Armindo Vaz, OCD

Um estudo de ‘sociologia do religioso’ hoje concluiria que muitos católicos valorizam a oração. Nos últimos anos até cresceu o número de pessoas que atribuem importância ao ‘factor Deus’. Mesmo assim, a oração é entendida, por muitos cristãos e não cristãos, como difícil de fazer, assunto com o qual não se sabe lidar, algo para o qual não se encontra tempo, algo sem o qual as pessoas bem podem passar. Seja como for, é inquestionável que no panorama cristão e noutras tradições religiosas, sempre houve e há pessoas com vidas inteiras dedicadas à oração ou que vivem em oração os momentos mais acarinhados do seu quotidiano. Ela acompanhou tanta vida vivida, sofrida e gozada que não se pode subestimar.

Poucos duvidarão de que a oração é uma expressão da essência do ser humano, um espaço diáfano que alarga o leque das suas relações estruturantes. Constitui a respiração vital da alma, na qual se exprime a identidade humana de ser para os outros. Aliás, a exigência da oração brota da própria natureza humana, na medida em que, de modo mais ou menos explícito, o ser humano ainda acentua mais a consciência da sua radical limitação ao fechar-se em si próprio. Rezando, especialmente em situações-limite de sofrimento angustiante, as pessoas exprimem a sua tendência para, sem sair dessas situações, se suplantarem em Deus. Se a oração é o encontro do ser humano com Deus, então, ao interrogar-se, ao exprimir as suas súplicas, os seus louvores, a sua gratidão, os seus lamentos e os seus dramas diante d’Ele, o orante não só faz um acto de fé no ser de Deus mas também exprime muito de si próprio: vê-se, não como ser fechado na contingência e nas limitações do humano, mas como ser à procura de Deus, com a necessidade de Deus como maior verdade do ser. Orar e rezar honestamente não é um mero acto de piedade ou um gesto de devotos dignos de piedade. É, para além de muitas outras coisas, uma forma elevada de ser, de ser humano. É uma forma de o ser humano se experimentar em profundidade, se compreender na autenticidade e se exprimir na máxima elevação-dignidade. A oração é o exercício que com mais lucidez vive a esperança em Deus e com mais vigor nutre a chama da transcendência. Projecta a pessoa, não para fora, mas para além de si mesma. Não a aliena. Abre-lhe mais uma janela, para ver um pouco mais do que aquilo que vê com o conhecimento científico e profissional, com a vida social e familiar.

Além disso, falar a Deus em colóquio amigável, descoberto e livre, em atitude de abertura no olhar, no escutar e no esperar, tem a ver com a essência doser de Deus e com a pergunta sobre o mistério de Deus: significa que Ele quer ser entendido como o Deus para as pessoas; e que quem lhe reza se vê como um ‘ser para o divino’, como um ser que se realiza plenamente na relação com Deus.

A tudo isto a fé bíblica acrescenta a sua visão da oração como vida, expressão e alimento da fé que culminou na proposta de Jesus de Nazaré e na oração que ele praticou. A oração de Jesus e a que ele ensinou é um lugar em que amadurece e se agiganta a estatura cristã do ser humano. Tem a ver com a essência do ser cristão, que, em sintonia com o evangelho de Jesus, é uma história aberta para o definitivo. Segundo se centra ou não na oração de Jesus a Deus como Pai, a oração põe à prova a qualidade e a capacidade da fé. Feita sobre o modelo da de Jesus, não só distingue o orante cristão de outros orantes mas também deveria distinguir as suas relações com a sociedade humana em geral. O cristão pode rezar pelos familiares e amigos, pelos doentes e pelo fim da guerra, pela resolução de situações de refugiados, de carência e de carestia, pela união dos cristãos separados… Mas em todos estes casos, a necessidade é sintoma de uma necessidade mais profunda, a da necessidade de Deus indicada por Jesus. Aliás, enquanto põe o orante a falar com o Deus de Jesus, a oração também o põe em comunhão com Jesus: “Para mim – diz S. Teresa do Menino Jesus –, a oração… é algo grande, algo sobrenatural, que me dilata a alma e me une a Jesus” (Manuscritos autobiográficos, C 25r-25v).

A oração cristã faz com que a esperança promova a pessoa a uma maior dignidade. Ela é o movente da história humana para alcançar níveis de qualidade sempre mais altos. Enquanto aproxima do Deus das pessoas que é o Deus da fé bíblica, revela a dignidade do ser humano a si próprio e é expressão dela.

Porque, como diz S. Paulo, “o Espírito de Deus habita em vós” (1Cor 3,16), é no Espírito de Deus que o cristão ora a Deus. Assim, a dignidade da oração cristã não deriva só da beleza exterior do templo onde se ora, mas especialmente da beleza do “templo do Deus vivo que somos nós” (2Cor 6,16), do interior do coração puro ou que tende a purificar-se na oração: “Ó alma formosíssima entre todas as criaturas, que tanto desejas saber onde está o teu Amado para te encontrares com Ele e para te unires a Ele, tu mesma és o aposento onde Ele mora, o refúgio e o esconderijo onde se oculta” (S. JOÃO DA CRUZ, Cântico espiritual, 1, 7).