Armindo Vaz, OCD
A fé bíblica solicita com vigor o respeito para com o ancião, também por ele ser frágil: “Levanta-te diante dos cabelos brancos e honra o rosto do ancião; teme o teu Deus” (Lv 19,32). Honrar os anciãos era abrir o futuro aos jovens. O sábio Ben Sira recomenda-o: “Não desprezes um ancião, porque também nós envelheceremos” (8,6). É como se dissesse: «filho és, pai serás; como fizeres assim acharás», mais cedo ou mais tarde. A razão para esse respeito e para honrar o ancião está no facto de ele ser depositário e reserva de sabedoria da comunidade: “Não desprezes os ensinamentos dos anciãos, pois eles aprenderam-nos dos seus pais” (Sir 8,9). Vêm de trás, são um precioso relicário e uma biblioteca de experiência, como diria Sancho Panza em Dom Quixote de la Mancha: “É bom viver muito para ver muito, embora também digam que quem longa vida alcança muito mal viu e mais espera” (M. de CERVANTES, Don Quijote de la Mancha (Castalia; Madrid 1997) II, 32). Tornados assim mestres de fé, os anciãos traziam um tesouro dentro de si, marcavam a cultura e representavam a riqueza de um povo. O seu testemunho unia as idades da vida e até as dimensões do tempo. Conversar com um ancião era abrir-se à experiência e ao enriquecimento acumulados por inteligências do passado, porque ele tinha muito a dizer: via e mostrava a vida de outros pontos de vista. A razão de respeito para com os anciãos era maior no caso dos pais, pois deles os filhos tinham recebido tudo, especialmente a vida: “Não desprezes a tua mãe quando é idosa” (Pr 23,22); “filho, ampara o teu pai na velhice” (Sir 3,12).
A atitude de desprezo dos anciãos como um peso social e económico é vista como sinal de grave degeneração e da barbárie da sociedade bíblica. O profeta Baruc, referindo-se aos babilónios, entre os quais sobreviviam os israelitas no exílio devastador, fala de um povo estranho, povo cruel, de linguagem bárbara, sem respeito pelo ancião” (Ba 4,15). Descartar os anciãos era despudor próprio dos ímpios que proclamavam com factos e palavras: “não respeitemos os cabelos brancos do ancião” (Sab 2,10). Ponto assente do tratamento dos anciãos era não serem excluídos da comunidade bíblica dos mais jovens nem serem periferia abandonada numa espécie de ‘cidade dos velhos’. Ao contrário, a vida de uns fazia mais sentido enquanto integrada na dos outros, pois apareciam uns ao serviço complementar dos outros, os idosos como fundamento do saber dos vindouros e como primeiros arautos da fé. Os anciãos não eram inúteis para a sociedade e um fardo para os novos: tinham a função nobre de ser iluminação da vida deles, já que os golpes da vida os fizeram crescer com mimosos toques na alma; a bagagem adquirida com a experiência era preciosa chave de leitura para o hoje dos jovens. Os sulcos e as rugas da alma que vincavam a sua testa denunciavam o assombro diante da beleza da vida, punham a nu a força dos pensamentos profundos e das decisões difíceis que tinham tomado. Em cada ruga dos outros cantos do rosto encerrava-se um pedaço da história de Israel. As marcas que o tempo foi imprimindo na sua pele eram cicatrizes de batalhas ganhas, troféus de conquistas feitas ao longo de uma vida de experiências e de crescimento. Por isso Paulo ensina que o “conforme à sã doutrina” é que “os anciãos sejam sóbrios, dignos, prudentes, firmes na fé, no amor e na paciência…; que as anciãs sejam mestras de virtude, a fim de ensinarem as adolescentes” (Tito 2,1-4).










