Frei João Costa, OCD

1.  Que até as pedras pularam, isso toda a gente viu. Que até elas se revelaram mansas e doces, di-lo quem, no último dia, suavemente repousou no chão do Campo da Graça.

Pedra agora eu seja como regaço manso.

Seja esta, pois, a legenda da minha participação na JMJ2023. Ainda que inteiramente velho não seja, já na outra ladeira me acho. E já não pulo, resvalo.

2.  Havia pressa no ar, daquela que faz voar. E a voar chegaram, e por entre nós saltitaram os peregrinos das Jornadas, qualquer fosse o nome tomado: Francisco, Júnior, Callie, Ashia, Alexia, Taís, Bjorn, Adriel, Omar, Fayola, Ukiuk, Sasha, Maria…

3.  Havia pressa no ar, e fora qual fora a montanha que urgisse passar-se – e todas elas por alguém algures são de passar – passámo-las, porque só o amor impele e dá asas.

Havia pressa no ar e – está bem de ver – não poderia andar tudo, tudo, tudo a voar, tudo a pular, tudo a rolar, montanha acima, montanha abaixo. Alguém tinha de ficar em casa.

Havia pressa no ar e eu fiquei em casa, de olho atento nos apressados, que quem vive apressado come cru.

Alguém tinha de dar-se ao calor das panelas, pois, sabido é que, sem pressas, vizinho delas é o Senhor.

Havia pressa no ar, e escolhi ficar em casa – não seria Maria, Isabel seria: a que dá os braços às surpresas e ao inesperado.

Havia pressa no ar e, porém, madrugador, dei comigo a correr estrada abaixo.

Sem pressa, Isabel e Maria fui.

A POMBA DA PAZ

3.  Junho, trinta e um. Fim de mês, véspera da abertura das JMJ2023. Antes da luz de Lisboa, os jovens Carmelitas Descalços sorveram o sol de Fátima, ao se concentrarem à volta dos braços da azinheira e sob o manto e o doce olhar da Mãe Mais Bela que o Sol. Vindos de três continentes, haveríamos de alcançar os duzentos e pico.

Ainda incomeçadas, a Esplanada do Santuário já revelava gente cansada: uns por acabarem de atravessar longos mares e continentes, outros por haverem palmilhado a pé o pó de dez duros dias, e ali estarem prontos para o que desse e viesse!

4.  Acordei à hora do Papa – quatro e meia! Despertei num virar de cama, a meio de um sonho; um daqueles tão clarividentes como uma clara profecia. Descrevo-o no que lembro (sabido é que nos sonhos nunca vemos os rostos…): duas longas alas de sacerdotes revestidos de túnicas brancas encaminhavam-se rumo a um altar. A procissão não leva nem cruz, nem evangeliário, nem acólitos. Eu que a ela assisto vejo que os guia um menino (em verdade, não sei se é menino, que nunca inteiro o cheguei a ver; sei-o baixinho e por isso intuo que seja menino…). Reparo bem o que leva na mão: o desenho vibrante de uma branca pomba da paz; melhor: o desenho da pomba da paz de Picasso! Foi dos sonhos mais lindos que tive: a pomba da paz voava adiante de nós, e revirava sobre nós, nas mãos de um menino que passava pelo meio da imensa multidão!

5.  Ao chegar a Fátima, e passando ali aquele dia, não vi muitos jovens, não, nem muitos sacerdotes! Mas vi o menino com o sorriso mais lindo do mundo visto e por ver. Chamava-se Pepe e devia ter a mesma idade que eu! Na sua cadeira de rodas Pepe era pequenino, baixinho e discreto, e tinha as mãos mais mansas e puras – as que melhor podem levar a voar o Espírito Santo que, garanto, voou por ali, das suas para as nossas, e pelo meio de nós, e em nossos corações se anichou.

BOLACHA MARIA

6.  Congregados fomos no Centro Pastoral Paulo VI. Pela manhã achou-se ali um belo diálogo com o Padre Geral, Frei Miguel Maria Márquez que desafiou os jovens Descalços a viverem centrados no essencial – a amizade com Jesus –, no serviço à Igreja, como Santa Teresa e São João da Cruz, e atentos aos sinaizinhos pequeninos que a vida nos propõe mesmo quando em noite escura.

(É sabido ser na noite que melhor se apreciam os luzincus!)

7.  Cabe aqui, por fim, e até convém, a história da Bolacha Maria. Tem a ver com a vocação do P. Miguel Maria, quem, na sua juventude entrou por acaso num locutório de Descalças – nunca vira ele mulheres tão felizes, confessa. Tão felizes eram que ele se autoimpôs indagar da fresca fonte de tal felicidade por querer ir lá dessedentar-se. E andou, e andou, e andou. Sem a achar. E que desertos não percorreu ele! Um dia refugiou-se no Mosteiro de São José das Batuecas, em silencioso retiro. E o que ali mais lhe custaram aqueles dias? Nada em especial, a não ser que em momento algum lhe deram a ele, menino de mamã, um docinho por pequenino que fosse: nem uma nata, um brigadeiro, ou um mísero húngaro. Nada. Ali, as refeições eram frugais, quase vegans e em silêncio, e pontuadas por uma longa leitura espiritual proposta por um monge da casa. Mas nunca nada de doces, nem ao pequeno almoço; cuja coisa mais doce que ali àquela hora provava era uma larga fatia de pão escuro que lhe achegavam num prato.

Mas eis que na manhã final ao abrir o seu guardanapo vê que lhe tinham deixado uma única bolacha Maria. A visão daquela bolacha revelou-se-lhe uma aparição tão fascinantemente surpreendente que ele, pronto, e sem freios, exultou de alegria:

– Uma bolacha Maria! E só para mim?!

Tinha encontrado a fonte.

UM ESTILHAÇO NEGRO

8.  A parte da tarde foi ocupada em conhecer um poucochinho o recinto do Santuário, em dois workshops, e na Missa de encerramento. Num dos workshops houve um momento de reflexão proposto por um casal, sobre a história e o carisma dos carmelitas descalços; e outro em torno à figura da Venerável Irmã Lúcia de Jesus.

Coroámos o dia intenso com uma Missa de encerramento celebrada na Basílica do Rosário. A Basílica não encheu, nem com os que de fora a nós, entretanto, se nos ajuntaram. Mas estavam ali, connosco, Francisco e Jacinta, e a Irmã Lúcia. E os santos do Carmo e do Carmelo.

Presidiu o P. Miguel Maria que depois de convocar para junto de nós o coração dos restantes descalços do mundo inteiro, e a santidade de tantos que desde o céu diariamente nos assistem, nos disse coisas sábias; por exemplo:

i) «Sigamos Maria! Dificilmente encontraremos à nossa volta uma mulher mais só e mais pobre! Reparai, porém: Foi o seu sim, o sim da mulher mais pobre e mais só que que mudou a história do mundo! Em cada um de nós há um sim que pode mudar a história! Dizei sim a Deus, e eu vos garanto a presença humilde de Maria nas vossas vidas! E alegrai-Vos, porque o Espírito Santo descerá sobre vós! A Deus nada é impossível! Alegrai-vos, que o Espírito Santo virá sobre vós como um escapulário…».

ii) «Deixemos que Maria ponha os seus olhos no nosso coração, para que nas nossas entranhas se forme a imagem de Jesus, e para que ele se abra a uma riqueza que ainda desconhecemos! Sigamos o exemplo dos Pastorinhos, que também disseram sim e depois provocaram um furacão de graça!»

iii) «Tenho uma certeza: Maria nunca nos abandona! Deus nunca nos abandona! Deixai-vos olhar por Maria! Deixai-vos cuidar por Maria! Atrevei-vos a transformar o sofrimento em esperança! Assumi com humildade e coragem o caminho de santidade!»

Enfim, até aqui, aquela foi uma homilia normal, numa missa normal, ainda que tenha sido celebrada em Fátima e cantada por tantos jovens corações Descalços congregados de tantos lugares do mundo! Sim, seria tudo igual, tudo normal, mas no fim da Missa, o P. Miguel Maria, com o que nos disse e depois fez, encerrou o Encontro com chave de ouro, disse-nos: «Trago no meu bolso, desde há uns dias [16 de julho], um estilhaço de uma bomba [russa]! Foi uma mãe ucraniana que mo deu, com o pedido de que rezasse pela paz. Hoje, no final desta nossa Eucaristia, em que nos sentimos unidos a rezar com todo o Carmelo da terra e com todo o Carmelo do céu, quero deixar este pedaço de bomba no túmulo de Lúcia, para lhe pedir que alcance a paz na Ucrânia! E é isto que eu agora lhe quero dizer: – “Irmã Lúcia! Sou o P. Miguel! O Geral da Ordem! Visto que na terra foi tão obediente aos Superiores, e agora que atingiu a perfeição o é ainda mais, eu lhe mando: Traga-nos, por favor, a paz do céu à terra».

E em silêncio deixou aquele negro pedaço de bomba aos pés do seu túmulo de carmelita descalça.

E senti que toda a negrura do mundo se derramava aos pés da capa branca de Lúcia.

UMA BATINA NEGRA

9.  Estas palavras que deixo foram as minhas pré-Jornadas, ainda que deva registar que durante os dias das dioceses por aqui viveram dois jovens rapazes brasileiros.

Mas o melhor estava para vir:

Depois que aquela imensa multidão tão difícil de contar se dispersou bateram-me à porta a pedir um altar. Era o P. Viego, sacerdote norte-americano. Vinha de grossa batina preta que jamais tirou, de chapéu clerical que só dispensava no de dentro da porta, e duas sacas plásticas na mão. Pediu um altar, e pensando eu que era só para uma missa, anuí. Depois pediu cama para oito dias e um prato ao lado dos nossos. Dei. Era da «linha tradicional», logo nos avisou como se preciso fora. Entrou, sentou-se e comeu do que lhe servimos, e quanto melhor o servíamos mais e melhor nos presenteava com doces figos. O oitavo dia chegou por fim, e com pena o vimos partir para Newark, para a universidade de que é capelão. Foi-se e ficamos órfãos como quando se perde um filho; e em mim, singela gratidão a Deus: tinha exercido de Isabel.

E agora que as memórias se vão indo, ando à procura da bolacha.