Armindo Vaz, OCD

O Novo Testamento herda do Antigo a visão que este tinha da longevidade e da etapa final da vida humana, vivida de recordação, de memória, da tradição que se projecta para o futuro. E oferece-lhe a específica mensagem de Jesus a abrir a pessoa ao presente e a libertar a longevidade de preocupações, mesmo nos êxitos: “Quem de vós, por mais que se preocupe, é capaz de acrescentar um côvado à duração da sua vida?” (Mt 6,27). À medida que avança na idade, o cristão vai fazendo a síntese da vida, centrando-se no essencial, até ao dia em que fica com o evangelho de João e com a carta aos Romanos.

Lucas, no início do evangelho, ligando o Antigo com o Novo Testamento, apresenta quatro personagens emblemáticas de idade bem avançada, em que se toca ao vivo o envelhecer com esplendor. São os anciãos Zacarias e Isabel, Simeão e Ana. Aparecem próximos do sagrado, o lugar em que tudo cobra sentido. Neles transparece a nobre velhice abençoada por Deus. Estes guardiães da tradição têm uma fina percepção do desígnio de Deus para com a humanidade e remetem para o mais importante dele: a vinda do Filho, na pessoa do Messias, à condição humana. Tornam-se primeiras testemunhas dessa vinda esperada, agora realizada.

O sábio Simeão, pegando no menino, identificou-o com “a tua salvação, Senhor”. “O Espírito Santo estava nele” (2,25). Viu os desígnios de Deus a realizarem-se nessa criança misteriosa. Ligando a ele os fragmentos da sua vida, penetrou no mistério que a valorizava, certo de que uma certa dose de mistério lhe dá mais conforto.

Daí a exclamação de satisfação de Simeão: “Agora, Senhor, podes deixar partir o teu servo em paz…, porque os meus olhos viram [o dom d]a tua salvação”. Era a satisfação na despedida, pois não há prazer comparável à alegria de ter servido o Amor. Simeão já se exprimia então como no séc. XX o poeta checo Rainer Maria Rilke: que o ser humano está constantemente a despedir-se de tanta coisa, como que subindo ao cimo da colina da vida e a olhar para trás dizendo adeus antes de descer para a outra vertente, a da grande idade. O idoso Simeão estava em flagrante situação de despedida, dispondo-se à renúncia e ao desapego que purifica, abrindo-se mais à conversão do passageiro para o Eterno: “Agora, Senhor, podes deixar partir o teu servo em paz”. Era a oração da grande idade (cf. A. GRÜN, A sublime arte de envelhecer [Cuidar & curar; Paulinas; Prior Velho 2009] 11-39). Nela sentia que aquele era o momento pelo qual e para o qual tinha valido a pena viver. Tendo visto o menino Jesus, viu o que tantos desejaram ver e não viram (Lc 10,24). O Simeão que tinha vivido na fé em Deus sem fazer gestão de risco fez um caminho sem defesas com um Deus que ao fim, no Filho, se ofereceu como companheiro de uma viagem sem fim. Com a releitura de toda a sua vida, o ancião Simeão sentia que, depois do encontro com Jesus, ela se tinha ‘cumprido’, dando-a por bem gasta. “Tomar o menino nos seus braços e bendizer Deus” era uma metáfora aberta da presença de Deus, de Deus a abençoar o seu povo, e elevava-se à altura de um denso poema nos acontecimentos paradigmáticos da revelação bíblica.

Shakespeare dividia a vida humana em sete idades, quais actos de um drama teatral. E rematava: “A cena final que encerra esta história estranha e cheia de acontecimentos é uma segunda meninice e completo esquecimento, sem dentes, sem vista, sem gosto…” (As you like it, Acto II, cena VII) e sem ouvido. Agora à velhice chamam terceira idade e há quem fale de “quarta idade” ou “grande idade” (a dos que saíram da vida activa com pensão, reforma, saúde e vitalidade, a dos ultra-idosos, depois dos 80 anos). Simeão, porém, intuiu que a melhor idade começa quando percebemos que só temos uma. Esta era a importante tarefa da grande idade: apontar a luz que brilha no mundo.

Como bem se nota, estes quatro anciãos são transformados em porta-vozes do Espírito de Deus, arautos do advento do Novo de Deus. Têm Deus como horizonte de vida e são situados por Lucas em contexto de oração, especialmente de louvor, porque sentiriam a falta d’Ele, no sentido de que não prescindiam d’Ele. A oração era a atmosfera em que viviam os anciãos bíblicos. Com ela faziam memória do passado, unindo os acontecimentos uns com os outros, reconhecendo a existência de Deus. A profetisa Ana, “muito avançada nos dias”, do alto dos seus “84 anos nem se afastava do templo”: “dava testemunho de Deus e falava do menino a todos os que esperavam a redenção de Israel” (Lc 2,36-38). Com a oração, entregavam a Deus os seus muitos anos de vida. A oração envolvia o seu corpo enrugado no novo tempo salvífico inaugurado por Jesus, colocando-os aos quatro no horizonte definitivo da vida para sempre com Deus. A oração era o espaço em que o idoso fazia o ensaio da definitiva “visão face a face” de Deus (1Cor 13,12). A percepção nítida da caducidade que a pele rugosa comportava fazia surgir, em quem a aceitava, a consciência lúcida da diferença entre aquilo que passa e aquilo que permanece: “A minha carne e o meu coração desfalecem: rochedo para o meu coração e minha herança é Deus para sempre” – rezava o velho salmista do salmo 73,26, dando-lhe uma sonoridade argentina. O ancião bíblico era uma pessoa de coração aberto à procura de um rosto invisível: “É o teu rosto que eu procuro, Senhor; não escondas de mim o teu rosto” (Sl 27,8-9). Os salmos ofereciam uma tonalidade de louvor à sua oração.

A idade avançada não é lugar de estacionamento mas a última aula de crescimento da sabedoria e de educação do espírito: é a idade do espírito por excelência, não um castigo mas uma promessa (P. BRUCKNER, Un instante eterno. Filosofía de la longevidad [Siruela; Madrid 2021, capítulo 2]). O crente tem diante de si, não o vazio de uma vida mas o encontro gozoso com o Deus transcendente, a quem pode dizer como o salmista: “Eu estarei sempre contigo” (Sl 73,23-25). Se alguns de nós já temos mais tempo vivido do que tempo por viver, salva-nos desse desconforto o pensamento de que o amor investido no passado e no futuro é eterno, como as muralhas de Jerusalém.