Frei João Costa, OCD

Boa tarde, jovem!

De facto, imagino que sejas jovem, tu que nesta tarde entras na Igreja do Carmo de Braga e tomas esta folha na mão. Sei que serás jovem, sem bem saber se és rapaz ou rapariga, se consagrado, se sacerdote. Talvez até sejas papá ou mamã, e trazes um bebé ao colo — olha que seria giro! Com toda a probabilidade não és português; serás, quem sabe, duma ilhotazita qualquer: Vanuato, no Pacífico. Tuvalu, o país insular menos visitado do mundo! Ou, talvez, de Timor Leste, quem sabe, ou de Nitéroi… Enfim, não sei de onde serás. Sei que de onde fores eu serei, por isso te digo: sente-te em casa; entra, descansa, descalça-te e reza. Ou só descansa, não tem mal. Sabe, tu és de casa; por isso, se precisares de algo, diz. Estou aqui por ti. E lembra, aqui, também está Jesus, tal como algures, numa imensa catedral, ou numa choupaninha, Ele encontra o mesmo lugar, o mesmo trono, o mesmo sacrário guardado por uma luzinha, e amado pelo coração dos teus pais, dos amigos dos teus pais, de toda a tua comunidade. E também por aqui anda a Virgem de Nazaré, que aqui toma o doce nome de Maria do Carmo!

Carmo significa jardim; para um jardim é o que te convido, pois.

Não sei o que à tua chegada estarei a fazer, quando entrares. Provavelmente a rezar Missa; talvez num momento de oração a sós; talvez a varrer um corredor, a carregar de cera líquida as velas do altar ou a descascar batatas para a sopa ou, quem sabe, apenas — e este apenas não é pouco! — a confessar. Se não me vires, se não nos virmos, não tem mal, é porque não foi inteiramente preciso que nos víssemos! Mas se for preciso, há pelo menos duas campainhas em que podes tocar: eu estarei por detrás de uma, confia.

Imagino ainda que a tua chegada seja da parte de tarde, porque as tardes das JMJ costumam ser a parte do dia dedicada a conhecer melhor os lugares e as comunidades que nos acolhem! Se é tarde, é calor; por isso, entra e descansa neste jardim.

Apresento-me: chamo-me João, e sou carmelita descalço. Sou português e gosto muito da minha terra. Sobretudo porque é acolhedora. Tenho cinquenta e seis anos. Em diferentes idades da minha vida, fui peregrino em três JMJ: Santiago de Compostela, Paris e Roma. Nenhuma foi igual a nenhuma outra; cada peregrinação JMJ, cada esforço, cada cansaço, cada pinga de suor, cada cântico, alguma lágrima também, ajudaram-me a continuar a caminhar, a continuar a subir. De tudo, o mais importante foi não parar, pois sempre as JMJ nos impelem para a frente.

Não vou a Lisboa; não é que seja velho, mesmo se alguns me tratam por avô! Não é isso; acontece que decidi viver as JMJ2023 desde outra dimensão: a do acolhimento. A-co-lhi-men-to: a palavra soa-me bem! Nunca inteiramente me havia apercebido disso: as Jornadas também têm o lado de quem acolhe! Uns chegam e outros abrem os braços e o coração, e acolhem, pelo que as Jornadas são ambos os lados: o caminhar e o acolher. É certo que há pressa no ar… pressa em ir ao encontro com o Papa, e pelo Papa e a Virgem Maria a Jesus. Pressa de encontro, pressa de comunhão, pressa de devorar caminhos ao encontro do outro. Sim, a pressa que as JMJ2023 sugerem é a de partir mundo fora ao encontro do outro. A meu ver, porém, quem acolhe não tem pressa, tem todo o tempo do mundo. Marta tinha, sim, mas eu vou despindo-me da sua pele, acredita… É assim que me sinto, calmo e sem pressa, calmo e com todo o tempo para acolher. Ah, perguntas-me, no teu mau inglês, o que farei? Pois, não saberei bem, porque um peregrino é diferente de outro peregrino, as necessidades de um podem, ou não, ser as de outro. Talvez sim, talvez não, como digo. Tenho, é certo, uma igreja fresca, onde, porque não, se for o caso, poderás estender o teu saco-cama no chão! Porque não?… Tenho silêncio, um abraço, um coração de paz, uma oração de bênção, um copo de água fresca. Não é muito, mas acredito que do que há, posso repartir, e enquanto algo não se parte e reparte, chega para todos — isto é o que dizemos por cá, nesta terra que te acolhe… Acredito, sinceramente que, se aqui entrares, daqui sairás diferente, no mínimo, recomposto.

(Ah, como será bom abraçar-te; como será bom abraçar Jesus abraçando-te a ti!)

Há, porém, uma coisa sedutora que, recentemente, encontrei entre palavras do Papa Francisco: sugeriu-nos ele, aos velhos — e quem diz velho, diz aos avós — e, vê lá tu, até já aceito que sou velho!, que rezássemos por um dos jovens que venha em peregrinação a Lisboa durante as JMJ2023. É o que farei de coração inteiro. Inteiramente, generosamente.

Braços abertos, coração feliz e oração ardente, é como eu participarei nas Jornadas de 2023! Não é muito? É o que posso.

Não tenho palavras para essa oração. Tampouco desenharei em minha mente um rosto. Não definirei linhas, nem cores, nem o rasgo dos olhos, nem a apresentação do cabelo. Cada rosto, cada coração e cada alma têm uma impressão digital única; e uma história única; por essa razão, nem em sonhos quero imaginar por quem rezarei, melhor, por quem tenho rezado, durante as JMJ2023. Rezarei, simplesmente. Rezarei por todos, como manda o Papa; mas como não domino inteiramente a linguagem da oração, parece-me que uma só elevação do meu coração acima das nuvens, por todos, dará apenas uma fatiazinha muito pequenina, e até um nada, uma pequena migalha, digo eu, por cada um de vós. Por isso, reze pouco ou muito, mal ou bem, o Bom Deus aceite a minha oração, por ti, jovem JMJ2023 por quem gozosamente rezo.

Que mistério, a oração!

Que mistério, a vida!

Que mistério, a peregrinação e a comunhão entre quem vem e quem recebe!

Virá à JMJ2023 um jovem, de quem não sei o nome, nem a ocupação, nem os sonhos, se é doente ou não, se é sonhador ou não, se pecador, se santo; virá da outra banda do mundo, cruzando não sei quantos fusos horários. Virá para a minha terra tal como, com muita probabilidade, outrora, há quinhentos anos, ou talvez menos, foram os meus antanhos, daqui para lá. Faz ele agora a inversa, e vem a Lisboa donde partiram as caravelas. Verá as mesmas águas do Tejo com o mesmo júbilo de quem, há quinhentos anos, descobriu, pela primeira vez, a pele escura ou os olhos em bico! Virá não sei quem, não sei como, e eu estarei aqui para o acolher, com a sala do meu coração aberta para o receber. Virá como quem visita a casa do irmão, como Maria visitou a de Isabel. Virá. E talvez até nem chegue a ver-lhe a íris dos olhos, a dar-lhe a mão. Mas ele virá até esta Terra de Santa Maria. Virá confiante, que aqui há quem reze por ele.

Chega em paz, meu caro, cara minha. Há aqui corações, uns velhinhos, outros não, que rezam por ti há meses. Bem-vindo. Temos para ti um ósculo de paz.