedoria, demasiado tarde [Presença; Lisboa 2010] 13-23.).