Irmã Sofia da Cruz, Carmelo de Aveiro
Caríssimo Senhor,
A sua carta fez-me recordar o diálogo entre Jesus e Pedro, que se encontra no Evangelho de S. Mateus: «Jesus pergunta aos discípulos: Quem dizem os homens que Eu sou? E vós quem dizeis que Eu sou?» (Mt 16, 15-16).
Compreendo perfeitamente a sua indignação. Não me surpreende que se tenha sentido ofendido com a pergunta, ainda que não encontre razão para tal. Digo que o compreendo porque me fizeram a mesma pergunta: Quem é Deus para ti? E a minha atitude interior foi de indignação. Como era possível que se perguntasse, tal coisa, a uma pessoa comprometida no seguimento de Cristo? Também eu, como o senhor, me escondi atrás do “fast food” do Evangelho e respondi: “Deus é Amor”. Mas, para ser sincera, eu não sabia o que estava a dizer, não conhecia Deus.
O primeiro a acontecer foi o cair na conta de que não conhecia Deus, o Deus a quem servia e por quem fazia muitas coisas… mas não “falava como ele como um homem fala com o seu amigo”, como se diz de Moisés.
Era necessário pôr-me a caminho, entrar “mais adentro na espessura” para chegar ao conhecimento de Deus. Foi um tempo de grande procura. Um tempo feito de silencio, de oração, de abandono confiante e esperança contra toda a esperança. Um tempo propicio para crescer em humildade. Até que um dia Ele irrompeu na minha história como Deus Vivo e Verdadeiro. Deixei de O conhecer de ouvido para O conhecer com os olhos do coração iluminados pela fé. Deus estava a agir na minha vida, a sustentar-me com o Seu Amor e a configurar-me com Cristo e a minha vida estava a converter-se num reflexo da de Cristo.
No meu caminho, o conhecimento do Deus Vivo e Verdadeiro, enquanto Deus Criador e Pai, está unido ao conhecimento do Crucificado. Foi conhecendo a medida de Amor que Deus escolheu para me amar, a Cruz, que conheci que Deus é Pai, meu Pai. Deus escolheu o caminho da Cruz para me unir a Cristo e num primeiro momento a Cruz tem o “sabor” de morte. Ver-me “morta”, isto é, num processo de escuridão total, que correspondia a uma profunda purificação, não foi fácil, mas Ele estava comigo e na minha fraqueza Ele era forte, na minha duvida fazia-me avançar com firmeza e nas minhas trevas havia uma luz “que me guiava mais certeira que a luz do meio-dia”.
Foi aqui que as palavras de S. Paulo aos Gálatas se tornaram minhas: «A vida do tempo presente vivo-a animada na fé do Filho de Deus que me amou e se entregou por mim.» (Gl 2,20) Agora, o “me amou e Se entregou por mim” dava-me a posse do Mistério, o conhecimento do Mistério, a vida do Mistério. Este era o “meu Mistério”: Cristo e Cristo Crucificado, porque Deus mo tinha dado, não como quem dá um presente exterior, mas como quem dá a própria vida, como quem me tinha enxertado em Cristo e agora o que corria nas minhas veias era a graça de Cristo. Era um enxerto tão profundo e íntimo que no meu interior só existia Cristo. Deus tinha-me dado Cristo, porque o tinha gravado dentro de mim e O tinha convertido na minha verdadeira identidade.
Estou certa de que todos estamos chamados a fazer a mesma experiência de Pedro: a deixar que o Pai nos revela a nossa identidade em Cristo, para conhecermos, verdadeiramente, que é Jesus Cristo e quem somos nós.
Peço-lhe que me acompanhe numa leitura guiada deste evangelho:
1. O Ruído do Mundo vs. A Voz do Coração
Jesus começa por perguntar o que “os homens” dizem Dele. No plano espiritual, isto representa o ruído exterior: as opiniões da sociedade, as modas espirituais, as expectativas dos outros ou a religiosidade superficial. Para escutar Jesus, precisamos de nos desapegar do que “toda a gente diz”. A verdadeira espiritualidade nasce quando deixamos de viver da fé dos outros e passamos a procurar uma experiência própria e direta com o Divino.
2. O Confronto com a Verdade Pessoal
Ao perguntar “E vós, quem dizeis que eu sou?”, Jesus faz uma pergunta que cada um de nós deve responder no silêncio do seu coração. Jesus não quer saber se conhecemos a Bíblia de cor ou se sabemos teologia. Ele pergunta: “Quem sou Eu na tua vida prática?”. Sou apenas um curador para as tuas aflições? Sou um seguro contra o medo? Ou sou o centro e o Senhor da tua vida? A nossa resposta a esta pergunta define a profundidade da nossa caminhada.
3. A Fé como Dom e Revelação, não Intelecto
Jesus explica que Pedro não chegou àquela conclusão por inteligência humana (“carne e sangue”), mas porque o Pai lho revelou.
A verdadeira fé e a intimidade com Deus não são alcançadas por esforço mental ou debates intelectuais. A fé é um dom que se recebe na humildade. Precisamos de silenciar a mente e abrir o espírito para que Deus se revele a nós. É uma iluminação interior, não um estudo académico.
4. O Contraste com os “Ídolos Mortos”
O cenário de Cesareia de Filipe, cheio de estátuas de deuses falsos, dá uma lição sobre prioridades. Pedro chama a Jesus “Filho do Deus vivo”. O nosso coração tende a criar “ídolos mortos” — o apego ao dinheiro, ao sucesso, à aprovação dos outros, ao controlo. O texto convida-nos a olhar para aquilo que pomos no centro da nossa vida e a escolher o “Deus vivo”, o único que pode realmente preencher o vazio da alma e dar vida verdadeira.
5. A Identidade Espiritual e o Nosso Propósito
Um detalhe espiritual belíssimo: assim que Pedro reconhece a identidade de Jesus (“Tu és o Cristo”), Jesus revela a nova identidade de Pedro (“Tu és Pedro, e sobre esta pedra…”).
Nós só descobrimos quem realmente somos e qual é o nosso propósito de vida quando descobrimos quem Jesus é. A nossa verdadeira identidade (o nosso nome espiritual, a nossa missão) está escondida em Deus. Quando nos entregamos a Ele, Ele reconstrói-nos e diz-nos quem nascemos para ser.
Todos nós somos chamados a fazer o caminho de Pedro: silenciar o mundo, escutar a pergunta interior, receber a iluminação do Pai e ser transformados na nossa essência mais profunda.
Pedro, ao responder a Jesus, não está a fazer um discurso teológico orgulhoso; ele está a manifestar o estado de uma alma que foi tocada e conquistada pelo Amor Divino. Uma alma enamorada, que como diz S. João da Cruz é mansa, humilde e delicada.
6. A Mansidão: O Silêncio perante o Ruído do Mundo
São João da Cruz ensina que a alma enamorada é mansa porque acalmou as suas tempestades internas, as suas ambições e a agitação das paixões terrenas.
Quando Jesus pergunta o que a multidão diz, Ele expõe a agitação, o debate e a ansiedade do mundo (“uns dizem João Batista, outros Elias…”). A alma mansa, representada ali pelo silêncio percetível que antecede a resposta de Pedro, não se deixa contagiar por esse turbilhão. A mansidão permite à alma escutar a pergunta de Jesus sem tentar impor as suas próprias ideias. Ela não argumenta; ela espera. Pedro responde com uma serenidade cortante, que não nasce do fanatismo, mas da paz interior de quem encontrou o seu centro de gravidade no Amado.
7. A Humildade:
O Esvaziamento para Receber a Revelação
Para São João da Cruz, a humildade é a verdade: reconhecer que o ser humano, por si só, nada é e nada sabe. É a Noite Escura do intelecto, onde a razão humana cede lugar à sabedoria divina.
Jesus desmascara qualquer orgulho intelectual ao dizer: “Não foi a carne nem o sangue que te revelaram, mas o meu Pai”. Pedro não chegou àquela verdade porque era o mais inteligente ou o mais estudioso dos discípulos. Ele chegou lá porque foi humilde o suficiente para se esvaziar de si mesmo e deixar que Deus falasse através dele. A alma humilde sabe que não possui a Verdade; é a Verdade que a possui. Ao declarar “Tu és o Cristo”, Pedro abdica do controlo da sua própria vida e curva-se perante a soberania do Divino. É o esvaziamento do ego (Kénosis) necessário para que a luz do Pai possa brilhar no interior do homem.
8. A Delicadeza: A Perceção Aguçada do Invisível
A alma delicada, na linguagem joanina, é aquela que se tornou tão purificada e sensível que consegue captar os sussurros mais subtis do Espírito Santo. Ela reage ao mais leve toque do Amor de Deus.
No meio de templos pagãos colossais, de estátuas de pedra e do ruído político de Cesareia de Filipe, era preciso uma enorme delicadeza espiritual para reconhecer a divindade num carpinteiro da Galileia. O mundo via apenas um homem; a delicadeza da alma de Pedro viu o “Filho do Deus vivo”. A delicadeza é a fina sintonia do coração com o invisível. Pedro captou uma revelação que estava oculta aos olhos dos sábios e orgulhosos da época. Ele sentiu a vibração da eternidade na presença física de Jesus.
9. O Culminar: A Transformação pelo Amor
São João da Cruz afirma que o fim da jornada mística é a transformação total da alma no Amado, onde as vontades se fundem.
No texto bíblico, vemos o resultado prático disso: Jesus olha para aquela alma enamorada (que acabou de se manifestar mansa, humilde e delicada) e diz: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”. A alma que se esvazia de si mesma e se sintoniza com Deus recebe uma solidez divina. Ela deixa de ser areia inconstante e passa a ser rocha, participando da própria natureza de Cristo.
Hoje, proponho-lhe que rezemos juntos esta oração:
Senhor Jesus,
Leva-me hoje contigo, em espírito, até ao deserto de Cesareia de Filipe.
Afasta-me, por uns momentos, do barulho do mundo,
da azáfama dos meus dias e do ruído das opiniões alheias.
Silencia dentro de mim o que “os homens dizem”,
as modas que passam e as imagens falsas que criei de Ti e de mim mesmo.
No recolhimento do meu coração, escuto a Tua voz suave e firme a perguntar-me:
“E tu, quem dizes que Eu sou?”
Senhor, que eu não responda apenas com a memória ou com teorias que estudei.
Dá-me a graça de te responder com a vida.
Sossega a minha mente, faz calar a minha “carne e sangue”,
para que o Teu Pai Celeste possa sussurrar a Verdade no meu interior.
Que a minha fé não seja um esforço da razão, mas um relâmpago da Tua Graça.
Faz do meu coração essa alma enamorada de que falava São João da Cruz:
Faz-me manso(a), para acolher a Tua vontade sem pressa, sem revolta e sem os debates orgulhosos do meu ego.
Faz-me humilde, para me esvaziar de certezas humanas, reconhecendo que nada sou sem Ti, abrindo espaço para que a Tua Luz me preencha.
Faz-me delicado(a), purificando os meus sentidos espirituais, para que eu saiba reconhecer a Tua presença viva nas coisas mais subtis, nos momentos mais simples e no rosto dos meus irmãos.
Diante de todos os ídolos caídos deste mundo, eu proclamo com o mais profundo do meu ser:
Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!
Tu és a Fonte da Vida que pulsa no meu presente.
E ao reconhecer quem Tu és, deixa-me ouvir quem eu sou aos Teus olhos.
Transforma a minha fragilidade inconstante na solidez da Tua rocha.
Une a minha alma a Ti, num abraço místico de amor e fidelidade,
para que já não seja eu a viver, mas Tu a viveres em mim.
Ámen.










