Frei Marco Caldas, OCD
O silêncio respira
O silêncio é uma das realidades mais simples e, ao mesmo tempo, mais profundas da experiência humana e espiritual. Atravessa a vida como ausência ou plenitude, como ameaça ou promessa, como vazio ou revelação. No quotidiano, surge muitas vezes como intervalo, pausa ou suspensão; mas, na vida interior, torna‑se lugar teológico, espaço de encontro, morada do Verbo.
A busca do reconhecimento do silêncio não apenas como uma prática ascética, mas uma forma de presença – presença de Deus, presença da verdade, damos ao silêncio a sua espessura espiritual.
Pela voz de São João da Cruz, que nos ensina que o silêncio não é mera técnica de recolhimento, mas dinâmica de transformação. Ele purifica, ilumina, unifica. Ele despoja a alma das distrações, das imagens e dos apetites que a dispersam, para que possa escutar a Palavra única pronunciada na eternidade. O silêncio é, assim, caminho e morada, purificação e revelação, noite e amanhecer.
Hoje mais do que nunca há a necessidade contemporânea de reencontrar um silêncio que não seja fuga, mas verdade; que não seja ausência, mas presença; que não seja retraimento, mas abertura ao Mistério. Num tempo marcado pela vulnerabilidade, pela ansiedade e pela saturação de ruído exterior e interior, o silêncio torna‑se uma urgência espiritual e uma pedagogia da alma.
O silêncio ensina a esperar, a discernir, a acolher, a amar.
Através de experiências e sentenças, São João da Cruz, ensina-nos que aprender a calar é aprender a viver: é regressar ao centro, ao fundamento, ao lugar onde Deus habita e onde a alma se reconhece. É um itinerário que passa pelo silêncio sofrido e pelo silêncio alegre, pela noite e pela luz, pela purificação e pela união. É um convite a entrar no espaço interior onde o Verbo ressoa como brasa escondida – sem ruído, sem pressa, sem defesa.
O eco das salas
Certo dia, encontrando-me indisposto marquei uma consulta no Centro de Saúde. No dia marcado lá vou eu a consulta. Encontro-me numa sala de espera de uma consulta médica: pessoas sentadas, imóveis, cada uma recolhida ao seu pequeno mundo. Nenhuma troca verdadeira. Apenas silêncio. Uma sala de concertos cheia: o maestro entra sob aplausos, avança até ao centro, ergue a batuta. E, de súbito, o silêncio.
O silêncio da sala de espera é um silêncio oco, quase um eco da ansiedade que ali se acumula. O silêncio da sala de concertos, esse instante suspenso entre o murmúrio do público e o primeiro acorde, é um silêncio cheio – tecido de atenção, de expectativa, de promessa. Na sala de espera, bastariam algumas palavras para quebrar a rigidez: um «bom dia», um comentário sobre o tempo, um gesto simples que aliviasse a tensão das entradas e saídas.
Na sala de concertos, porém, imagina que a pessoa ao teu lado se vira e te pergunta se já decidiste o destino das próximas férias de verão. Seria quase uma profanação. Ali, naquele segundo que antecede a música, o silêncio é fértil, vivo, indispensável.
O silêncio pode ser ausência ou plenitude. Pode ser um vazio aborrecido ou um espaço cheio de sentido. Qual deles escolhemos ver?
Temo o silêncio. Ou melhor: o silêncio expõe os meus medos – o medo de não ser suficiente, de não ser querido, de não ser capaz.
No silêncio, a culpa e a vergonha encontram espaço para se erguerem dentro de mim. E ninguém deseja isso; por isso, enche-se o vazio com ruído, com movimento, com qualquer coisa que impeça o confronto. O problema é que, se paro, receio não voltar a levantar-me, não recuperar o ritmo. Receio ficar para trás. Por isso, sigo. Apenas sigo em frente.
Mas como seria se, ao fazer silêncio – esse parar que tantas vezes temo – eu descobrisse que alguém estava à espera, ali, desde sempre? Alguém no interior da minha culpa e da minha vergonha; alguém que me olha com uma ternura inesperada, precisamente no centro das minhas próprias defesas. Um olhar que não julga, que não exige, que não pesa: «Não se queixe de ninguém. Não pergunte nada; se tiver de o fazer, faça-o com poucas palavras.» (D 147)
Um olhar que cura. Um olhar que ama. Um olhar que se alegra por eu finalmente ter parado. Desejo tudo isto. Desejo essa presença que não se impõe, mas que permanece. Mas sei que não chego lá sozinho. Para permitir este silêncio – esta tranquilidade cheia de presença – preciso de alento, de correção, de direção, de acompanhamento. Preciso de quem me ensine a permanecer, a respirar, a não fugir de mim.
O silêncio que conduz
O nosso místico, São João da Cruz oferece-nos a possibilidade de um silêncio habitado, transformador, onde a alma se deixa conduzir por uma luz que não é sua. Não pretendo aqui uma explicação longa. O que procuro é irrigação espiritual, água viva que penetre a terra endurecida, para que a transformação seja verdadeira e não apenas desejada: «O que falta, se é que falta, não é escrever ou falar, porque normalmente é o que sobra, mas calar e agir. Além do mais, o falar distrai, enquanto que o calar e agir recolhe e fortalece o espírito. A partir do momento em que a pessoa sabe o que lhe aconselharam para seu proveito, já não precisa de ouvir nem falar mais, mas apenas pô-lo verdadeiramente em prática, com diligência e em silêncio, através da sua humildade, caridade e desprezo de si mesma…» (Ct 8)
Pequenos sinais que nos atraem: provocações que despertam, evocações que iluminam. E tudo isto há-de conduzir-nos, serenando-nos, desafiando-nos, tal como a “noite escura” conduz a alma: não pela força, mas pela purificação silenciosa que abre espaço para a Presença.
São João da Cruz lembra-nos que Deus age muitas vezes assim: em sinais mínimos, em lampejos que parecem nada, mas que são tudo. Pequenas graças que, gota a gota, vão escavando dentro de nós um lugar onde a luz pode finalmente repousar. Provocações que nos arrancam ao ruído. Evocações que nos chamam ao interior. Movimentos que nos tranquilizam porque não são nossos – são dados, oferecidos e infundidos: «Não fale daquilo que Deus lhe dá, e lembre-se daquelas palavras da Esposa: O meu segredo é para mim (Is 24, 16).» (D 152)
Como na subida ao Monte Carmelo, estes sinais não prometem facilidade, mas verdade: conduzem, pacificam, desafiam. São o início de uma transformação que não se faz por esforço, mas por abandono confiante.
É no deserto – nesse espaço de quietude onde tudo o que é supérfluo cai – que o Senhor fala ao coração de Israel. No silêncio purificado, onde a alma já não tem onde se esconder, a Palavra encontra finalmente caminho. E é também na imobilidade do primeiro amanhecer, quando a luz ainda hesita e o mundo permanece suspenso, que o Ressuscitado se revela.
Maria, junto à sepultura, não faz nada: espera. E é nessa espera silenciosa que Ele se entrega a si mesmo – não como memória, mas como presença viva.
O Verbo escondido
O Verbo fez-se carne. Somos seres anunciados, visitados em e por uma Palavra que se encarnou na nossa carne e na nossa história; uma Palavra que desceu até ao mais íntimo da nossa pobreza. Vem do infinito silêncio – essa mudez enamorada onde Deus habita, segundo São João da Cruz – e, nesse silêncio, continua a ressoar como brasa escondida que arde sem ruído: «Quem se queixa ou murmura não é perfeito nem sequer bom cristão.» (D 173).
Toda a linguagem humana, na verdade, não seria senão o afã ou o extravio do Eterno Verbo encerrado na nossa finitude, enquanto tentamos decifrá-lo. Como o santo doutor ensina, o Verbo é pronunciado uma só vez, na eternidade, e essa Palavra única ecoa na alma em modos sempre novos, sempre pobres, sempre insuficientes. Tentamos dizer o que não cabe na voz, nomear o que excede o nome, traduzir o que só se compreende no silêncio.
E, ainda assim, é esse Verbo silencioso que nos visita, que nos fere suavemente, que nos atrai para dentro de nós mesmos, para o lugar onde Ele mora. Porque, no Carmelo «Jardim Florido», tudo se aprende assim: na quietude, na noite, na escuta enamorada. Por isso, o silêncio quer ser a nossa vocação de sentido: chamamento à compaixão por todas as criaturas da Palavra encarnada; invocação da misericórdia da mesma Palavra glorificada.
Arde o Amor numa chama inconsumível – aquela que não se extingue, que não se gasta, que permanece como fogo suave e secreto, à maneira da «Chama de amor viva» de São João da Cruz.
É o fogo que ilumina sem devorar, que purifica sem destruir, que aquece sem consumir a madeira da alma. É o fogo que permanece porque não é nosso: é dado, infundido, oferecido. É ali onde o silêncio se descalça, como Moisés diante da sarça ardente (Ex 3, 1–6); ou onde a noite repousa aos pés do Amado, em sossego, como Rute (Rt 3, 3–18); ali se deita e vela o afã do nosso desejo.
A palavra tropeça e o silêncio guarda
Todavia, são muitas as distrações, os ruídos e as imagens que ameaçam a busca. E, no fundo, nem sempre a linguagem sabe expressar aquilo que a alma conhece e deseja. O coração percebe; a palavra tropeça. O silêncio guarda.
Palavras que sustentam o pulso do indizível, nascidas da precariedade da gramática e da teologia, e que, ao mesmo tempo, apontam com ousado brio para a majestosa desnudez do Verbo Divino, erguido acima de todo o entendimento.
São João da Cruz explorou como ninguém a gestação da palavra significante até ao desvelamento do Verbo pleno, no meio do deserto da noite. Construiu, a partir da hermenêutica das suas próprias canções, um discurso que transcende línguas e idades, épocas e culturas: palavras doces ao coração e récias ao espírito que busca a verdade.
O sentir da alma sãojoanista, no que ao silêncio se refere – tal como em outras dimensões da vida mística – pode agrupar-se em diferentes categorias, segundo o grau de profundidade nos estratos do ser e do viver.
Há silêncios de superfície e silêncios de abismo; silêncios que apenas acalmam e silêncios que transformam; silêncios que preparam e silêncios que consomem; silêncios que velam e silêncios que revelam.
São João da Cruz reconhece que a palavra humana nasce sempre desta tensão: entre o que a alma conhece e o que a linguagem não consegue dizer; entre o Verbo que arde no interior e a voz que tropeça ao tentar pronunciá-lo. Por isso, o silêncio – esse espaço onde o Verbo revela – torna-se caminho, purificação e morada.
O silêncio, o esquecimento, o escondimento do mundo vão perfilando constelações de luz que gravitam sobre a intensidade das purificações da noite. Assim, há um silêncio sofrido: trata-se de aprender a calar e a obrar, calar com o apetite e com a língua, sossegar o bulício das criaturas e as ânsias da alma. Neste período de mortificação dos apetites – arco de tendência distraída entre a lama e o mundo – é preciso saber estar em negação, privação, nudez; exercitar-se no acalmar os fervores do sentido: “A alma que quiser chegar rapidamente ao santo recolhimento, ao silêncio espiritual, à simplicidade – pobreza de espírito –, livra-se das amarras das criaturas deste mundo, defende-se das astúcias e armadilhas do demónio e liberta-se de si mesma” (Ct 1) e «No silêncio e na esperança está a nossa fortaleza (Is 30,15). (Ct 30)
O nosso místico, João da Cruz, apresenta três sentenças que funcionam como pedras de fundação da via ascética: «Não reparar nos defeitos alheios, manter o silêncio e uma relação contínua com Deus arrancará da alma muitas imperfeições, tornando-a senhora de grandes virtudes» (D 117); «A Sabedoria entra pelo amor, pelo silêncio e pela mortificação. Grande sabedoria é saber calar e não fazer caso aos ditos, casos e vidas alheias» (D 108); «Foge do mal. Faz o bem. Procura a paz» (D 172).
Estas três guias formam uma pequena via, juntas, são uma coluna vertebral ascética perfeitamente alinhada com São João da Cruz:
Purificar o olhar – não reparar nos defeitos alheios liberta a alma da dispersão e abre espaço para a relação contínua com Deus.
Purificar a escuta – calar diante dos ditos e casos do mundo permite que a sabedoria entre pelo amor, pelo silêncio e pela mortificação.
Purificar a ação – fugir do mal, fazer o bem e procurar a paz é a expressão exterior da alma pacificada e recolhida.
A noite que ensina a ver
Nos começos da noite, o místico constrói toda a sua antropologia da cidade e da casa, como metáfora do habitar e interiorizar os espaços mais recônditos e inexplorados do espírito humano. É preciso sossegar a casa, com os seus domésticos e solicitações: dúvidas, medos que não dormem, o afã de querer saber e entender aquilo que ultrapassa o sentido comum. É preciso esvaziar a morada interior, desembaraçar tudo o que obstaculiza a Visitação.
Mas há também um silêncio alegre: a fruição da sabedoria secreta, a bodega interior, o horto perfumado, a fonte cristalina – outras tantas metáforas – onde a união da alma com Deus não se consegue exprimir com propriedade. Só o esquecimento, o estar alheado e estranho ao mundo, mas com as potências e capacidades edificadas numa paz inalterável.
O maravilhoso e a inefável alegria calada e vivificante, em que a alma se sente recriada, chegam ao máximo esplendor no ardor da chama do Espírito divino, onde respirar é amar.
Entre o silêncio sofrido e o silêncio alegre, que com certa frequência se sobrepõem – pois a vida mística não é linear, mas concêntrica – podemos rastrear, na sensibilidade das palavras, períodos de discernimento de estados e sinais. A importância de um guia é tão elevada que traz consigo exigências e contrapartidas para quem está disposto a arriscar no caminho.
O mundo pode deixar a pegada ou o rastro da Palavra, mas também o extravio, a confusão e a angústia. A pergunta às criaturas, a resposta delas – que nem sempre a alma sabe decifrar – entardece o desejo e anima o gemido da ausência. Acontece então entender ao contrário, por não saber calar nem esperar o tempo e a razão em que se dá a presença.
A sacramentalidade do sinal, destinada a ser transcendente à realidade da palavra plena e eficaz, por vezes perverte-se ao querer apropriar-se e manipular-se. Daqui nasce a necessidade da noite e do silêncio: processo despojamento, purificação da palavra que possui, do Verbo que pretende submeter, para se deixar recriar na calada ação do Espírito, que opera nas profundas cavernas do sentido, sem que a própria alma saiba como: «[…] não há melhor remédio do que sofrer, agir e calar, guardando os sentidos com a prática e o desejo da soledade, esquecendo-se de todas as criaturas e acontecimentos, mesmo que o mundo se acabe. Não deixar nunca, por bem ou por mal, de pacificar o seu coração com entranhas de amor, para padecer em todas as coisas que lhe surgirem.» (Ct 8)
Deus chega em silêncio
Somos seres anunciados e visitados: Anunciação no silêncio atento, Visitação no esvaziamento sofrido, Encarnação que se vai gerando no acolhimento das potências como passividade de uma alma que já se entrega ao Alto, sem reter coisas, e se perde para o mundo.
Nestes tempos tão necessitados de silêncio e discernimento, quando a nossa vulnerabilidade está a ser dolorosamente tocada, quando a fortaleza e a paciência são postas à prova, quer-se abocar uma espera que transcende esperanças e expectativas superficiais. Calar e agir oferecem-se como convite a explorar os espaços interiores da nossa alma, pois esta tem largura e altura, cantos e recantos escuros e também sacadas de luz, que nem sempre nos atrevemos a passar.
São tempos de deserto interior, desorientação exterior, crise e desencanto daquelas histórias que fundaram a nossa história – também espiritual e crente. Por tudo isso sentimos a necessidade de verdadeiros mestres, vozes que antes foram escutadas e que nos podem ensinar a ouvir de outro modo.
A progressão na vida mística faz-se em espirais de intensidade de consciência, em círculos de significação, numa experiência concêntrica de aprofundamento no ser. Isto é, no seguimento da divisão clássica das vias (purgativa, iluminativa e unitiva), demasiado escolástica.
Concluindo, cada texto de São João da Cruz pretende conduzir-nos a uma sensibilidade das palavras na consciência do silêncio e do recolhimento, como uma pincelada de luz. Todo o fragmento do nosso místico conserva a frescura e a graça do texto original, no sentido de nos atrair ao centro de uma experiência singular do silêncio.
Nascemos num grito – ferida imemorial, talvez nunca sarada de todo – gemido que ressoa na imensidão da criação, como nas dores de luz de que fala o apóstolo São Paulo: «Bem sabemos como toda a criação geme e sofre as dores de parto até ao presente.» (Rm 8,22).
Logo a seguir vêm os cantos dos cisnes que nos embalam, vozes que nos seduzem ou talvez nos espantam, ruídos que nos afogam, ecos que distraem e confundem. Mas, para regressarmos ao nosso ser, temos de aprender a calar, do mesmo modo que aprendemos as primeiras palavras, balbuciando torpemente enquanto iniciávamos os nossos primeiros passos.
Bom caminho!










