Frei João Costa, OCD

1. O negro e o branco. E o castanho de permeio.

     No silêncio prévio às Primeiras Vésperas, já depois de escrito o texto do .carmo_248 percebo melhor a dura dicotomia crepuscular em que me situo. É já o dia da Mãe do Carmo e do Carmelo e eu, pela alegria da minha, imagino a sua, vendo os filhos e filhas reunidos à roda da luz do seu olhar.

     Nos lábios e no coração alçávamos, ainda há pouco, palavras, hinos, salmos e cânticos e sentimentos de gratidão e de prece confiada. Solenemente. Somos uma multidão, não haja dúvida.

     E que alegria podermos celebrar dia tão grande e belo! Reconhecer e anunciar sermos filhos e filhas de quem somos — da Mãe do Carmo, a Senhora e Mãe do Jardim, a flor mais bela que nos fez nascer para a luz da fé, que a todos e a todas nos chama a ser luz clara e luminosa, e flores no meio da negrura deste mundo! Ora, se ela é formosa e bela, porque Bela Mãe do Belo Amor, como não haveremos nós de apreciar ser seus filhos e filhas? E porque filhas e filhos dela muito queridos, que quem nos vir a ela a veja!

2. O negro e o branco. E o castanho de permeio.

A Mãe de Jesus tem no Carmo muitos nomes. (Custa-me chamar-lhes títulos…), Mãe e Senhora do Carmo e do Carmelo, Nuvem Gentil, ou apenas Nuvenzinha, Stella Maris (Estrela do Mar) e, dizem-me, talvez por corruptela, mas ainda assim um nome seu: Stilla Maris (Gotinha de Água).

     E Beleza e Formosura do Carmo.

3. O negro e o branco. E o castanho de permeio.

     Na primeira tarde do dia da sua festa deste ano de 2023 deliciei-me na contemplação desta perfumada invocação: Beleza e Formosura do Carmo e do Carmelo. Ela é tão sonora e bela que me senti menino deitado de cara ao sol sobre um suave tapete de alfazema e pequeninas margaridas!

     Que bem que cheira a Mãe!

     Deitado naquele solarengo regaço florido lembrei que a vetusta e sábia tradição judaica – afinal, aquela donde nós, ocidentais, bebemos e provimos! – tinha e tem especial apreço, ternura e encanto pelas montanhas. Pudera! A quem é que, subindo-as, nunca lhe pareceu quase estar a tocar o céu que, afinal, sempre nos foge? E quem é que, alcandorando-se a um pico bem alto, e sentindo os longínquos vales lá bem ao fundo, ainda não sentiu estar a entrar pelo coração de Deus adentro e a aspirar o ar puro do Espírito Divino? Eu, sim.

     Ora, quem se aproxima de Deus aproxima-se da inesgotável fonte da beleza e da candura; e é por essa razão que, também para mim, um monte é bem mais belo que a planície. E se esse monte for todo ele regado por infindas fontes, regatos e arroios, então o monte é mais que monte, e o belo é mais que belo, porque é jardim e fresco vergel – é carmo!

     O Carmo é um carmo. É lugar de gentil e nobre beleza, não é deserto. Um carmo árido é em si uma contradição. O Carmo ou é carmo, ou não pode chamar-se jardim. E se o é, é belo e pacífico, e o oposto à dissensão, ao ciúme, à bulha e à guerra. Carmo é luz e saúde, o contrário de punhaladas traiçoeiras e rasgões feitos por pauladas ou bombardeamentos de mísseis e drones.

4. O negro e o branco. E o castanho de permeio.

     Carmo é beleza, porque jardim. De Deus. É sinfonia de meiguice e de aromas e cheiros agradáveis. Se é de Deus, é agradável. É branco, tomando aqui o branco por paráfrase de pulcritude e de beleza suprema.

     O branco é ela, a Mãe; não apenas o seu manto, também o seu olhar, a sua alma e o seu coração. O negro, nós em guerra, em inimizade, em fratricídio. O castanho, nós, os peregrinos da noite luminosa. Nós e os nossos pecados, ciúmes, espinhos, e pedras de arremesso e de tropeço. Nós e tudo o que tenhamos de abandonar antes de nos podermos revestir dessa beleza que dizemos ser a Senhora do Jardim, do Carmo.

     Nisto, enfim, se me fixaram, pois, os olhos naquelas Primeiras Vésperas: Ela, a Branca, nós, o Negro e o Castanho. Ela, a Mãe da Paz, nós, os fautores da divisão, da ambição e da guerra, pelo que, olhando-me a mim mesmo sob aquele Seu terno e materno olhar, dei comigo pasmando-me: se Ela é branca e pulcra, pacífica e bela flor, como a fomos nós revestir de castanho tão terreno?

     Volvo atrás. O Carmo nascido no séc. XII é um carmo. É um jardim de ternas plantas e delicadas flores (algumas, porém, apenas cactos, com sabidos duros espinhos como punhais afiados – ai sim, ai se há espinhos neste carmo!) que aqui, ali e além, até aos dias de hoje, têm perdurado por feliz reverdecimento de contínuas graciosas primaveras.

     Não há, como se sabe, flores eternas – a não ser no céu, claro.  As que ainda peregrinam pela terra são passageiras, murcham durante o verão, ou à entrada do outono, pois raras são as que alumiam o inverno.  A verdade é que a lei da flor é brotar, crescer, esplender e murchar. Aqui também, claro, porque a lei que manda, manda que se nasça, cresça, murche e morra, sendo que já no leito da morte algumas ainda continuam sendo belas…

5. O negro e o branco. E o castanho quase escuro negro.

     Neste ano de guerra ao pé da porta, dou comigo a tremer e a pensar que, salvo as daninhas que amarfanham e sugam a terra, no Carmo até as plantinhas são belas, de uma beleza diversa. Um mistério que apenas bem se entrevê com o olhar da alma.

     Há por aqui flores singelas como as caladas mães que à mesa do altar do lar apresentam assados e pratos de sopa saborosa, e atendem os da sua casa, um a um, com o mesmo carinho, a mesma atenção e a mesma disponibilidade, como se cada qual fora o imperador maior do seu coração; e há mãos terna e cuidadosamente incansáveis a servir quatro vezes ao dia, colher a colher, a refeição aos seus doentes acamados ou, subindo, discretamente, as escadas do prédio para aconchegar um velhinho solitário antes de ele esconder sobre as mantas o longo medo da noite.

     Há aqui guerreiros combativos, esforçados, invencíveis, lutando desalmadamente pela vitória das suas famílias. Nada os detém, nada os demove ou vence: nem caras feias, nem más palavras, nem amigos que o não sejam, nem inimigos que se apresentem com cara e lã de amigos; e há discretos porteiros que abrem portas para a serenidade e a bem-aventurança, para a ternura, o aconchego e um ajardinado remanso com repuxos.

     Como velas no meio do breu, há monjas valentes diante do silêncio de Deus ou da Sua presença frágil; há irmãos e sacerdotes do tamanho da chama da vela do baptismo: pequeninos, discretos, alumiando até o sol; e há seculares por décadas a fio à beira da cama de doentes, à beira de berços e junto às carteiras dos alunos; conduzindo autocarros e orientando o trânsito; salvando doentes que voam em ambulâncias a chorar e outros que navegam em alto mar, descendo até aos abismos; há padeiros, investigadores e polícias, cientistas e empreendedores, lavradores e artistas do teatro e do sonho; e há meninos e meninas, há futuro, promessa, dom e graça de que o mundo pula e avança se o sonharmos com coração de criança.

6. Pode não ser claro o que aqui deixo dito, e temo que tal bem possa suceder – por culpa minha, claro –, mas o Carmo é belo e belo é o Carmelo; e é isto que agora quero dizê-lo com o olhar, a alma, o coração e a voz.  E a mais bela flor do jardim é a Mãe do Sim, a mulher nova que «encontrou graça diante de Deus», ela, a «cheia de graça»; ela, o Sim, que só o Sim para sempre é belo, o Sim sempre Sim; ela, o Sim inquebrantável, invencível, inteiro, pleno, total, confiado no Deus que fez o jardim e o Sim.

7. Nestes dias da Senhora do Carmo, o nosso Padre Geral, Frei Miguel Maria Márquez, quis peregrinar à Ucrânia, esse país imenso e belo, esse celeiro generoso e frondoso cedro. No momento em que escrevo esse bendito anjo mensageiro, está de joelhos a rezar pela paz no Santuário de Nossa Senhora do Carmo de Berdiechev, a padroeira da Ucrânia.

     Quando o mundo jaz destroçado e enfermo, ferido e rasgado no coração, nas pernas e na cabeça por mais uma guerra, óbvio é que chegou a hora de rezarmos. Com ele ajoelhemos também nós e beijemos o Escapulário e as mãos da Mãe do Príncipe da Paz, e, juntos, imploremos com o P. Miguel Maria:

8. Mãe de Deus de Berdiechev,
     Santa Maria do Monte Carmelo,
     Nossa Senhora e Irmã, e Rainha da paz:
     num só coração e numa só alma
     vos oferecemos a homenagem da nossa gratidão
     nesta hora de dificuldade e de esperança,
     de sofrimento e de confiança.
     Eis-nos aqui com o grito
     e a súplica dos teus filhos e filhas
     que sofrem o sem-sentido da guerra
     e de tantas formas de escravidão e dor
     que ferem a dignidade do ser humano.
     Hoje nos abrigamos
     e abrigamos todo o povo da Ucrânia
     sob o teu manto para que sejas plenamente Mãe,
     ó mãe!

.carmo 248 de 16 julho de 2023