Frei João Costa, OCD

Escrevo no dia 7 de junho, poucas horas após o Papa ter sido internado no Hospital Gemelli,  para uma intervenção cirúrgica, logo depois da Audiência Geral desta quarta-feira.

Ao início da manhã, as relíquias de Santa Teresinha do Menino Jesus, e as de seus pais, São Louis e Santa Zélia, foram trazidas para a Praça de São Pedro, para veneração do Santo Padre e de muitos fiéis ali presentes. Foi ali, a seu lado, que o Papa falou; na verdade, catequizou. O texto da catequese papal – curto, como sempre – é sobre Teresinha, missionária. E ali prometeu ainda, para este ano, uma carta apostólica sobre a nossa Irmã.

Quando aos quinze anos Teresinha traspôs o limiar do Carmelo de Lisieux, havia dezassete – ou seja, quase ontem… – que aquele Carmelo fundara um outro, em Saigão, hoje, Ho Chi Minh (Vietname).

(Imersos que somos numa sociedade excessivamente polarizada e secularizada, de todo verdadeiramente não saberemos sopesar o esforço humano, espiritual e financeiro que suporá a tarefa de fundar alhures um Carmelo, menos ainda em terras de missão, a mais de dez mil quilómetros de distância, tanto seja pela deslocação de umas dez ou doze monjas, como a correspondente bagagem que possibilite a equipagem dum mosteiro, seus serviços e ateliers, uma igreja, sacristia…; nem bem entender o empreendimento de erguer, no seio de outra cultura, uma pequena colmeia de contemplação!)

Fácil é de entender, porém, que à data dos primeiros passos de Teresinha no Carmelo, ali se vivia a alegria missionária fortalecida pela irmanação com o de Saigão, quer pelo apoio económico que a toda a hora urgiria, quer pela troca de orações e ainda, pelo necessário envio de novas irmãs que substituíssem as que cansassem. Obviamente aquele era um projecto falado, discernido e rezado com muita estima e ardor pelas Carmelitas de Lisieux. Não à toa, Teresinha, apesar da sua sempiterna frágil saúde, se mostrou receptiva e enlevada por correr os riscos de partir para ali, para longe do conforto dos afetos da sua pátria amada e da sua cultura, para um contexto social e religioso diverso e deveras adverso. Não o haverá de querer Deus, porém; mas quererá sim que, de um modo outro, se gerasse na sua vida de contemplativa, e na sua fé, um novo modelo missionário que, por ser tão radical, a constituíria padroeira dos missionários. Tal giro copernicano na espiritualidade missionária de então é o que aqui, hoje, intentaremos aflorar.

Não restem dúvidas de que as suas ânsias juvenis eram as de partir com o Evangelho no coração ao encontro dos pecadores, e de quantos dele eram indiferentes e distanciados, fora em Saigão, ou Tonkim, ou noutro lugar – o importante para ela era sair!; mas tal não lhe foi concedido. E ao não sê-lo, poderia ela ter-se rebelado ou deprimido, ou baixado as mãos – porque não?, afinal via frustrado o fito da sua vida! – mas não, pronto rezou e logo discerniu. E desvelou uma imprescindível via nova para a dimensão missionária da Igreja. Uma via, óbvio seja, válida, ainda hoje, e para nós, talvez, ainda mais desafiante, quando hoje o Papa nos impele a sair das nossas autorreferencialidades ao encontro dos indiferentes e dos distanciados de Jesus. Que descobriu ela, pois?

Aupando forças no lugar da sua reconhecida fragilidadade, Teresinha reconheceu que o combate da sua vida de consagrada não estava destinado «a ser travado no campo da batalha» – em terrenos de primeiro anúncio do Evangelho – por não ter forças, sequer, para ali chegar, e nem outras lhe restassem para tal combate, por tão só dispor de uma arma: o amor. E vendo, não sem surpresa que ali, na missão ad gentes, mas também na rectaguarda, «os amigos de Jesus são raros», corajosa, se decidiu a ser Sua amiga valorosa, elegendo modo novo de o ser, actuar e rezar. Mais: tendo reparado nisso, agiu em consequência, e decidiu-se, irrenunciavelmente, a fazer sacrifícios, a entregar a tão maus amigos a sua amizade, e a por eles rezar mais e mais; seja pelos pecadores, os distanciados e indiferentes, mas especialmente, pelos sacerdotes, tratando de salvar suas almas, na certeza de que se a sua devotada entrega e a sua oração fiel os fortaleceria, indirectamente colaborava na salvação de hostes imensas a quem eles, diariamente, se dedicam e entregam. Tendo, é um facto, convivido durante um mês, em finais de 1887 (aos 14 anos), com muitos dos da sua diocese, durante uma peregrinação a Roma, pronto concluiu que, afinal, eles não eram tão santos como sempre crera, e como a ingente tarefa missionária sempre urge e aconselha. Ora pois se, em primeiro lugar, estes o não eram, urgiria que o fossem, para o qual deveriam contar não apenas com forças próprias, mas também com muitas de alheios, nomeadamente, as suas, e as de todas as Carmelitas Descalças. Por isso, aquando da sua madrugadora entrada no Carmelo, assumida tinha ela já uma coisa: iria oferecer-se e «rezar pelos sacerdotes», como depois dali escreveria a sua irmã Celina que restara em casa junto do adorado pai. Tal seria o seu grito pelos que na terra porta-estandartes são do céu!

O seu alerta terá de continuar a replicar-se, hoje, mais e mais; por isso, assim nós; se por uma ou outra razão, aos católicos de hoje, nos não é concedido lavrar batalha em campo aberto, anunciando Jesus, apaixonadamente, nos longínquos lugares de primeiro anúncio – dificuldades que, parece-nos, provavelmente, ficam hoje abaixo das de levar o Evangelho pelas autoestradas da indiferença típica da secularização! – caber-nos-á, então, por graça de Deus, sermos como ela areiazinhas santas abrasadas no amor de Deus, capazes de incendiar o mundo com o nosso zelo apostólico. E como sempre recorda Francisco, tal nunca pode ser feito por esforçado proselitismo ou imposição, mas por caloroso testemunho, pela oração e intercessão densas e intensas.

Jesus e o seu Evangelho não se impõem, é um facto; simplesmente passam de coração coração – a expressão é de Francisco –, não por as testemunhas termos razão ou sermos mais fortes, mas por sermos areiazinhas que amam intensamente Jesus até ao escaldão, e assim, pela via do amor, para Ele atraímos mais e mais os demais. Na perspectiva de Teresinha, e de Francisco, é nas nossas debilidades que se erguem as forças, se animados pelo amor. Mesmo sendo areiazinhas, só os que amam, e se sabem amados, podem ser escolhidos para portadores de Jesus, porque só o amor é ilimitado e eterno, e actua eternamente, mesmo para além do fim das nossas forças, incluindo post mortem.

Compreenderemos este grito do coração de Teresinha?

A concluir, propomos que o leitor ouça a canção Vocación al Amor interpretada pelo grupo Jésed: https://www.youtube.com/watch?v=If8lkwSQNUQ.

* Publicado no jornal Diário do Minho de 2 julho 2023