Frei João Costa, OCD

1. Quem não quer ser feliz? Que coração não arde, ainda que em profana sarça, pela felicidade? Só os tolos, porque esses não ardem jamais. Tudo o que fazemos na vida visa a felicidade, nossa e dos nossos; sim, se não puder ser a nossa, a dos nossos. A quanto trabalho nos damos para sermos felizes! A quanto trabalho para lhe dar caça! Quantos caminhos percorridos, quantos azinhagas e morros subidos, quantas vielas, quantas cangostas vencidas, por vezes, inutilmente palmilhadas, para tratarmos de alcançar a felicidade ou, quando muito, para trepar a um degrauzinho donde ela, ao longe, se vislumbre.

O excerto do evangelho deste domingo IV do Tempo Comum, ciclo A, diz-nos que Deus é feliz e nos quer participantes da sua felicidade. Melhor, diz-nos que somos para ser felizes; que Deus seja feliz é dedução minha, e não erro. Nem mais; e o sentido é esse: se Ele é feliz, por que haveria de querer-nos bisonhos e infelizes? É óbvio que nos quer felizes, caramba! Podemos, portanto, enquanto católicos, almejar a felicidade? Sim, podemos! Podemos, devemos, e não podemos não querer ser, estribo eu!

Quem diria, pensarão alguns; retorquem-me muitos, enfim.

2. É recorrente pensar-se – mais fora que dentro da Igreja, diga-se – que ser-se católico é a opção mais acertada para quem não quer ser feliz nesta vida. Nada mais errado, porém.

A verdade, é que todos nós, católicos ou não, almejamos sê-lo, porque nós, humanos, fomos criados, para sermos felizes e já aqui. E não estamos bem enquanto não formos felizes. A diferença está que alguns se contentam apenas com migalhinhas. E jamais se ouviu dizer que a sede de infinito, o mesmo é dizer, de felicidade, se apague com poeira, não!  Isso, não! E que venha o mais pintado…

É deveras de assinalar que, por estas alturas do dia, nós, ocidentais, vivemos, por opção, num mundo desligado e sem referência à religião, numa sociedade pagã, enfim. Obviamente, isto tem as suas consequências; por exemplo: leva a que entre nós, ou que a palavra Deus não tenha sentido, ou que Deus seja assumido como um estorvo à felicidade. Como poder aceitar – perguntam-se – que uma vontade externa à do indivíduo autónomo, condicione a sua própria vontade e desejo de ser feliz e de buscar a felicidade, onde e como queira? Como assumir, enfim, sussurram, ou berram, que a subjugação possa ser um degrau útil para alcançar a felicidade? Por certificação improvável, para não dizer impossível, não lhes é óbvio nem aceitável que a transcendência exista ou, na melhor das hipóteses, que a existir, ela seja alcançável ou pronunciável.

Resta, portanto, dizem, o aqui e agora, o já, pelo que o que mais nos conviria é disfrutar o momento, enquanto é tempo, pela frescura da manhã, enquanto se é jovem, e os sentidos estão em alta, e podem sorver todo o fresco orvalho das flores. Mas tal é engano ledo, pois os sentidos não são tudo, não capturam tudo, não sabem tudo, não saboreiam tudo, que nem tudo se pode fruir no imediato, sem distanciamento, sem experiência, sem distinguir o durável e o eterno do acessório.

3. (A propósito: Não há muitos dias, deliciado, ouvi a arenga de um cantor com relevância e transversal aceitação da nossa praça a assumir posições parecidas a esta. Ao dizer-se espiritual apôs uma cláusula: «mas não religioso»; porque ser-se religioso exigiria, disse, que se falasse em «transcendência», e a palavra, só de pensar dizê-la em frente ao grande público, dava-lhe uma notória e incontrolável urticária na garganta; mas disse-a, e dizendo-a ela saiu-lhe atrapalhantada e aos baldões, aos solavancos e aos soluços, coisa que ele não é quando canta em público! Estórias…)

Não estamos, portanto, para transcendências – perdoe-se-me o paradoxo! – porque nos bastam migalhas; fica dito.

Por isso, sem pejo e até com certa jactância, dizem alguns que ser-se religioso é escolher a pior parte – ser perdedor. E se quem o diz – Ted Turner – é rico e bem-sucedido, então, é óbvio, que as suas palavras ganham ainda mais relevo e são mesmo ouvidas por uma imensa multidão de potenciais empreendedores e caçadores de migalhas. Digam-me lá, pois, quem é que não quereria ser tão rico como o Ted?

4. Mas, afinal, um homem, ou uma mulher, ricos e bem-sucedidos, podem ou não ser considerados felizes? Haverá de tudo, penso eu. Pensemos o que quisermos, dirão, por outro lado, os cépticos mais altivos e impenitentes, porque o certo é que os diamantes em si não trazem a felicidade, mas lá que o seu brilho ajuda, isso ajuda! E eles querem-se com eles e rodeados deles.

Recordo aqui, porém, duas estórias; uma, com lágrimas, outra, com empáfia: i) o homem mais feliz que conheci (na verdade não conheci senão nas histórias de meu pai…) não tinha pernas nem braços onde colocar diamantes, e tinha o rosto desfigurado por uma explosão em contexto de guerra no velho Ultramar. Antes e depois da tragédia era, dizia-nos o meu pai, o homem mais simpático, mais prestável, mais acolhedor e mais inclusivo; com ele por perto reinava a alegria, ninguém estava triste, ou abandonado numa cama do hospital ou em festa alguma; e mesmo arrastando-se ao nível do pó levantado por alheios pés, era, enfim, feliz, mais feliz que um trapezista em seu trapézio porque, conclui-a meu pai, para ser-se feliz não são precisas asas e voar, nem pernas, nem braços, nem uma cara linda, mas dar-se como uma fonte…; ii) Cecil Rhodes (1853-1902) era cidadão inglês e fez fortuna invejável e êxito verdadeiramente assinalável, também como político, na África do Sul. Certo dia um jornalista felicitou-o por ser exitoso e feliz, ao que ele, com certo humor very british, logo contestou:

– Feliz, eu? Não, eu não sou feliz! Claro que não sou! Passei a vida preocupado em acumular fortuna, e agora tenho de a gastar, como se vê! Metade com os médicos, a ver se evito ir para a sepultura! E a outra metade, gasto-a com advogados, tentando evitar cair na prisão!

Miremos bem para quem iremos, concluo eu cá para mim; a felicidade não é, de todo, imediatamente alcançável ou, mais precisamente, não é alcançável aqui, neste mundo de migalhas, pó e palitos, mas mais longe, mais longe, bem mais longe daqui! E, no dinheiro, nas bitcoins ou no brilho do ouro é que, de todo, ela não é encontrável!

5. Onde, então, acharemos, a felicidade?

6. Para mim é óbvio que não podemos jamais sair do terreiro da religião e das proximidades da porta do templo, daquilo que nos liga – como indivíduos e como comunidades – ao eterno. Quem, por si ou por outrem, cortar, ou aceitar que lhe cortem o cordão umbilical que o liga ao transcendente, está a amputar em si a melhor parte de si, a fonte, o termo ou meta final donde vimos e para onde tendemos, e que dá sentido à nossa ânsia de caminhar, porque é de lá que vimos e é de lá que nos vem o apelo para lá regressarmos!

Somos como um ribeirinho por entre pedras e limos: é o mar que buscamos! É ao mar que vamos, mesmo que o não saibamos!

Trocar o eterno pelo efémero é trocar um forno de pão fresco por migalhas de bolor – intragáveis, como se sabe, e que só aumentam a azia e a fome!

É certo que, a cada dia que passa, as religiões – e não, não apenas o Catolicismo… – perdem espaço público e aderentes; sinal de que, enfim, como ignorar, apesar de tudo, que as migalhas são deveras mais apetitosas e apelativas que o pão?

7. Mas como viver, se não seguindo e prosseguindo em frente, dia a dia, incansável e sem voltar atrás, na busca da felicidade? Eis, por isso, sem pelos nem agravos, a proposta de Jesus: felizes… Os pobres, os humildes, os mansos, os famintos, os limpos de coração, os construtores da paz… Felizes… Felizes os que da fonte vêm e para a fonte vão; como o riberinho.

Felizes, quem?!, já estou a ouvir vozes de escândalo! Claro, como podem ser felizes aqueles a quem os escandalizados se habituaram a considerar os de baixo, os malditos, os infelizes, os dependentes ou manipulados pela Igreja? Como podem ser nomeados como felizes os que sentem na carne própria a dor e a privação, e não o bafo do êxito e da glória deste mundo?

Jesus é realmente surpreendente nas suas propostas: então não é que nos quer felizes sem lutarmos pela felicidade sem mais, mas tão só, esforçando-nos por sermos mãos e coração para os outros; mãos abertas e coração rasgado; mãos que se abrem e se dão em forma de carícia e de bênção, e coração que chora ou ri ao lado dos que choram ou riem?

A verdade, aqui o confesso, é que eu não sei que seja a felicidade. Não sei, pois também eu, pobre de mim, vivo de migalhas, embora, reconheço, algumas de luz. E também eu sempre olho com espanto, e às vezes com escândalo, para o programa de Jesus, todo ele, de princípio ao fim, tão contracorrente, tão inesperado, tão inabitual. Por isso, humildemente, me confesso: de felicidade só levo migalhas numa saquinha, e nem sempre das melhores. Mas também digo: em cinquenta anos já vi e abracei homens e mulheres felizes, isso vi. Isso já vi e abracei, garanto. E sabem a refresco esses abraços, garanto!

Sim, eu já vi gente feliz e com lágrimas; feliz, apesar de doenças; feliz, apesar das dificuldades económicas; feliz, e com uma lança cravada no peito; feliz e com úlceras; com lágrimas, e com esperança nos olhos; sim, com lágrimas, e feliz. Eu já vi gente feliz apesar de tudo! Gente sem nada de seu, sem nada ter para dar, nem a Deus, se não o último suspiro. Eu tenho visto gente feliz porque Deus é a sua fonte, e não querem outra; que também outra não existe!

E sei que Ele nos quer felizes e a todos nos chama a sê-lo. E é uma felicidade estar a caminho; apenas isso. Que é a caminho que Ele nos quer, acreditem!

E enquanto vou a caminho, não ignoro que o mal exista. Existe. Existe, morde e estraçalha. Existe, e Deus não o quer nem o ama, mas ama os perdedores, os feridos e os derreados. Esses, Ele ama, porque prefere amar mais os que menos pintam, os que não ferem nem magoam, e os que emprestam a mão ao caído, o braço ao cansado e o ombro a quem chora. Por isso, se por um lado, uns se contentam apenas com migalhas, e são felizes, Deus, pelo seu, quer-nos felizes e alegres por, simplesmente, sermos Dele e para Ele. E nós O queremos, mesmo quando feridos e destroçados. Pode parecer estranho tal caminho, mas lá porque seja estranho não quer dizer que este não seja o caminho: ser Dele, ser para Ele, tender para Ele porque, venha o que vier, aconteça o que acontecer, quer a terra se abale ou o mar se afunde, nascemos para que se cumpra o que tem de cumprir-se: sermos felizes. Em casa do Pai.