Frei João Costa, OCD
1. Que me conste, e só me consta pela leitura do Evangelho, no primeiro Natal foram ao presépio – além de José e da Mãe sempre virgem; e sem contar os magos – algumas personagens menores; a saber: os anjos cantores, e os pobres pastores. Também por lá se encontravam o burrico de José e a vaquinha que não sei donde viera. É bem possível que, naquela noite, e nos dias seguintes, os pastores tenham trazido, além de leite e queijo, alguma galinha poedeira, um cordeirinho e uma cabritita. E como, entretanto, pelo perto e pelo longe, a notícia se foi tornando falada e sabida, por certo que depois foram aparecendo alguns dos habitantes de Belém. José também tinha familiares por ali – pobres todos, claro! –; e é possível que, além dos curiosos que por todos os lados há, também tenham vindo algum espião e algum estrangeiro indocumentado.
2. Neste Natal vou fazer, mais uma vez, o meu presépio; e embora a manjedoria se encontre algo desencolatrada, não irei dar trabalho a José. Eu próprio repararei o que for necessário, farei por alargar um pouco mais o espacinho no meu coração, irei alimpá-lo pelo melhor que puder, renovar a palha, sarrasqueirar as teias de aranha, compor a cancela e chamar uma estrela maior. A nascente irei rasgar uma janela para arejar.
José e Maria é, óbvio, lá estarão – que eles são os pais; Maria, a descansar; José, com o Menino ao colo, ora a sorrir, ora a chorar, e a chamar-lhe baixinho: «Meu Filho, meu querido Filho, e meu Salvador!».
O burrico por lá pascerá que, não tarda, a família terá de fugir antes que prendam os pais e nos matem o Menino. José também descansará pouco, sonhará de quando em quando, e dormirá aos sobressaltos, com um olho aberto e outro fechado. Maria não sei bem se dormirá, que além de si, tem de cuidar do Filho, amamentá-l’O, procurar perceber por que agora chora, e mais logo, e além, e depois; e, mais que por si, terá de olhar por José. A mansa vaquinha continuará a não faltar, claro, e não sei bem com quem ficará, quando, num repente, a família tiver de fugir para o Egipto. Além da galinha haverá também um galo, porque aquela gruta é o novo jardim; e as cabritinhas são agora três – uma das quais, é cabrito –; e uma pomba, duas rolas, um casal de garnisés, um de coelhos, um de patos, dois faisões, duas galinholas, um pequeno bando de pardais que vêm chilrear ao Menino, e uma colónia de morcegos que já ali vivia antes do advento, completam o cenário. (Compreende-se facilmente por que peixes ali não haveria; mas uma cobra ou duas já eu não estranharia, não; também não há perus…)
3. Além das habitués que concentram o olhar de ternura do nosso coração, colocarei novas figuras, como sempre faço a cada ano; não, nunca é um renovo, antes um desajeito de dizer que são os pobres e enjeitados quem continua a achegar-se, em primeiro, ao limiar do mistério, e a nele mergulhar antes de todos.
Estas são, pois, as (novas) figuras que lá colocarei:
4. Colocarei um casal de velhinhos, com sessenta anos de casados: Domingas e Flávio. Algures nos dias do pino do calor, trôpegos, vieram sozinhos, pela fresca da manhã, ao Carmo – sozinhos, não, acompanhados por duas muletas cada um! – para celebrar as bodas de diamante do seu matrimónio. Têm filhos, mas não vieram os filhos; têm muitos netos, mas não vieram netos; têm uma abada de bisnetos, e nenhum veio: «Senhor Padre, disseram-me, temo-nos a nós, e sorrimo-nos um para o outro como quando começámos em Luanda. E isso nos basta! A gente gosta-se, e a novidade tem mundo para andar. Que l’havemos de fazer?». Nada, pois. Ficarão no meu presépio em representação de tantos velhos de mãos vazias e coração cheio, a sós vivendo, dialogando e sorrindo para as suas muletas. Outrora, noutros tempos, tiveram fartura de filhos, uma casa cheia de risos, de vida, de luz, sol e festa, e agora, de perda em perda, já nada têm. «Que, pois, l’havemos de fazer, senhor Padre?». Nada. Deixá-los ir, que quem tem caminho pr’andar, tem de continuar; mas vós ficais no presépio junto do Menino Jesus.
5. Nas redondezas daqueles velhotes ajuntarei uma velhinha pequenina e tagarela. No adro da igreja, disse-me ela, há dias, algo parecido ao que eles, noutro, me haviam dito: «Senhor Padre, ouça-me, por favor! Gosto muito do Fradinho São João! Porque ele é nosso, que também nós, os pobres, merecemos ter alguém por nós! Saiba uma coisa: quando tenho de pedir algum milagre ao céu, faço-o por ele e através dele. Venho aqui, olho para aquela mão, e peço-lhe, mas peço-lhe a chorar!, que se de algo precisamos, tem de ser a chorar que se pede! E ele concede-mo!». Meu Deus, a quem assim confia no céu, terei de pô-lo junto da manjedoira do Menino Jesus, porque ninguém pode estar perto Dele e Dele ter medo!
6. Para completar o naipe de velhos no presépio, ainda colocarei ali a Ilse Ascensão; não é portuguesa, mas casada com um. Confessei-a há dias. Apercebi-a preocupada com o futuro dos netos; melhor dito, com o que de melhor haveriam de legar aos netos. Como de todo em todo a não conhecia, balbuciei-lhe um entaramelado de atrapalhação que, pronto, ela clareou com uma pergunta:
– Padre, quem é o santo que está ali fora da igreja?
– O Santo Fradinho; escorreito, lhe respondi.
– Pois, isso li na base… Olhe, eu não sou muito de ligar a santos, mas surpreendeu-me o apelido, por ser também o meu! E os meus netos também são Ascensão; e a minha curiosidade é só esta: quais são as virtudes mais características do Frei João d’Ascensão?
E é assim que, de modo tão singelo, no meu presépio esplendem, este ano, o amor a Nossa Senhora do Carmo, ao Escapulário e à Igreja; ao Papa, à penitência e à oração; à caridade, ao recolhimento e ao estudo, e a vontade firme de ser-se fiel a Deus.
7. Irei colocar alhures – não, não terá, nem pode ter, lugar certo, antes perambulará por ali – um atolambado qualquer que, um dia destes, qual inopinado furacão, me irrompeu pela igreja: não houve porta que lhe fizesse frente, e a que lho fez, quase a deitou a baixo com uma cabeçada. Felizmente era rija. Talvez estivesse descompensado, que agora muitas vezes o vejo, ajoelhado, sereno e calmo, em recolhimento e de mãos juntas, diante do Santíssimo Sacramento. Sim, irei posicionar junto das ovelhinhas mansas, este lobo que, desabrido, um dia me entrou de chancas e aos pinotes igreja acima, e depois virou sereno adorador de Jesus, em espírito e verdade.
8. Colocarei ainda um peregrino com quatro cachecóis ao pescoço. (Achegou-se-me aqui num dos mais calorentos dias ásperos da covide e, acho, ainda o não pus a cirandar pelos caminhos do meu presépio). Disse-me que era peregrino, mas deveria ser exagero da parte dele, que os peregrinos só se sobrecarregam com o essencial. E ademais ele mais se parecia a um fundibulário a cheirar a cerveja que a um peregrino. Disse-me que era polaco, mas os cachecóis – todos desportivos – eram de clubes alemães. Era peregrino, mas ficou seis horas a rezar no fresco da igreja. Ora quem reza ou dorme seis horas seguidas numa igreja, certamente que aceitará ficar no presépio quantos dias e noites seja necessário, com o intuito de dizer que se pelo caminho nos pomos a procurar, muito mais, apressado, Deus vem pelo mesmo, para nos achar.
9. E vou colocar um brasileiro, moreno e vestido de t-shirt branca, e de havaianas no dedo, em pleno dilúvio invernio; chegou a Portugal no pós-covide, a fim de ganhar a vida; mas gosta mais de ajoelhar e rezar os sete diferentes terços (ou, ao menos, foi o que me disse) que aprendeu. Ora, trabalho é trabalho, e oração, oração. Não se podem trocar os tempos. Nem os modos. Ou não sei de que pão possa vir a viver. Se, porém, enquanto se trabalha, se pode andar com o pensamento em Deus, já não se pode trabalhar na hora de rezar. A este brasileiro de estranha bigodaça grande como um turco vou colocá-lo no meu presépio porque ele é, para mim, símbolo dos buscadores de Deus em tempo e lugar errados; claro que Deus nunca está errado em lugar algum, já que está em toda a parte; mas em toda a parte, até no Brasil, Ele também merece ser achado e adorado, depois de lavarmos as mãos e os pés, em pós o justo cansaço e o justo suor do trabalho diário.
10. Quase no fim irei colocar a Alice do Carmo – do Carmo, porque a avó é Carminho, aqui foi ela baptizada, aqui casou, e aqui baptizou e casou as três filhas. Alice, é óbvio, segue-as. Quando em reunião para preparar o baptismo, ela que já não é bebé, tratou de se escapulir do colo do pai logo que pôde, porque tinha visto sobre uma mesinha uma bela imagem do Menino Jesus deitado sobre uma almofadinha, de braços estendidos a pedir-lhe colo. Logo a pedir colo, meu Deus…. Apercebendo-se do singelo gesto do Menino, a Alice do Carmo quis, de imediato, pegar nele, e começou a embalá-lo e a cobri-lo de beijos. Logo ali todos nos enternecemos e sorrimos, claro. O pior foi no fim; na hora de despedida não houve quem pudesse desgrudar-lhe o Menino dos braços, porque ela O defendia com nãos e gritinhos, lágrimas e beicinhos: – «É meu! É meu». Era dela, a única que percebeu o Menino a precisar de colinho. E dela ficou, claro, e assim foi que mo roubou; um pio latrocínio, entenda-se. É, porém, justo, que em chegando a hora de eu estrear o presépio ela mo venha devolver. Que não; inteiramente, isso não lhe peço. Apenas que mo traga; e para que tenha a certeza de que Ele é todo dela e só dela – e assim o seja de por toda a vida! –, ela que venha decidida a ficar no presépio, a embalá-lo e a cobri-lo de beijos, noite e dia, em nosso nome. Ah, e como ainda é tão pequenina, de certeza que pode dormir na manjedoira com Ele, debaixo da mesma mantinha.
11. E junto da Alice do Carmo vou colocar o Ivo e a Eva, os únicos meninos que me fizeram desenhos de Natal para eu saudar, como convém, todos quantos à nossa igreja vêm durante esta quadra.
12. Também ali vou colocar Francisco C., tão manso como um menino de leite que, desde há longos anos, todos os dias, alegre vinha ao Carmo, sem se cansar, e bem até depois de contados os 90 anos. Prometera-o um dia à Senhora da Capa Branca; e cumpriu o voto: irrepreensível e pontual sempre aqui chegava antes do abrir diário da porta. E foi vindo, até cair de exaustão, junto à entrada da igreja, roído por um cancro. – Gosto de homens que cumprem a palavra, mesmo que, silencioso, um cancro os ande a devorar! – O senhor Francisco também entrará no meu presépio, sim, que quem daquela maneira tão mansa e limpa quer entrar no céu da terra, bem merece entrar no meu presépio, e dali subir ao céu quando o Senhor o chamar. E sou eu que fico a ganhar.
13. No passado dia 20 de Fevereiro deixaram-me aos pés do Santo Fradinho do Carmo um anjo com uma asa quebrada, delicadamente enrolado numa bandeira da Ucrânia. Recolhi aquele ex-voto quando, ao fim da tarde, me avisaram para tal. Confesso: a estranheza não me deixou reconhecer logo o alcance da profecia; aliás, nem que se tratava de tal. Mas agora, sim. Agora, percebi-a. Dadas as evidências. Por isso, a Ucrânia e o anjo de asa partida vão ficar no meu presépio deste ano.
14. Todas figuras deste elenco merecem entrar no meu presépio instalado no velho cargueiro gingão do meu coração. Nele entrarão, para desde ali beijar o coração do Menino Jesus, enquanto dorme. Que a ninguém dali Ele espantará! Pode que nenhum delas tenha limpo as mãos, ou tomado banho no último mês. Mas todos são de coração puro e são, como sol raiando, trémulo, por entre nevoeiro. Guarda-os, doce Menino Jesus do meu coração, junto do bafinho da tua boca
Amen. Amen.
15. (O senhor Francisco C. criava patos e outros bicos, com o mesmo primeiro desvelo do Criador. São dele todos os que aparecem no início deste texto.)










