Irmã Sofia da Cruz, Carmelo de Aveiro
Todos estamos chamados a dar razões da nossa fé, mas nem sempre é fácil! Desde que aprendi a fazer a leitura da presença de Deus no meu caminho espiritual, percebi que o Deus Vivo e Verdadeiro, o Deus de Jesus Cristo na sua manifestação na vida quotidiana era aquilo que eu estava chamada a testemunhar. Por isso, com muita naturalidade, partilhava esta Presença, com os amigos mais próximos, que como eu buscavam a Deus.
O dia 7 de fevereiro, amanheceu com um sol radiante e nós celebrávamos a festa das Cinco Chagas de Nosso Senhor. O Evangelho era o de Tomé, aquele que tem a ousadia dizer que: “Senão meter a mão no lado do Senhor e o dedo no lugar dos cravos não acredito”. Creio firmemente que todos temos de ser “Tomés”, para dar razões da nossa fé, porque se pela fé não metemos a mão no lado do Senhor não saberemos dizer como ele: «Meu Senhor e meu Deus».
Neste dia à tarde recebi a visita dum desses amigos com quem partilhava a fé. Começámos a conversar e o meu amigo começou a debater as minhas palavras, depois passou a contestá-las, acabando por negar veementemente tudo aquilo que a experiência de Deus me tinha feito acreditar e que era a minha própria identidade espiritual. Em breve tempo tinha sido despojada de tudo e de mim mesma, era um vazio interior terrível, uma desnudez completa, tinha sido submersa na dor do nada com tal agressividade que me tinha ficado apenas a palavra do silêncio.
Diante disto, logo que me foi possível, retirei-me, procurei uma parede onde me pudesse encostar e respirar fundo, para poder sentir a consistência do meu ser, que parecia estar a desmoronar-se e em breve cairia como cacos no chão. Enquanto respirava, o sino começou a tocar para a oração de Vésperas. Reuni as minhas forças e segui para a capela, rezei Vésperas com a Comunidade e na oração silenciosa coloquei-me diante de Deus, com confiança, esperando a sua luz para perceber o que tinha acontecido. Tudo parecia desconcertante e eu permanecia nas mãos de Deus.
Ao terceiro dia após a experiência de despojamento extremo provocada pelo meu amigo senti-me invadida por uma corrente de amor tão intensa, tão luminosa, tão cheia de paz, como se Deus me quisesse confirmar na verdade de que eu estava em Deus e Deus estava em mim.
Fazendo a leitura desta realidade à luz da fé, veio-me ao pensamento a afirmação de S. João da Cruz: “o amor não consiste em sentir grandes coisas, mas em ter grande desnudez, e padecer pelo amado”, e a passagem do Evangelho de S. João, capítulo 19, em que se diz que Jesus foi despojado das suas vestes e deitaram sortes sobre a sua túnica. Rezei as duas e partilho a minha oração, dando assim razão da minha fé.
A relação entre as duas frases é profunda. São João da Cruz, sendo um místico, baseia a sua teologia espiritual exatamente no despojamento de Cristo.
Vejamos como a frase do santo se conecta diretamente com a passagem de João 19:23-24.
A Grande Desnudez (Interior vs. Exterior)
Em João 19: Jesus é despido fisicamente pelos soldados. Ele perde todos os bens terrenos, até a sua túnica. Fica vulnerável e exposto perante o mundo. Em São João da Cruz: A “grande desnudez” é o desapego espiritual. Significa esvaziar o ego, os desejos e as falsas seguranças. Para o santo, amar a Deus exige ficar “nu” de interesses próprios. O ponto comum: A nudez exterior de Jesus na cruz é o reflexo supremo da nudez interior que São João da Cruz pede à alma que ama.
Padecer pelo Amado (O Sacrifício por Amor)
Em João 19: O despojamento das vestes é o início imediato da crucificação. Jesus aceita a humilhação extrema e a dor física por amor à humanidade. Em São João da Cruz: O amor verdadeiro prova-se no sofrimento (“padecer pelo amado”) e não no sentimento. O santo afirma que o amor não é uma emoção passageira (“sentir grandes coisas”), mas uma decisão de entrega sacrificial. O ponto comum: Ambos os textos convergem na ideia de que o amor autêntico se manifesta na capacidade de sofrer e dar a vida pelo outro, despido de qualquer egoísmo.
A Túnica Inconsútil (A Integridade do Amor)
Em João 19: A túnica de Jesus não tinha costuras, era tecida de uma só peça de alto a baixo. Por isso, os soldados não a rasgaram, mas deitaram sortes. Em São João da Cruz: O amor e a entrega a Deus devem ser totais, íntegros e indivisíveis. Não se pode amar “às metades” ou apenas quando é confortável. O ponto comum: A túnica sem costuras simboliza a perfeição e a totalidade do amor de Cristo, que São João da Cruz convida a imitar através de uma entrega que não se divide.
Em suma, a passagem de João 19 é a concretização histórica e visual daquilo que São João da Cruz explica como doutrina espiritual: o amor verdadeiro purifica-se no despojamento total (desnudez) e coroa-se no sacrifício (padecer).
A experiência de uma paz e luz avassaladoras após um despojamento violento é o núcleo da mística cristã. Trata-se da consolação divina que sucede à purificação.
Tanto o Evangelho como São João da Cruz explicam que o esvaziamento total do ser é a condição obrigatória para a plenitude de Deus.
A Experiência à Luz do Evangelho
No Evangelho, a dor do despojamento nunca é o fim, mas o espaço necessário para a manifestação da glória de Deus.
O Sopro da Paz após a Paixão: Em João 20,19-22, os discípulos estão trancados, despojados de mestre, de coragem e de esperança. É nesse cenário de extrema nudez interior que Jesus ressuscitado entra e diz: “A paz esteja convosco”, soprando sobre eles o Espírito Santo. A invasão da paz acontece imediatamente após o despojamento da Sexta-Feira Santa.
A Parábola do Grão de Trigo: Em João 12,24, Jesus diz que se o grão de trigo não cair na terra e não morrer (despojamento extremo), fica só; mas se morrer, dá muito fruto. Esse “fruto” é a torrente de amor e vida divina que brota na alma.
A Promessa da Inabitação Trinitária: Em João 14,23, Jesus afirma: “Se alguém me ama… meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele morada”. O texto que menciona (“Deus está nela e ela em Deus”) reflete a teologia joanina da comunhão total, onde o sofrimento aceito por amor destrói as barreiras que impediam Deus de inundar a alma.
A Experiência à Luz de São João da Cruz
Para o Doutor Místico, esta vivência descreve perfeitamente a transição da Noite Escura para a União Transformativa.
A Luz que Cega e Purifica: São João da Cruz explica que a luz divina, quando começa a entrar na alma, parece escuridão e sofrimento porque o ser humano ainda é imperfeito. Mas, quando o despojamento provocado pelas provações exteriores purifica a alma, essa mesma luz deixa de causar dor e passa a ser sentida como uma torrente “luminosa e cheia de paz”.
O Esvaziamento e o Preenchimento Espiritual: O santo usa a metáfora de um copo: para que ele seja preenchido com um vinho novo e puro, precisa primeiro ser completamente esvaziado de toda a água suja (os apegos, o ego). O despojamento provocado por outros limpa o copo de forma radical. Uma vez vazio, Deus preenche-o instantaneamente consigo mesmo, pois Deus não tolera o vácuo na alma que o procura.
O Matrimónio Espiritual: Na sua obra Cântico Espiritual, ele descreve que, após a alma padecer a nudez e a perseguição, ela entra no “Castiçal” da união. É a confirmação interior de que a alma está em Deus e Deus na alma. O santo chama a isto “fazer-se Deus por participação”, onde a paz é tão profunda que nada no mundo a pode perturbar.
Síntese
Em termos simples: o despojamento provocado por terceiros arranca à força as falsas defesas e seguranças da pessoa. Quando o ser humano se vê sem nada, se ele aceitar essa nudez com mansidão (como Cristo em João 19), abre-se um espaço infinito no seu interior.
Deus, que é puro Amor, invade esse espaço vazio com a Sua presença. Essa torrente de luz e paz é a confirmação de Deus de que a pessoa participou na Sua Paixão e, por isso, está a participar na Sua Ressurreição.
A Experiência de Tomé
A experiência de Tomé (João 20,24-29) liga-se a toda esta reflexão através do toque nas feridas. Ela representa o momento em que o despojamento e a glória de Deus se fundem de forma palpável.
Na mística de São João da Cruz e na teologia do Quarto Evangelho, o encontro de Tomé com o Ressuscitado não é um mero puxão de orelhas à sua incredulidade, mas sim uma profunda revelação sobre o amor e a união divina.
As Feridas como Lugar da Invasão de Amor
No Evangelho: Jesus não esconde as marcas da sua humilhação e despojamento extremo (o lugar dos cravos e o lado aberto). Pelo contrário, as marcas da Paixão tornam-se o bilhete de identidade do Ressuscitado. É ao tocar na ferida que Tomé é invadido pela fé e pela paz. Na nossa reflexão: A torrente de amor e luz mencionadas na experiencia não apaga a dor do despojamento sofrido; ela manifesta-se através dele. Deus não retira as cicatrizes da pessoa que foi despojada por outros, mas transforma essas mesmas feridas em canais por onde entra a Sua luz e a Sua paz.
O Lado Aberto: A Porta para Entrar em Deus
Em São João da Cruz: O santo místico refere-se frequentemente às chagas de Cristo — especialmente a do lado — como o “esconderijo” ou a “adega interior” onde a alma se une a Deus. Entrar na chaga de Cristo significa mergulhar no âmago do Seu amor sacrificial. Quando Tomé coloca a mão no lado aberto de Jesus, ele está a fazer o percurso místico por excelência: ele entra fisicamente no espaço do despojamento de Cristo para ser espiritualmente introduzido na Sua divindade. Ao tocar no “vazio” da ferida de Jesus, Tomé encontra a plenitude de Deus.
A Confirmação de que “Deus está nela e ela em Deus”
No Evangelho: Diante do toque, Tomé professa a maior declaração de fé de todo o Novo Testamento: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28). Não é apenas um reconhecimento intelectual. É a experiência avassaladora de ser confrontado com um amor que venceu a morte e o despojamento. Na nossa reflexão: O toque de Tomé é o símbolo da alma que precisa de uma “confirmação”. A pessoa que passou por um despojamento radical e, depois, sente uma corrente de paz, faz a mesma experiência de Tomé: ela “toca” na verdade de que Deus está vivo no meio da sua própria dor. A paz que a invade é o próprio Cristo a dizer-lhe: “Vê as minhas mãos e o meu lado, Eu estou aqui contigo”.
O Despojamento da Própria Razão
Em São João da Cruz: Para que a alma se una plenamente a Deus, ela precisa de passar pela noite do intelecto, despojando-se das suas próprias certezas, ideias e exigências de provas. Tomé estava apegado à sua necessidade de ver e palpar. Jesus concede-lhe esse toque, mas logo a seguir convida-o a um despojamento ainda maior, o da fé pura: “Felizes os que não viram e acreditaram” (Jo 20,29). A torrente de paz luminosa que a alma sente após o despojamento é, precisamente, o prémio dessa fé nua, que já não precisa de explicações humanas porque já experimentou o próprio Deus.
Em suma, Tomé mostra-nos que as marcas do despojamento extremo não são sinais de derrota, mas os pontos de contacto onde o ser humano e Deus se encontram e se fundem. A paz luminosa entra no mundo e na alma precisamente através das fendas e das feridas que os outros abriram.
Convido-os a terminarmos esta partilha orante rezando juntos a Oração do Despojamento e da Chaga Aberta:
Senhor Jesus Cristo, Crucificado e Ressuscitado,
Venho diante de Ti com o coração grato e reverente.
Contemplo-Te despido das Tuas vestes no Calvário,
Soberano na Tua entrega, livre na Tua total nudez.
Obrigado porque me ensinas
que o amor não é apenas um sentir,
Mas a coragem de perder tudo para Te ganhar a Ti.
Senhor, quando as circunstâncias da vida
ou as ações dos outros
Me despojarem das minhas seguranças,
do meu orgulho ou do meu manto,
Dá-me a graça de não me revoltar,
mas de acolher a “grande desnudez”.
Que o esvaziamento de mim mesma
não seja um abismo de solidão,
Mas o espaço sagrado que abro
para que Tu o possas habitar.
Olho para a Tua Chaga do Lado Aberto,
essa adega interior de amor.
Como Tomé, aproximo-me
com as minhas próprias feridas e cicatrizes.
Não Te peço que as apagues, Senhor,
mas que as transformes.
Ajusto a minha dor à Tua dor,
o meu despojamento à Tua entrega.
Que as fendas que o mundo abriu em mim se tornem, pela Tua graça,
Os canais por onde entra a Tua torrente de luz,
de paz e de silêncio.
Sela em mim a certeza mística
de que estou em Ti e Tu estás em mim.
Cobre-me com a integridade da Tua túnica inconsistente,
E faz-me repousar no esconderijo inviolável
do Teu Coração.
Que a Tua paz luminosa me confirme
na Verdade e me guie no dia a dia.
No entardecer da minha vida,
que eu seja examinada apenas no amor.
Amen.










