- Parabéns, Verónica, por mais um novo livro. De que urgência nasceu este livro? Aliás, até parecem dois livros: um em formato texto, outro em formato ilustração!
Muito obrigada, Frei João! E obrigada também às Edições Carmelo pela aposta que fizeram. Pois bem, acredito que todos os livros têm uma origem invisível. Antes de serem escritos, são vividos. O Vozeirinhos nasceu de muitos encontros, de muitas escutas e de um profundo respeito pelo universo da adolescência.
Ao longo do meu percurso como educadora, investigadora e mulher profundamente fascinada pelo crescimento humano, fui percebendo que os adolescentes transportam um mundo interior de enorme riqueza, mas nem sempre encontram espaços seguros para o revelar. Vivemos numa sociedade que lhes exige resultados, autonomia e decisões cada vez mais precocemente, mas que, paradoxalmente, lhes oferece poucas oportunidades para aprenderem a conhecer-se por dentro. Ensina-se a resolver problemas, mas raramente a reconhecer o medo, a compreender a tristeza, a acolher a diferença ou a celebrar a alegria.
Foi desta constatação que nasceu o Vozeirinhos.
Quis escrever um livro onde a leitura fosse mais do que um lugar de histórias. Quis que fosse um espaço de (re)encontro, de escuta e de educação através das emoções. Acredito profundamente que as narrativas possuem um poder quase alquímico: permitem-nos olhar para as emoções através da vida das personagens e, sem darmos conta, acabamos por encontrar um pouco de nós próprios, de mim e dos outros, e dos outros em mim.
Cada conto é um convite à reflexão. Não procuro oferecer respostas fechadas, mas despertar perguntas. Afinal, educar não é encher alguém de certezas; é ajudá-lo a descobrir o sentido das suas próprias experiências. E foi a partir das experiências dos outros que as escrevi…
Há uma frase de Rubem Alves que me acompanha: «Educar é mostrar a vida a quem ainda não a viu». Talvez o Vozeirinhos seja isso mesmo: uma tentativa de iluminar, com delicadeza, algumas pequenas vozes onde tantas vezes habitam o silêncio, a dúvida e a desesperança.
Quanto às ilustrações, sinto que este livro teve a felicidade de encontrar a pessoa certa para tal. São da minha querida amiga Gita Pereira, que em boa hora a vida colocou no meu caminho através do meu grande amigo Simão Pedro. Houve entre nós um encontro de sensibilidades difícil de explicar. A Gita não ilustrou simplesmente os contos, ela interpretou-os; entrou em cada história com uma escuta muito própria, compreendeu-lhe os símbolos, os silêncios e as emoções, e devolveu-os através da sua arte de uma forma absolutamente comovente.
As suas ilustrações falam por si. São de enorme riqueza artística e emocional. Não explicam simplesmente os textos, dialogam com eles. Ampliam-nos. Acrescentam camadas de significado e convidam o leitor a permanecer mais tempo em cada história.
Gosto de pensar que o Vozeirinhos tem duas almas. Uma escreve-se com palavras; outra desenha-se com luz, cor e silêncio. E ambas caminham na mesma direção: tocar o coração de quem lê. - O Vozeirinhos é uma leitura para gente madura ou para jovens? Se é para jovens, acreditas mesmo que eles o vão ler?
O Vozeirinhos foi pensado para adolescentes, mas acredito que pertence a todos aqueles que nunca deixaram de procurar compreender o ser humano.
A adolescência é um tempo profundamente belo e exigente. É a estação da vida onde se constroem identidades, onde nascem grandes sonhos, mas também grandes inquietações. É quando começamos a perguntar quem somos, quem queremos ser e onde encontramos o nosso lugar no mundo. (Perguntas que muitas vezes ouvi o Padre Maciel proferir nas homilias dominicais, quando ia acompanhada de meus pais.) Eu também já fui adolescente. Todos o fomos ou estamos a ser. E que belo caminho que percorremos! Hoje, enquanto educadora, aprendi que não basta ensinar conteúdos. É igualmente necessário educar o coração. A escola, a família e a sociedade têm a missão de ajudar os adolescentes a desenvolver competências emocionais, a empatia, o pensamento crítico e a capacidade de construir relações saudáveis, porque a educação não acontece apenas quando transmitimos conhecimento; acontece, sobretudo, quando ajudamos alguém a compreender-se a si próprio. É precisamente aí que a leitura revela toda a sua força.
Uma história pode abrir caminhos que um discurso nunca conseguiria abrir. E por sua vez, uma personagem pode dizer aquilo que um(a) adolescente ainda não consegue verbalizar. Enfim, um conto pode tornar-se um espelho onde o leitor se reconhece sem medo de ser julgado.
Perguntam-me muitas vezes se os adolescentes ainda leem. Sabe, Frei João, eu gosto de responder com outra pergunta: estaremos nós a escrever os livros que verdadeiramente dialoguem com os adolescentes? Será que sim?
Penso que os adolescentes continuam a procurar histórias autênticas, que respeitem a sua inteligência, que não os infantilizem e lhes permitam pensar, sentir e crescer.
Espero que o Vozeirinhos seja exatamente isto: um companheiro de viagem. Um livro que não lhes diga quem devem ser, ou como devem ser e sentir, mas que os ajude a escutar as pequenas vozes que já habitam dentro deles. Enfim, eu acredito que a leitura continua a ser uma das formas mais belas de educar a sensibilidade e de construir humanidade. - Sabes que ao lermos os contos parece que eles são reais?
Perfeito! Se assim é, fico muito satisfeita. Talvez seja o elogio que mais me emociona. Porque a realidade de uma história não depende dela ter acontecido exatamente daquela forma. Mas da verdade das emoções que transporta. As personagens são ficcionadas, claro, mas as emoções são profundamente humanas.
Ao longo da minha vida profissional – que já não é tão curta assim – fui escutando muitos adolescentes, muitas famílias, muitos silêncios e muitas perguntas sem resposta. Aliás, em meu tempo eu também as tive. E também vivi o turbilhão da adolescência. Mas repare: nunca escrevi a história de uma pessoa em particular. Escrevi, antes, aquilo que tantas vidas tinham em comum: o medo de não ser suficiente, a necessidade de pertença, a força da amizade, a dor da perda, a esperança que insiste em permanecer mesmo nos dias mais difíceis, porque a literatura tem esta extraordinária capacidade de transformar experiências individuais em património humano.
Quando um leitor encontra uma parte de si numa personagem, deixa de sentir que está sozinho – é isto que eu creio. Descobre que aquilo que sente tem nome, que pode ser compreendido e que faz parte do processo de crescer. É também por isso que considero a literatura uma poderosa ferramenta educativa. Ela ensina sem moralizar. Questiona sem impor. Humaniza sem julgar. Talvez os contos pareçam reais porque todos nós, em algum momento da vida, fomos um pouco de cada uma daquelas personagens. No fundo, acredito que cada história é simultaneamente um espelho e uma janela. Um espelho que nos ajuda a reconhecer quem somos. Uma janela que nos ensina a olhar os outros com mais empatia, mais compaixão e mais humanidade. Temos tanto, tanto, tanto para dar e para receber do outro. E talvez seja essa a mais bela missão da educação e da literatura: lembrar-nos que ninguém cresce e caminha sozinho.
e… 4. Explica-nos, por favor, o título do livro.
Vamos a isso. O título surgiu quase antes de todas as histórias. Sempre senti que, dentro de cada adolescente, existe um universo povoado de pequenas vozes. Aliás, assim foi a minha adolescência! Não são vozes exteriores. São a voz da consciência, da esperança, da dúvida, da coragem, do medo, da imaginação, da memória e dos sonhos.
Durante a adolescência, essas vozes tornam-se particularmente intensas, porque é precisamente nessa etapa que cada pessoa começa a construir a sua identidade e a procurar um sentido para a própria existência.
Escolhi chamar Vozeirinhos a este punhado de contos, porque aquilo que verdadeiramente transforma uma vida raramente chega de forma estrondosa. E porque as grandes mudanças começam, quase sempre, por um sussurro.
Uma palavra.
Um encontro.
Um abraço.
Uma família que nos ama.
Uma professora que acreditou em nós.
Um amigo que permaneceu.
Um grupo de jovens com quem nos identificamos.
Um livro que apareceu no momento certo.
Na educação acontece exatamente o mesmo. Nem sempre são os grandes discursos que deixam marcas profundas. Muitas vezes, é um pequeno gesto de escuta, uma pergunta feita com tempo, uma história que nos ajuda a compreender aquilo que nunca tínhamos conseguido nomear.
Gostaria muito que o Vozeirinhos fosse precisamente isto que acabo de nomear: um livro que fala baixo, muito baixinho, porque sabe que o essencial não é gritar. É amar!
Este é um livro que convida cada leitor e cada leitora, adolescente ou não, a fazer silêncio para escutar a sua própria voz interior.
Resumindo: acredito que educar é, antes de tudo, ajudar cada ser humano a descobrir quem é, a reconciliar-se consigo próprio e a encontrar, dentro de si, a coragem para florescer neste imenso jardim – embora ás vezes seja um deserto… – que é o mundo! Fui explícita? Espero que sim. E que os leitores apreciem. Os que são meus já apreciaram.
Obrigada, Frei João.











