Frei João Costa, OCD
O Senhor jamais abandona um cordeiro ou uma ovelha, por cegos e mancos que sejam. E nem antes nem depois da morte atroz, abandonou algum dos Seus amigos. Fora, é verdade, por eles enjeitado na noite mais terrível – aquela em que a criatura condenou o Criador. E em troca bem mereceriam eles por todo o sempre igual trato. Mas não; na sua imensa ternura e amizade jamais o fez, nem o poderia fazer, nem fará, pois tais são as irrenunciáveis coordenadas do GPS da misericórdia.
Se os traidores O viram ou souberam morto – morto, morto, verdadeiramente morto — como puderam eles dormir naquela noite e nas seguintes? Ninguém poderia, claro, pois quem dormiria com a brutalidade de tal remorso? Sinceramente não sei que leito poderia dar descanso e paz à consciência, que para o corpo a espinhos haveria ele de saber. Ser-se traidor de alguém, para mais o Justo, sabendo que tal é verdadeiramente verdade, deve ser terrível, duro e afiado espinho espetado na fresca carne da consciência.
Sim, falo de traidores, mas não ao jeito do mercenário que trai o seu capitão a troco de um soldo algo maior. Não, não: falo de amigos que traíram o Amigo, o único de quem se pode escrever com maiúscula; falo de amigos que meteram com Ele a mão no prato, de amigos a quem Ele chamou tal por eleição sua, amigos e não servos, amigos eleitos para o serem, a quem Ele falara com doçura, coração a coração, olhos nos olhos. Amigos de quem se fiara e a quem protegera e por quem acabou entregando-se.
Dentre as coisas que por vezes Lhe pergunto, nunca ousei saber qual a dor que na sagrada Paixão mais Lhe doeu ou macerou, visto estar certo que, para maior crueldade, Ele soube identificar uma a uma as que ali sofreu, e por que as sofreu. E o que é mais: ao poder distingui-las e identificá-las todas, uma a uma, mais Lhe doeram as que Lhe advieram da humilhante traição dos amigos!
Não é impunemente que se trai alguém; menos ainda um amigo, o Amigo.
A noite da prisão, e do julgamento, e aquela sexta-feira de tortura e martírio devem ter sido tão duras como afiadas pontas de faca; e o silencioso e frio vazio de sábado nem sei supô-lo. É por isso que me agarro à fé de Tomé, que óbvio é sempre a teve e tem: Como é que ao terceiro nocturno dia alguém pode acreditar na ressurreição? Como, enfim, poderia ele acreditar? Ele e os demais? Como se pode aceitar algo que nunca antes ninguém viveu ou experienciou, nem contou, e de que não existem testemunhos? E qual o claro e luminoso livro, sagrado ou não, poderia ser interrogado, a tempo e horas, sobre que fora a ressurreição? — E quem numa qualquer hora negra se arrima a um livro?
E aconteceu!
E acontecendo, é óbvio que o Ressuscitado tinha de manifestar-se aos amigos, e manifestou-se; a quem mais? É óbvio que sim. Tão pronto como o ledo desabrochar a aurora, assim Ele se lhes manifestou como previra e lhes preanunciara. E ao recebê-l’O naquela sala agora nefanda e negra, como não se perturbariam, vendo vivo, Quem eles criam morto? E com que olhos, senão baixos, arrependidos e em lágrimas, haveriam de encará-l’O, e de se Lhe dirigir? Diante das chagas das Suas mãos e pés, e dos furinhos dos espinhos cercando-Lhe a fronte, quem teria palavras, e não apenas um duro nó na garganta e uma pesada e fria mó no estômago, para algo Lhe dizer?
Censurá-los-ia Ele? Pareceria óbvio… E eles o aceitariam, pois havia mais que razões. E é claro que era óbvio que ali era Ele – até no acento da voz! E se eles conheciam o acento da voz do Bom Pastor… Óbvio era que era Ele! Mas a impossibilidade de ser ele Quem ali era, era tão desmesuradamente possível que consciência alguma poderia aceitar que fosse verdade. O mais acertado, pareceria, era tomar tudo como um delírio do desejo: que nada de ruim se tivesse passado nos últimos três dias em Jerusalém, que tudo não passasse de um pesadelo infausto e negro, que nenhum deles tivesse testemunhado ou sido motor da noite mais negra, que nenhum amigo tivesse colaborado no esmagamento do coração do Amigo, como a verme feio, que…
Mas, enfim, era Ele, sim; ainda que a todos os títulos parecesse um incompreensível desvario do desejo, era Ele quem ali se apresentava, naquela fresca hora matutina, no meio da horrenda noite deles. Eis que o Senhor e Mestre estava ali tão luminosamente fresco e airoso como as madrugadas da primavera da criação! Entre todos, ninguém compreendia luz tão calorosamente quente e reconfortante, porque ninguém nada ali poderia compreender; e não era questão de inteligência, ou falta dela… Então, logo Ele lhes pediu de comer, e deram-Lhe uma posta de peixe que por ali havia. E sereno e calmo, e imagino que com alguma sorna, saboreou-a deliciado (E embora São Lucas nada diga, a mim ninguém me tira que não pediu um copo de três e um cibo de pão!) — e espantados, ali viram comer Quem bem sabiam gostar de peixe. E Simão Pedro, melhor do que todos, sabia que os mortos não comem peixe!
Na sequência desta aparição do Ressuscitado sucederam-se outras, a uns e a outros, e a outros, e em conjunto. E uns e outros, um a um, uma a uma, e todos juntos, ficaram sabendo que o Mestre ressuscitara. Não sabiam como dizê-lo, mas Ele atravessava portas; e as paredes não O sustinham, os caminhos não se Lhe faziam longos, e as distâncias nem curtas nem longas, porque, simplesmente, para Ele elas não existiam. E atravessava-lhes o coração com um olhar de misericórdia!
E com predileção para o peixe, comeu outras vezes com eles!
(Quero aqui deixar duas notas finais; uma: Já atrás disse, porque inaudito, tudo isto vai para muito além do racional e do por alguém antes experienciado; tão para trás ou tão para além, que o curso de quarenta dias que de seguida o Ressuscitado lhes propôs, acalentando-os e acompanhando-os até à Ascensão, me parece excessivamente curto para assimilarem tanto e tudo!; duas: um amigo assinalou-me um dia, num caminho, uma árvore onde um vizinho, tempos havia, se enforcara. Em trinta anos só lá passei umas cinco ou seis vezes (e, entretanto, derrubaram a árvore), mas sempre que lá passei rezei uma Ave Maria pelo homem. Juro que sim, mas o que mais me impressiona é que eu recebi esse testemunho, mas não conheci nem vi o enforcado. E, porém, quando lá passo, até posso ir com sono ou distraído, mas abeirando-me do lugar sempre lembro aquele facto alheio. Não me espanta, por isso, que de por toda a vida os Apóstolos se tenham lembrado, meditado, pregado e transmitido todos os factos relativos ao núcleo da nossa fé: a Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. Não me espanta, não, porque lhes ficaram gravados a Fogo na alma!)
Voltando: Durante três anos Pedro e os companheiros haviam tido o melhor mestre que alguém poderia ter – nada menos que Jesus, a Palavra de Deus feita carne! Durante aquele largo feixe de meses falou-lhes Ele, e pregou-lhes, alimentou-os e cuidou-os com desvelos maternos. E eles nada entenderam, tal era a sublimidade dos mistérios que lhes comunicava. Sobre o da Páscoa preciso não é que ora mais se diga, pois menos que nada entenderam. Por isso, acrescendo ao muito que Dele tinham visto e ouvido pelos caminhos e à mesa da Última Ceia, disse-lhes: «Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as poderei entender [e era verdade, pois perduravam ainda laivos de noite]. Mas quando vier o Espírito Santo, então compreendereis».
Para entenderem, faltava-lhes, óbvio é, a luz viva e ardente da Chama de Amor Viva, o Espírito Santo. Sem Ela ninguém nada entende. Sem seu secreto e luminoso auxílio, ninguém, nem Pedro, nem Paulo, nem João, nem Matias, algo compreenderá de Jesus.
Não nos falte, pois, a Luz, que à noite responde-se com Fogo vivo. De contrário, como assentiremos com frio e sem seu calor?










