Armindo Vaz, OCD

Continuamos a percorrer ‘O caminho dos monges’, iniciado em Agosto. Nas margens de outro afluente do Douro, o Távora, num ambiente de solidão e silêncio, em comunhão com a paisagem agreste, levanta-se quase inacessível mais um mosteiro da Ordem de Cister, o de S. Pedro das Águias. Construído num local que só para uma vocação eremítica é convidativo, em 1205 já é referido nas actas da Ordem. Mas já existia no séc. XII: no fim do século ter-se-á filiado a S. João de Tarouca. Os condes portucalenses, D. Henrique e D. Teresa, concederam-lhe a carta de couto. Por causa do seu isolamento, logo em 1227 o abade de S. Pedro das Águias pediu para mudar de sítio a abadia de montanha. Mas só em finais do séc. XVI os cistercienses acabaram por fundar um mosteiro novo nas proximidades, em Tabuaço, Távora. Mesmo assim, numa relação peculiar com a orografia envolvente, abrindo vistas que suspendem a respiração, o mosteiro original tem um lugar de relevo no panorama do românico português, enquanto vestígio remanescente dos mosteiros que integraram a Ordem de Cister a partir do séc. XII.

Outra marca da presença dos monges de Cister na margem esquerda do Douro esteve em terreno da actual Quinta da Granja, na freguesia de Almendra. Foi o mosteiro de S. Maria de Aguiar, referenciado pela primeira vez em 1176, quando o rei Fernando II de Leão doou ao mosteiro a pesqueira situada na granja, altura em que uma primitiva comunidade de monges beneditinos aqui se instalou. Na década de 1170, a comunidade abraçou a Ordem de Cister e deu então início a outra construção, que hoje existe perto de Figueira de Castelo Rodrigo, uns 20 km a sul do Douro. Em 1785 o cronista dos cistercienses refere que o mosteiro ainda possuía esta quinta que bordeja os rios Aguiar e Douro.

Os monges, ao depararem com o rio Douro e com as encostas que de uma e da outra margem subiam escarpadas, tinham adquirido, por volta do ano 1132, uma quinta na margem esquerda do rio, em frente à Régua. Chamava-se «Casa dos Varais», há muito pertencente à família Girão Azeredo. Foi a primeira a produzir o famoso vinho do Porto, então chamado «vinho cheirante de Lamego». Os vinhedos das actuais inumeráveis quintas não deixam apagar as memórias da original. Terão os monges percebido que as águas do rio ocultam e mantêm as condições climáticas que possibilitam a produção do vinho generoso? A água contribuía para a festa do vinho, como na missa.

Vê-se bem que os monges, trabalhando e educando entre o tempo e o céu, entre o amor e a aventura, foram responsáveis pelo grande desenvolvimento da agricultura vitivinícola na região. O resultado do seu trabalho resistiu ao tempo e chegou até nós, ultrapassando a região e os séculos. Desde o riacho de partida até ao caudaloso rio de chegada, os monges, abrindo caminho pelo frondoso arvoredo verdejante, os olhos antes dos pés, deixaram palavras eternas escritas a cor de vinho sobre as fragas graníticas que não envelhecem e não se desgastam. Cultivando as terras de encosta e colhendo os seus frutos, cantaram os salmos de uma vida, calcorreando vales umbrosos e férteis colinas. Adensando as encruzilhadas da história, outorgaram conteúdo ao tempo, valorizaram a geografia e transformaram o sabor do vinho, em íntima ligação com o ambiente rural. A sua obra perpetuou-se, quase invisível mas reconhecível, como o delicado cálice de vinho generoso depois da vida e do espírito deixados na alegria de quem o saboreou.

Assim, o ‘caminho dos monges’, com as marcas da presença cisterciense, faculta-nos uma viagem espiritual no tempo, até ao princípio do longínquo séc. XII, puxando para o presente as memórias que fizeram destas terras espaço de conhecimento e chão sagrado. O percurso proporciona aos que procuram descanso do corpo e da alma o característico dos monges: culto do silêncio e do despojamento, ápices de oração e comunhão ecológica com a natureza. De facto, as muitas igrejas e mosteiros, alguns bem conservados, mantêm a ligação ao sagrado, fundo último em que a vida cobra sentido. Os monges, legando ao mundo a imagem única de uma região, plantaram um Douro que mereceu tornar-se, por atribuição da UNESCO, Património da Humanidade em 2001. Tecendo com a sua intelectualidade uma privilegiada rede de expressão cultural, estimulando a circulação e o desenvolvimento do saber, valorizaram a paisagem, a história e a geografia, a faustosa arte arquitectónica e as tradições que, correndo pelo rio Varosa, desaguaram no rio Douro. Se os caminhos dos homens estão feitos de cruzes, cruzamentos e encruzilhadas, os monges fizeram-nos desaguar no rio Douro, nos seus horizontes rasgados, decorando as suas encostas com os vinhedos em socalcos.

A revisitação deste património cultural e religioso é um antídoto contra a voragem da mudança como fim em si: se reaviva o sentimento de perda, que se teve com a aniquilação de uma herança valiosa e de espaços de oração e de conhecimento a partir da extinção das Ordens religiosas em 1834, também faz tomar consciência daquilo que deveria permanecer e ser protegido. O património é suporte da memória. Perdê-lo é perder referências históricas, mais-valia para a educação dos vindouros. Não podemos esquecer o passado, sob pena de ir perdendo as raízes.