Frei João Costa, OCD

Tendo no horizonte a proximidade da celebração das Jornadas Mundiais da Juventude, no próximo Verão, em Lisboa, impõe-se-nos um olhar sobre Teresinha, jovem leiga. Se de carmelita descalça foi mulher de excepcional calibre, e no céu é uma santa ímpar, jovem leiga antes o fora de igual envergadura. Uma e outra condição as viveu ela intensamente, radicalmente, modelarmente.

Parece-nos óbvio que Teresinha bem pode representar a juventude católica francesa do seu tempo: é eucaristicamente fervorosa, de profunda piedade mariana, devota do Menino Jesus e da Paixão do Senhor, amiga da oração, do silêncio e da contemplação, da leitura assídua da Bíblia, e da figura do Santo Padre, Leão XIII, no caso. Mas será esta menina muito diferente da juventude católica de hoje? – Não; nos modos talvez, no demais não, porque um católico se o é vive Cristo inteiro como centro, a Mãe como caminho para Ele, os sacramentos como presença, a oração como encontro profundo, intenso e radical. Muda, sim, naturalmente, a figura do Pontífice Máximo, ah, e talvez, a firme radicalidade que os santos possuem quando, em pós tamanhas provações, alcançam caminhar para Deus, e viver «numa grande paz»,apesar da guerra que se lhes mova.

Marquemos, portanto, uma data: 9 de abril de 1888, segunda-feira, festa (atrasada) da Anunciação. Esta data feliz marca em definitivo o fim da sua infância (o mesmo é dizer, do seu ninho fofo e feliz). Trata-se, afinal, do dia da sua entrada no Carmelo de Lisieux. Mas o que a menina teve de andar para aqui chegar!

Consideremos, por isso, outras duas datas da sua vida: Pentecostes de 1883 (tem ela pouco mais de dez anos), e Natal de 1886 (com quase quatorze). São datas em que se assinalam curas na sua vida.

Fruto dos sucessivos rasgões afectivos ligados à figura materna: morte da mãe (aos quatro anos), entrada de Paulina, sua segunda mãe, no Carmelo de Lisieux (aos 8 anos), Teresinha é, à data, e em pós longuíssimos e escuríssimos anos, uma menina enfermiça, excessivamente sensível, excessivamente chorona, cuja existência não acaba nunca de firmar-se num mundo tão frio, incerto, desabrido e cambaleante que não lhe oferece jamais nem consolo nem apoio algum. Quando médico algum encontra medicina que a cure e a espevite, curar-se-á ela, instantaneamente, no Pentecostes de 1883, daquela inexplicável enfermidade, uma «doença muito grave, da qual nunca uma criança tinha sofrido»; a inesperada cura é, afinal, devida ao «encantador sorriso» que a Santíssima Virgem – a Virgem do Sorriso – lhe prodigaliza naquele dia.

Por fim, em outubro de 1886 Maria, sua terceira mamã, entrou também no mesmo Carmelo (daí a três meses Teresinha completaria os 14 anos); convenhamos, não lhe foi fácil tragar mais aquele amargo cálice, nem cerzir novo rasgão afectivo, por isso Teresinha segue amordaçada pelas fraldas de bebé; é um facto. Ora, sucedeu que na noite de Natal, o pai, e as três filhas que em casa lhe restam – Leónia, Celina e Teresinha –, participam na Missa do Galo na catedral de Lisieux. De regresso, o sr. Martin sobe pesado e cansado – ou por causa da hora tardia, ou pelo peso das frequentes birras da filha mais nova, Teresinha – as escadas dos Buissonnets, e desabafa com Celina: «Felizmente este será o último ano [do ritual do sapatinho e dos presentes do Menino Jesus]». Teresa, desde o andar de cima, ouve a conversa entre ambos e logo desata a chorar. É o normal, pelo que ei-la que chora mais uma vez, e logo na noite de Natal! Celina que tudo percebe da irmã recomenda-lhe que não desça à sala naquele momento, mas ela recompõe-se num instante, logo enxuga as lágrimas, desce correndo alegremente, e ajoelhando-se perto da lareira, põe-se a abrir os seus presentes com idêntica alegria à dos natais anteriores! Tinha-se operado naquele instante um pequeno milagre: o Menino Jesus conseguira o que a menina vinha almejando há quase dez anos: o estancar da fonte das lágrimas e a «recuperação da força de alma que perdera» desde a morte da mãe! De facto, tal como no presépio o frágil Menino Jesus revela toda a força de Deus, assim Teresinha, se liberta naquela hora «das fraldas» de menina, e quási encerra ali a sua infância; e, sem passar pela adolescência, volve-se mulher forte, verdadeira mulher mulher!

E foi assim que às primeiras horas do dia 25 de dezembro de 1886, Teresinha, decidida, arranca a rápida recta final, que a levará à porta da clausura do Carmelo de Lisieux. A sua entrada no Carmelo está, de facto, bem no horizonte do seu coração e da sua vontade. É verdade que, de todo, não cessarão ali as lágrimas, é certo, mas as que sobrevierem nunca de derrota serão sinal, antes de maior motivação para o combate. Por mais feroz que seja ele.

Mas quem é, afinal, esta jovem mulher que assim encerra a segunda parte da sua vida – a dos quatro aos quatorze anos –, um tão longo período de lutas, provações e purificações travadas num corpo tão pequenino, que mais e mais a prepararam para a graça da sua eleição como carmelita descalça? É uma jovenzinha normanda, de longos cabelos loiros sobre os ombros, de 1,62m de altura. Os olhos são azuis e, apesar do permanente conflito interior, é vivaz, gentil, alegre, interessada por tudo, sensível à leitura pela qual sente um desejo incontrolável, e à pintura (existem telas suas…), ávida de conhecimento espiritual, amiga de viagens (declinará, contudo, por fim, visitar a amada Terra Santa para entrar a horas no Carmelo…), e a primeira santa de quem conhecemos verdadeiramente o rosto por ter sido fotografada por seu pai e suas irmãs.

Outra sua data é digna de memória: algures em Julho de 1887, não sabemos se num domingo – é possível que sim, é possível que não – Teresinha assiste à missa na catedral de São Pedro de Lisieux. Inadvertidamente os seus olhos recaem sobre uma estampa do seu missal (é de crer que a estampa repouse ali há longos dias ou meses…): é de Jesus na cruz. Das mãos do Crucificado derrama-se todo o sangue… Sobressaltada com o que entrevê, Teresa para diante da estampa, e sustém o olhar: ninguém recolheu ou recolhe o Sangue que se esvai do corpo de Jesus crucificado, espanta-se! Ninguém? Ninguém!

Teresa sofre com aquela fulminante revelação: como é possível que se perca o sangue do Salvador derramando-se todo ele por sobre a terra? Pronto toma uma resolução à qual jamais renunciará: ficará ela própria, por toda a vida, em pé, diante da cruz do Senhor, para recolher o seu divino sangue, e oferecê-lo-á às almas. Ouve, então, a exclamação de Jesus: «Tenho sede»; sede física, sede de almas, intui ela. E àquela hora, Teresa, mais jovem adulta que criança, mais apóstola que adolescente ingénua ou choramingas, assume: esta é também a minha sede. E sentindo-se pescadora de almas decide-se a trabalhar inteiramente pela conversão dos pecadores.

Por isso, a concluir, propomos que ouça a canção Elle s’appelait Thérèse, executada por Natasha St-Pier e Thomas Pouzin: https://www.youtube.com/watch?v=nB_qdTPZdA8.

* Publicado no jornal Diário do Minho de 3 maio 2023