Frei João Costa, OCD

◊            Cheguei a Avessadas na véspera de Santo António. Nunca gostei muito de mudar; nunca tanto me custou mudar. Vim por obediência, sem a tomar por virtude. A secas. E é que neste estroncar de raízes ainda não vejo virtude alguma.

◊ Eu não voo, não tenho alucinações, não tenho histerismos, não tenho arroubamentos. E até estou, julgo eu, mais do lado do barro pesado que do leve vitral.

Junho 13, 2026

◊ Festa de Santo António. Intrépido. Como ele, só um; ele mesmo.

◊ Certo dia, quase fortuitamente, fui a um concerto do Sérgio Godinho. Gosto. Gostei. Tinha ele uma garrafa de vinho tinto, donde ao longo do concerto foi bebendo, libando e saudando a vida. Não me recordo quanto bebeu; mas sei que nós, sacerdotes, no altar, também vertemos vinho tinto num cálice.

Recordo-me que depois da primeira canção, ele abriu a camisa e contou que saíra vivo e salvo duma operação de barriga aberta. Concordei que valia bem a pena celebrar a vida com vinho tinto. Do nosso.

Mas o que mais me ficou daquele curto concerto na foz do Lima foi um trecho da segunda canção que ele cantou:

Dói-me o joelho. Dói-me parte do antebraço.

Dói-me a parte interna. De uma perna.

E parte amiga. Da barriga.

Que fadiga. O que é que eu faço?

Não sei que mais me doi, se a parte amiga se a desamiga.

Julho 5, 2026

◊ No domingo dia 5 de julho cheguei, manhãzinha, cheio de sono ao Funchal. Os dois frades desdobram-se para me aconchegar e para que, em sua ajuda, celebrasse missa. Por fim, ajustamos que fosse às 18:00. Foi e ainda bem.

Regressei no dia vinte, num voo quási nocturno. Na mala trazia mais de trinta canetas (todas oferecidas). Tenho de perceber porquê. Pelo meio preguei a novena de Nossa Senhora do Carmo, na Missa das novo e na das dezoito. Intenso. Para surpresa de não poucos, em ambos os momentos a igreja do Carmo esteve crescentemente cheia. E por fim, opulenta.

No dia 16 sepultámos a Nina. De facto, não foi surpresa não tê-la nem na assembleia, nem no zeloso cuidado dos altares. Porém, inesperadamente, participei nas suas exéquias; mas só no fim me disseram que ela tinha pedido ao Senhor para morrer: ou no dia 12 de junho, ou no dia 15 de julho, ou no dia 7 de dezembro. O leitor perceberá a intenção. Morreu a 15 de julho e Deus e a Mãe sabem porquê. Levou o Escapulário sobre o peito. E outro, igualmente grande, sobre o caixão.

A terra do cemitério é muito vermelha. E o modo de ali abrir as covas é muito diferente do continente, pelo menos a norte. Nunca esquecerei.

Durante a novena – ali dizem novenas – cantaram-se cânticos lindíssimos a Nossa Senhora do Carmo, alguns dos quais eu nunca ouvira. Alguém deveria recolhê-los e passá-los ao futuro.

◊ O pessoal do Funchal é especial. Vim com a alma cheia de versos!

Agosto 1, 2026

Exceptuando a última semana, passei quase todo o agosto em Avessadas. Não existe nisso nenhuma espécie de heroísmo, mas foi assim. Aqui e ali, a terra ao longe ardia, o que não é sossego algum. Colunas de fumo atiçavam o ar. E o ar ardia e queimava à volta da pele. Queimou. Claro que compreendo os que, podendo, fogem para sul e, durante uns dias, veem renascer-lhes as guelras.

Agosto 21, 2026

Passada a rija canícula do início da tarde de hoje, dois irmãos subiram o escadório do Santuário para confessar-se. O segundo, Abel de nome, também se confessou. Carcomido por um cancro, disse-me que já não se confessava há 35 anos, não por nada, mas porque a vida tinha sido para o trabalho, o trabalho, o trabalho, o trabalho… O trabalho. Estava a morrer e sabia-o. Dei-lhe a absolvição e depois amparei-o num abraço longo, durante o qual enchi uma pipa de lágrimas. Deixando-me com tudo o que tinha, lavou-me a branca túnica.

Agosto 28, 2026

Pelas nove da noite, em Santa Marta de Portuzelo, Viana do Castelo, eu, a Verónica Parente e o Professor Manuel Vitorino apresentámos o livro Exame Final. Nenhum de nós três tem mais que um exemplar, pelo quem quiser lê-lo que o peça àquela Junta de Freguesia.

Na realidade trata-se dum livrinho, mas tenho para mim que os livros não se medem aos palmos. A verdade é que no dia 14 de dezembro de 2025, e depois em todos os dias 14 de 2026, comecei a publicar na Claustro (www.carmelitas/claustro) uma pequena obra de arte em torno à figura do Santo de Hontiveros, frei João da Cruz. Tenho por ele especial ternura, e como uma imagem vale por mil palavras…

Rui Pinto, pintor vianense de 80 anos, aceitou colaborar connosco. A mão treme-lhe, o coração não. Foi generoso, atendeu-nos uma mancheia de vezes, aprendeu tanto de São João da Cruz que, a nosso parco ver, em algo – ao menos no despojamento –, se parece ao Santo. Mas como essa é a fazenda de Deus, é Ele quem bem sabe.

No livrinho escrevemos os nossos encontros com ele, e umas palavras pequeninas sobre o Santo da nossa eleição. A esse conjunto de palavras minúsculas chamámos-lhe Exame Final. O título é simples de descodificar: a mão treme-lhe e a candeia do olhar já não o alumia muito, é certo, mas ainda assim, ele permanece generoso, disponível para ouvir, gracioso no falar e generoso no repartir.

No entardecer da vida seremos examinados no amor – diz São João da Cruz. O Rui também; e diante de nós, ele passou no exame com suma cum laude. Estamos-lhe muito gratos.

Na apresentação do livro, diante dos circunstantes, referi que o papel do artista é alumbrar-nos os olhos e a alma. E não retiro o que disse. Pelo menos, eu sinto-me amorosa e verdadeiramente alumbrado e deslumbrado pelo traço tremelicado do Rui. Esta tarde fui ver algumas fotos que lhe tirámos ao longo de curto punhado de meses: Nas primeiras aparece derreado, nas do meio, semi-erguido; nas últimas, alevantado e erecto.

Ah, meu Deus…

Setembro 6, 2026

◊ O Pároco de Alpendurada e Matos, e de mais três paróquias, entrou na roda da mudança de Párocos, aqui na região. Como a outros, nós, os do Cumbénto de Bessadas fomos em socorro das comunidades – temos de ser uns para os outros, dizia-se na minha terra.

Até ao dia vinte de setembro, data da tomada de posse do novo pároco, celebrei missas e funerais em Eja, Torrão e Alpendurada. Quem me conhece desde o lado de dentro, sabe que não tenho grande apreço por celebrar fora da minha igreja conventual. Não tenho não, mas também não sou de deixar sem a caridade da prece e da oração uma família, uma comunidade ou um defunto. E lá fui, como apóstolo ruim.

No dia vinte volvi lá para celebrar o baptismo do Rodrigo que se apresentou muito vivaço e reguilita; e os que faziam a passadeira para a entrada do novo pároco, atiraram-me: – Ó, Senhor Padre, Bocê não nos larga! Até parece que gosta de nós!…

Soubessem eles!

A verdade é que num punhado de dias celebrei mais vezes fora da minha igreja que nos últimos cem anos da minha vida!

◊ E lá voltei a lembrar-me da canção do Godinho: O que é que eu faço aqui?

Setembro 7, 2026

Rente ao Douro que agora corre amansado – ou será entrevado? – por um rosário de barragens, celebrei na Paróquia do Torrão as exéquias de um homem, de quem já não recordo o nome. Embora afastado, o cemitério é ainda mais junto às águas do lado direito do rio, o que me deixou certa inveja, por me parecer um prémio muito singular poder aguardar pela eternidade junto da mansa corrente das águas. Mas não é isso que agora aqui quero destacar: Se não lembro o nome do homem, lembro o apelido – Espírito Santo! Naquela tarde senti um certo incómodo por enterrar o Espírito Santo.

Sem palavras…

Setembro 18, 2026

Às 18:30, serenamente, celebrei a Missa de Séptimo dia de Abel. Encarregado que fora dos funerais daquela banda, não o celebrara eu o seu, mas o Padre Noé Martins, por nesse dia me encontrar em Aveiro, no IV Encontro do Carmo Jovem +.

Cheguei à Igreja Paroquial de Santa Clara do Torrão para celebrar missa sem mais sal ou menos sal. – Facilmente poderia tê-lo advertido; mas nem de me lembrou que deveria celebrá-la como se celebra a primeira e a última; sim, pesaroso, me confesso, nem me lembrei de tal. – O certo é que a missa decorreu bem, serena, sem canto nem pressas. – À minha proposta, respondiam todos, ou quase. Havia muito povo, comungou quase todo ele. A verdade é que por estes lados os cristãos só comungam aos domingos ou nos funerais, que são raros – dizem; ou nas Missas de Séptimo Dia que são… aos domingos. Mas claramente esta não o era.

Tal pouquidão é estranha para mim, mas vou-me habituando.

No regresso à sacristia, em lágrimas, apesar de tudo, serenas, o povo trancou-me as portas. Perguntaram-me o nome, e coincidia: fora eu que confessara o Abel! E sim, fora, concluí, por fim, também eu. E logo me disseram que ao chegar a casa – a sua ekklesia! – logo convocara os seus, dizendo-lhes: Confessei-me em Bessadas e o Padre mandou-me dar um abraço a cada um de bós! Por ser verdade, confirmei. Aliás, quando numa sexta-feira de agosto o abraçara depois da confissão, senti-o reconciliado com a terra e o céu; e sereno, e leve, e esvoaçante, em fiat. E confiante.

Mas, caramba, um Padre tem que ter cuidado com o que diz – cada vez penso mais nisso. Depois da confissão, o Abel fora para casa e chamara ou mandara chamar todos os familiares, incluindo os que estavam na diáspora. A todos deu um abraço tão doce que ninguém bem o sabe explicar (nem agradecer!). E depois de abraçar o derradeiro, morreu.

E ali estava eu a rezar com ele e por ele a Missa de Séptimo Dia!

Setembro 19, 2026

◊ Ao fim da tarde, desci de novo ao mosteiro de Alpendurada para rezar Missa de Séptimo Dia por Manuel, solteiro e pobre de profissão, cujas exéquias celebrara eu. Cheguei à sacristia e o Senhor Élio, sacristão, tinha apontado mais dez ou doze intenções de Missa. Ralhei como quem ri. Respondeu-me sério:  – Senhor Frei, as pessoas ouviram-no na homilia do funeral e souberam que vinha. E então, pediram que rezasse pelos defuntos deles. E a não ser assim, só teríamos aqui seis pessoas. Além disso, as pessoas gostam de comungar e aqui comungam poucas vezes!

◊ O rio é alimentado por pequenos riachos.

Setembro 23, 2026

Ferrado por um cancro, um homem achou-se a morrer. Foi-se detendo, lutando, mas um dia lá mandou chamar urgentemente um padre católico. Durante quase noventa anos militantemente militara ele contra a Igreja Católica. E o Padre que do leito de morte se aprochegara, sabia-o. Queria confessar-se e o Padre iniciou o Sacramento. Mas o homem permaneceu mudo pela eternidade de cinco minutos. O Padre não sabia que fazer, mas não se retirou. Por fim, com voz segura, o homem falou assim:

– Acha justo, Senhor Padre, que uma pessoa que viveu toda a vida contra Deus, agora Lhe peça para ir para o céu?

Ainda que surpreso, o Sacerdote respondeu:

– Não, não acho. Não é nada justo, não. Mas, felizmente, Deus não é justo. É misericordioso, e há muito que aceitou ser continuamente roubado!