João Lourenço
É com muito gosto que deixo aqui para o Boletim de Espiritualidade uma palavra de apresentação do livro do P. Armindo Vaz, ocd – O Poder da Palavra na Vida – obra que teve a sua génese no conjunto de reflexões que o autor foi escrevendo aqui neste mesmo mensário ao longo de um período de tempo que vai de setembro de 2014 (1º número do Boletim) a setembro de 2022. A escrita brilhante e profunda do P. Armindo Vaz, notável companheiro de atividades académicas e de dedicação à Palavra de Deus, está bem documentada aqui, nesta obra que as Edições Carmelo, em boa hora, tiveram a feliz ideia de reunir e editar em livro. Estas reflexões que mensalmente o autor foi publicando no Boletim de Espiritualidade testemunham de forma plena aquela que é a vivência que o seu autor empresta à força da Palavra de Deus que ele mesmo, ao longo de décadas, vem conferindo à sua atividade docente e de orientador de retiros e encontros de espiritualidade. Para além do ensino científico e académico que já tocou de forma direta muitos grupos de estudantes e de participantes em exercícios espirituais e grupos de ação pastoral, as reflexões agora aqui reunidas são um verdadeiro testemunho da paixão e do encanto que o autor nutre pela Palavra de Deus e pelo serviço do seu anúncio. Por isso, queremos também felicitar as Edições Carmelo pela iniciativa desta publicação, permitindo assim que as reflexões aqui reunidas possam servir um público mais alargado e contribuir para a difusão de uma verdadeira espiritualidade da Palavra.
Nesta breve apresentação que aqui deixo, desejo realçar de forma direta dois tópicos: a pessoa do autor e alguns aspetos do conteúdo da obra.
1º – a pessoa do autor: apesar de sobejamente conhecido, Armindo Vaz é merecedor de uma palavra de felicitações e de agradecimento por tudo quanto tem feito em prol da Palavra de Deus, tanto como professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica, à qual tem dado ao longo de décadas, e continua a dar, o melhor do seu saber, do seu trabalho e da sua dedicação. Poderíamos destacar nele algo semelhante à paixão de Jeremias acerca da Palavra (15,16: a Tua Palavra era festa e alegria no meu coração). Armindo Vaz tem percorrido um itinerário de grande empenho e carinho pela Palavra, numa total entrega à missão de desvendar e dar a conhecer a sua riqueza, desvendar as linguagens dessa mesma Palavra e, muitas vezes, fazer a descoberta de sentido, realizando a tarefa hermenêutica que se esconde nas simbólicas e nas imagens da Escritura.
2º – Acerca do conteúdo das reflexões que fazem parte da obra que aqui apresentamos, apraz-me destacar alguns pontos, respigados dos respetivos tópicos que o Autor aborda.
Antes de mais, partilho com os leitores uma pergunta que a mim mesmo me impus e que certamente muitos de vós partilhais comigo: Que obra é esta? Não sendo uma obra de exegese bíblica no sentido específico do termo nem um trabalho que se confine à respetiva arte exegética, este livro é um compêndio de espiritualidade bíblica, respigada dos mais belos textos da Escritura, sempre tratados com intensa profundidade, dimensão vivencial e atualidade pastoral. Para além da sua matriz bíblica, sente-se que estas reflexões estão envolvidas e marcadas pela sentida espiritualidade carmelitana, com a matriz de Santa Teresa de Ávila, como é próprio de um digno Filho da grande reformadora de Ávila que deu nova vida à Ordem do Carmelo. Lendo estas reflexões, sentimos nelas o vigor do Carmelo, do Jardim dos profetas e arautos do monoteísmo bíblico e, à semelhança de Elias e de Teresa d’Ávila, tudo aqui, no texto, respira o encanto da Palavra, a mesma que fez com que ao profeta Deus tivesse entregue as ‘chaves da vida e da chuva’ (Carta de Santiago 5,17-18), as duas grandes manifestações do vigor da Palavra.
No seu conjunto, são abordados temas em jeito de meditação que, por vezes, aparentam um ar de crónica de espiritualidade, mas sempre marcados pela oportunidade reflexiva, pelo convite à interiorização da Palavra, numa espécie de ‘refreshment’ espiritual de que tanto carecemos e que aqui podemos encontrar com abundância, numa ‘mesa da Palavra’ que é servida em linguagem de vida e de paixão.
Os textos, um conjunto de 67 reflexões, estão agrupados por proximidades temáticas e não por sequências cronológicas, podendo o leitor dar continuidade às reflexões que são apresentadas e, apesar da proximidade temática de muitos, vários deles situam-se em anos diferentes e são, por isso mesmo, suscitados por motivações também diversas, quer pelo tempo quer pelas circunstâncias sociais e eclesiais e até mesmo políticas.
Há uma centralidade temática em toda a obra e, tal como o título o deixa entender, essa centralidade recai sobre a Palavra e é à volta da Palavra nas suas múltiplas dimensões e funcionalidades que passa o eixo central da reflexão levada a cabo pelo Autor. A versatilidade com que a Palavra é aqui tratada mostra-nos que o P. Armindo Vaz é um homem da Palavra, diria mesmo, um arauto da Palavra, fazendo desta o seu alimento discursivo e reflexivo.
Neste contexto, apraz-me destacar algumas destas reflexões, sem desvalorizar as demais ou minimizar a intensidade de todas. Destaco 3 ou 4:
.Pp. 19-21 (nº 3), ‘o Poder da Palavra’, sobre as múltiplas funções e valências da palavra que, presentes na dinâmica humana da comunicação, se alargam também à Palavra revelada, tal como já o referia Paulo na sua 2ª Carta a Timóteo, 4, 2, quando diz (“Prega a palavra, a tempo e fora de tempo, repreende, corrige, exorta com toda a mansidão e doutrina”) ou, ainda, como já dissera Isaías (Is 55,11: “assim acontece com a Palavra que sai da Minha boca; ela não volta a Mim sem ter produzido o seu efeito, sem ter dado os seus frutos”). Ora, como diz Armindo Vaz, a força da palavra não está só no poder de fazer coisas, mas também, como acontece com a Palavra revelada, em ‘gerar factos históricos’ (p. 20), enumerando uma série de realidades históricas que colhem a sua força na Palavra. É esta força que nasce na paixão da Palavra que os profetas testemunharam e que conhecemos também presente na própria poética clássica da Grécia e da Roma imperial. É essa força da Palavra que ressoa nas exortações de Jesus: ‘não tenhais medo (Mt 14,27) ou nos imperativos a que recorre para renovar a vida daqueles a quem confere uma nova vida: ‘Talitá kum’ (Mc 5, 41) e ainda ‘Lázaro, vem para fora’ (Jo 11,43).
Avançando um pouco mais, tomo como referência um outro tema, de conteúdo bem apropriado ao tempo litúrgico que estamos vivendo – o tempo de Natal: “A Virgem do silêncio e a Palavra” (pp. 61-63). Estamos em presença de um belíssimo texto que enquadra perfeitamente o mistério da Encarnação do Logos, da Palavra no contexto da revelação que celebramos nesta quadra litúrgica. O Mensageiro da Palavra faz-se ícone do Deus-Palavra que, na palavra angélica, como diz o autor, se faz Palavra encarnada no seio de Maria e assim entra plenamente na história da humanidade, na história da salvação, dando-se a conhecer no Verbo Encarnado. O diálogo entre o Anjo e Maria mostra-nos algo que é fundamental à nossa fé: ‘A Deus nada é impossível’, porque a Sua palavra é a expressão de toda a sua omnipotência; ela traz em si toda a força do amor de Deus pelo Homem a quem quer salvar. Esta Palavra condensa a dinâmica do Amén de Deus à humanidade, isto é, da fidelidade de Deus que se conjuga com a fidelidade do Homem na pessoa de Maria. Ela torna-se, deste modo, o sacrário da Palavra salvadora. Na tradição oriental, à Palavra é dada a mesma centralidade que nós, no ocidente, damos à eucaristia (ao Sacrário).
Deixando-nos envolver pela espiritualidade natalícia, olhamos agora para a “Palavra que o Presépio nos inspira” (pp. 80-82), em que o Autor nos oferece uma bela reflexão sobre as Personagens do Presépio que muito nos pode ajudar a viver a sua espiritualidade. Cada uma das personagens que a representação do Presépio incorpora, fala-nos, na sua singela presença, da ternura de Deus e são por si mesmas um convite à contemplação e ao silêncio que abre o coração à plena comunhão com Deus. O Autor alude, comentando um célebre Ícone do séc. X (pp. 81), que as figuras do presépio, especificamente S. José, são figuras tocadas pelo mistério que celebramos e o seu silêncio mais não é do que a expressão de um sentir que ‘não se pode viver plenamente sem alguma dose de mistério’. A encarnação do Logos é a plenitude do mistério de Deus na história e é a partir desse mistério que nos é dado conhecer o nosso próprio mistério, o mistério de cada um de nós. Armindo Vaz agrega aqui várias reflexões enquadradas nos dias festivos do Natal, em que se desdobram as diversas dimensões da espiritualidade natalícia e onde encontramos múltiplas ressonâncias da vivência cristã em que o Presépio se faz Palavra viva.
Como partilha final, quero fazer-me eco de mais uma das reflexões do autor que tem por título: “A Palavra da Cruz” (pp. 102-105). A cruz é, certamente, a Palavra mais rica, mais densa de sentido, mais carregada de mistério de todas quantas se compõem os textos bíblicos. Já Paulo falava da palavra da cruz e da sua linguagem, aludindo à pluralidade de sentidos que a mesma pode assumir, para crentes e descrentes, para judeus e gentios e, acima de tudo, para cristãos e não cristãos. Uma das dimensões mais profundas da linguagem da Cruz é, no dizer de Paulo, a palavra da reconciliação, tal como refere a Carta aos Efésios: “Jesus Cristo… reconciliou com Deus os dois povos [Judeus e não judeus] num só corpo por meio da cruz” (Ef 2,16). A cruz de facto fala; ela não traduz apenas sofrimento nem inspira somente compaixão; pelo contrário, a força da palavra da Cruz é o elo mais rico e mais profundo da comunhão, em que os braços estendidos do crucificado abraçam o mundo. Ora, é na linguagem da cruz que este abraço de Deus à história se faz construtor de paz e de harmonia e também gerador de conflitos, de inimizades, de ruturas, tudo numa simbólica tão densa e tão intensa que dificilmente a podemos confinar a qualquer categoria construída por nós. De facto, a Palavra da cruz é a expressão do supremo mistério do amor Deus que não recusou o Seu filho para nos testemunhar esse amor sem limites. A linguagem dos braços abertos na cruz testemunha exatamente essa incomensurável grandeza do amor do Pai.
Lisboa, 31 de dezembro, 2022










