Frei Marco Caldas, OCD
Nota de abertura
Hoje vivemos num mundo que nos marca com o seu ruído, a sua dispersão e a sua pressa. O que mais escasseia nas cidades são lugares de pausa, de profundidade e de 6a pastoral urbana deveria assumir a forma de uma «pastoral do silêncio», entendida como um caminho «de busca de interioridade de busca de sentido», que nos disponha para acolher o dom da contemplação.
O místico São João da Cruz ensina-nos que a contemplação não é fruto de uma técnica nem de um esforço meramente humano, mas uma graça pela qual Deus Se comunica à alma de forma simples, amorosa e silenciosa. É o que designa por «notícia amorosa de Deus» (Subida II 14,2): um conhecimento que ultrapassa os raciocínios, as imagens e as palavras.
A pastoral do silêncio não procura apenas ensinar métodos de oração, mas educar para uma disponibilidade interior que permita acolher a ação de Deus. O caminho começa frequentemente pela meditação e pela reflexão, mas tende para uma atitude mais profunda de escuta e recetividade.
Na contemplação infusa, a alma acolhe um conhecimento amoroso que não pode produzir pelo seu próprio esforço. Como recorda São João da Cruz: «A contemplação não é mais do que uma infusão secreta, pacífica e amorosa de Deus […].» (1 Noite Escura I, 10,6). Por isso, quando Deus introduz a alma nesta forma de oração, é necessário aprender a não forçar a atividade discursiva das potências, permanecendo numa disponibilidade amorosa. (cf. Noite Escura I, 9–10 e Subida II, 13–14.)
A questão coloca-se naturalmente: como aprender este silêncio? Antes de mais, deixando espaço para Deus agir. Enquanto na meditação a iniciativa humana tem um papel importante, na contemplação infusa a iniciativa pertence sobretudo a Deus. Somos chamados a não preencher constantemente o silêncio com pensamentos ou palavras, mas a acolhê-lo como lugar de encontro.
Assim, o silêncio torna-se uma forma de consentimento e de abertura à presença de Deus. À luz da experiência de Elias – cf. 1 Reis 19, 12 –, podemos dizer: o silêncio não é ausência, mas presença acolhida na fé. Este poderá ser o grande convite que oferecemos à cidade: aprender a calar para escutar, escutar para acolher e acolher para contemplar.
1. Contemplação, amor recebido
São João da Cruz define a contemplação como uma «infusão secreta, pacífica e amorosa de Deus» (1 Noite Escura I, 10,6). O essencial não é sentir algo extraordinário, mas deixar-se tocar por uma Presença. Por isso, a contemplação autêntica caracteriza-se frequentemente por: simplicidade interior; paz profunda, ainda que sem consolações; desejo de permanecer com Deus; amor silencioso que não necessita de muitas palavras, apenas de transformação. O hábito contemplativo não é um estado místico extraordinário reservado a alguns, mas uma disposição estável de abertura a Deus no quotidiano.
Aprender a calar significa: escutar mais do que falar; acolher mais do que produzir; permanecer diante de Deus e amar para além do que se consegue compreender. A contemplação não se mede pela diminuição da ação nem exclui o conhecimento. Pouco a pouco, a pessoa transporta este silêncio para toda a vida: para a oração, para as relações, para o trabalho e para as decisões. O coração torna-se um espaço habitado. Para São João da Cruz, aprender a calar é permitir que Deus faça na alma aquilo que a alma não pode fazer por si mesma.
Quando cessam as muitas palavras interiores, pode começar a escutar-se a Palavra. E é nesse silêncio amoroso que nasce o verdadeiro hábito contemplativo: viver na presença de Deus, deixando-se inflamar por aquele amor secreto. Como escreve o mestre da noite escura: «quanto mais aumenta, mais a alma se vai sentindo afeiçoada e inflamada pelo amor divino, sem que ela própria saiba nem compreenda como e donde lhe vem tão delicado amor e afecto. Por vezes sente crescer tanto essa chama e esse ardor dentro de si, que chega a desejar Deus com ânsias de amor.» (Noite Escura I, 11,1).
Quando a contemplação começa a transformar o modo de amar, já não se trata apenas de um silêncio interior, mas de uma ação secreta de Deus, que inflama o coração sem que a pessoa consiga explicar a sua origem. A pessoa experimenta um amor novo, mais profundo e delicado, mas não sabe de onde vem nem como surgiu. Não o produziu pela reflexão, pela leitura ou pelo esforço ascético, é um amor recebido. Na contemplação, o amor pode crescer sem que a pessoa consiga compreender discursivamente o que nela acontece.
O coração inflama-se enquanto os sentidos empobrecem. À primeira vista, parece uma contradição. A comunicação de Deus pode aprofundar-se sem que aumentem as consolações sensíveis. Acontece então uma dupla experiência: «A porta estreita é esta noite dos sentidos. Para entrar nela, a alma desembaraça-se e desprende-se deles. Apoiada na fé, que é alheia aos sentidos, continua depois pelo caminho estreito, que é a outra noite do espírito. É por aí que a alma entra até chegar a Deus em fé pura, que é o meio pelo qual a alma se une com Deus.» (Noite Escura I, 11,4).
Aquilo que antes satisfazia, já não satisfaz da mesma maneira. Não porque as realidades criadas sejam más, mas porque o centro afetivo da pessoa está a ser deslocado para Deus. Como diz Jesus, «onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração» (Mateus 6, 21). Não deixamos de amar o mundo ou os outros, mas aprendamos a amá-los em Deus e a partir de Deus.
2. A porta estreita
Através da imagem evangélica da porta estreita e do caminho estreito, São João da Cruz descreve o percurso para a união com Deus A primeira etapa consiste em atravessar a “noite dos sentidos”. A alma aprende a desapegar-se da necessidade de encontrar Deus através de gostos sensíveis, consolações, emoções ou satisfações espirituais: «além de se extinguirem os apetites, gostos e apoios sensíveis, o entendimento fica limpo e livre para apreender a verdade, pois o gosto sensível e o apetite, embora sejam de coisas espirituais, ofuscam e embaraçam o espírito. Também aquela angústia e aridez dos sentidos, ilumina e aviva o entendimento, porque, como diz Isaías, a humilhação dá lições (cf. Isaías 28, 19). Numa alma livre e desprendida, como se requer para receber o influxo divino, Deus vai comunicando sobrenaturalmente a sua divina Sabedoria nesta escura e árida noite da contemplação, como dissemos, coisa que não faria nas consolações e alegrias anteriores.» (Noite Escura I, 12,4)
Isto não significa rejeitar os sentidos, mas deixar de depender das consolações sensíveis na relação com Deus. Muitas pessoas procuram Deus enquanto sentem fervor, paz ou entusiasmo. Quando essas consolações desaparecem, pensam que perderam Deus. Para São João da Cruz acontece, frequentemente, o contrário: Deus está a conduzi-las para uma relação mais madura e mais livre. A porta é estreita porque exige renúncia.
3. O caminho estreito
Depois da purificação dos sentidos, Deus pode introduzir a alma numa purificação muito mais profunda: a noite do espírito. O santo admite um intervalo de anos (cf. Noite Escura II, 1, 1.) Aqui já não são apenas os afetos sensíveis que são purificados. São purificados os modos de pensar Deus, as imagens que a alma construiu sobre Deus, os seus juízos espirituais, a confiança nas próprias capacidades, a necessidade de compreender tudo. A alma experimenta uma obscuridade radical: não encontra apoio nem nos sentidos nem na inteligência. É por isso que São João da Cruz considera esta noite muito mais dolorosa e exigente do que a primeira.
A fé é caminho de união e ensina a caminhar sem ver. Enquanto o coração procura possuir, a fé ensina a confiar. Para o nosso místico, a fé é o meio próximo e proporcionado de união do entendimento com Deus (cf. Subida II, 9, 1.) Deus ultrapassa infinitamente tudo aquilo que podemos imaginar ou compreender. Só a fé permite caminhar para Ele sem reduzir o Mistério às nossas medidas.
O cantor do Amor Divino afirma que são poucos os que percorrem esta via porque ela exige um desprendimento total. Muitos aceitam seguir Deus enquanto encontram luz, entusiasmo ou resultados visíveis. Poucos perseveram quando tudo se torna escuro. Contudo, o santo acrescenta imediatamente que os frutos são «incomparavelmente maiores». A razão é simples: na primeira noite, a alma é libertada da dependência dos gostos sensíveis, na segunda, é preparada para a união transformante com o próprio Deus. Por vezes, quanto mais Deus Se aproxima, menos a pessoa compreende e menos apoios encontra; aprende, assim, a confiar e a viver da fé.
A porta estreita é o desapego dos sentidos; o caminho estreito é a purificação profunda do espírito; e a meta é a união com Deus na fé. Para o nosso místico, o contemplativo é aquele que aceita atravessar a noite sem procurar regressar às antigas seguranças, acreditando que a escuridão não é ausência de Deus, mas sinal de uma presença demasiado grande para ser apreendida pelos sentidos ou pela razão.
4. Os gostos espirituais
São João da Cruz usa paradoxos, e um dos centrais da sua espiritualidade e um deles pode resumir-se assim: «a aridez ilumina». Aquilo que a alma geralmente interpreta como perda ou empobrecimento é, muitas vezes, o meio pelo qual Deus a prepara para uma sabedoria mais profunda. O santo não fala apenas dos prazeres sensíveis comuns, mas também dos gostos espirituais. Uma pessoa pode apegar-se às consolações da oração, às emoções religiosas ou ao fervor espiritual. Embora sejam dons, podem tornar-se um obstáculo quando a alma procura mais as consolações de Deus do que o próprio Deus. O desapego dessas consolações conduz progressivamente a uma pobreza interior na qual a alma aprende a procurá-Lo por Ele mesmo e não pelo que recebe d’Ele.
A frase de Isaías citada pelo santo é muito significativa: «A humilhação dá lições.» A alma julgava saber rezar, compreender a vida espiritual ou avançar pelos seus próprios meios. De repente, experimenta a incapacidade, a secura e a escuridão. Esta experiência gera uma profunda humildade. Nós descobrimos que a oração é antes de tudo graça; o crescimento espiritual é obra de Deus; a inteligência humana não pode alcançar, por si só, o Mistério divino. A humildade torna-se assim uma verdadeira escola de sabedoria.
5. O entendimento
O ruído interior condiciona o entendimento que permanece refém dos próprios desejos e afeições. A noite contemplativa realiza uma purificação profunda, nem sempre percetível. A purificação pode ser dolorosamente sentida, embora o seu fruto permaneça oculto: liberta das opiniões demasiado seguras; desfaz imagens inadequadas de Deus; cura a necessidade de controlar tudo; abre espaço para uma verdade maior. Por isso, o Mestre da Contemplação afirma que o entendimento fica «limpo e livre para apreender a verdade». Não se trata de acumular mais conhecimentos, mas de adquirir uma capacidade nova de acolher a verdade de Deus.
A Sabedoria de Deus comunica-se no silêncio. Esta sabedoria não é fruto do estudo, embora este tenha o seu lugar. É um conhecimento amoroso de Deus que nasce da comunhão com Ele. A alma começa a compreender certas realidades espirituais não porque as analisa, mas porque as experimenta interiormente. Como diria São João da Cruz, trata-se mais de uma «ciência de amor» do que de uma ciência discursiva.
Os períodos de secura espiritual exigem discernimento, pois nem toda a aridez é sinal de contemplação (cf. Noite Escura I, 9, 1–3). Quando se trata da noite purificadora, mesmo no meio da aridez podem ocorrer comunicações de Deus. Neste momento, o importante não é procurar recuperar antigas consolações, mas permanecer disponível. A noite deixa então de ser apenas ausência de luz e torna-se o lugar onde Deus instrui secretamente o coração.
Para o teólogo da experiência de Deus, os gostos espirituais podem ser uma preparação, mas não a meta. Na noite contemplativa, Deus conduz a alma pela aridez e pela humildade, libertando-a dos apoios a que se prende e comunicando-lhe a sua sabedoria. Quando as luzes humanas diminuem, começa muitas vezes a brilhar uma luz mais alta, recebida não pelo raciocínio, mas pela contemplação amorosa. A alma aprende então que o verdadeiro conhecimento de Deus nasce menos daquilo que ela ultrapassa aquilo que ela consegue compreender discursivamente e transforma-a pelo amor.
6. Deus comunica
Aqui, já a alma aprendeu a não procurar avidamente consolações nem experiências espirituais. Deixou de medir a oração pelo que sente. É precisamente nesse desapego que Deus pode agir com maior liberdade. Estas graças não surgem como recompensa pelo esforço, nem como resultado de uma técnica espiritual. São dadas gratuitamente.
São João da Cruz distingue esta suavidade das consolações anteriores. Não é uma emoção intensa nem um entusiasmo passageiro. Trata-se muitas vezes de uma paz profunda, de um amor sereno, de uma certeza silenciosa da presença de Deus, de uma luz interior que orienta sem fazer ruído. A alma percebe que Deus está próximo, mas de um modo mais espiritual. Ao longo desta purificação, a alma aprende a amar Deus por Ele mesmo, com um amor mais livre do interesse próprio. É um amor mais simples, mais livre e mais verdadeiro. Por isso, uma pequena comunicação deste amor vale mais do que muitas consolações sensíveis do passado.
Na linguagem sanjuanista as «notícias espirituais» são conhecimentos interiores de Deus que não procedem do raciocínio. Não são conceitos novos, mas compreensões profundas recebidas na oração. A alma «sabe» algo de Deus, sem ter chegado lá por argumentação, sem conseguir explicá-lo totalmente, mas com uma certeza íntima que transforma a vida. É a «sabedoria amorosa» própria da contemplação.
O ensinamento fundamental sanjuanista é que nenhuma fidelidade na aridez é estéril. Enquanto a pessoa pensa que nada acontece, Deus trabalha silenciosamente no mais profundo da alma. E, em determinados momentos, permite que ela receba um vislumbre dos frutos desse trabalho escondido. Por isso, a noite não é ausência de Deus. Ao descrever o período posterior à noite dos sentidos, ainda anterior à purificação mais profunda do espírito, o santo escreve que a alma: «com muito mais liberdade e satisfação interior, com maior e mais profunda alegria do que no princípio, antes de entrar nessa noite. Já não traz a imaginação e as potências atadas ao discurso e à preocupação espiritual como costumava trazer.» (Noite Escura II, 1,1).
Para São João da Cruz, a alma que persevera humildemente na aridez acaba por descobrir que Deus nunca esteve ausente. Pelo contrário, era precisamente na obscuridade que Ele a estava purificando para poder comunicar-lhe um amor mais puro e uma sabedoria mais alta. As consolações anteriores eram boas, mas as graças que florescem depois da noite são mais profundas, porque já não alimentam apenas a sensibilidade, mas tocam diretamente o espírito e conduzem a alma a uma união mais verdadeira com Deus.
Notas finais
Depois de percorrermos algumas etapas da passagem da meditação ao hábito contemplativo, à luz da espiritualidade de São João da Cruz desponta uma convicção fundamental: a contemplação não é uma fuga do mundo nem a procura de experiências extraordinárias, mas uma transformação progressiva da pessoa pelo amor de Deus. Trata-se de uma obra silenciosa, discreta e profunda, que acontece muitas vezes para além do que a inteligência compreende e os sentidos percebem. A grande pedagogia do nosso Místico consiste precisamente em ensinar que o crescimento na vida de Deus nem sempre se manifesta através de luzes, entusiasmos ou consolações. Pelo contrário, muitas das etapas decisivas realizam-se na escuridão da fé, na aridez da oração e na pobreza interior. É aí que Deus purifica os afetos, liberta das falsas seguranças e conduz a alma a um amor mais puro e mais livre.
A «noite» não é, portanto, sinal de abandono divino, mas frequentemente lugar de passagem e de amadurecimento. Quando os apoios humanos diminuem e as certezas parecem vacilar, a fé é chamada a tornar-se confiança radical. E nós aprendemos então a permanecer diante de Deus, não pelo que sentimos, mas por amor, não pelo que compreendemos, mas pela fidelidade.
Neste caminho, os gostos espirituais deixam de ser o centro, e Deus torna-se o único tesouro. A contemplação gera uma nova forma de conhecer, não baseada na acumulação de conceitos, mas numa «ciência de amor» que nasce da comunhão com o Senhor. A pessoa descobre que o verdadeiro conhecimento de Deus consiste menos em falar d’Ele e mais em deixar-se transformar por Ele.
Para o homem e a mulher contemporâneos, frequentemente marcados pelo ruído, pela dispersão e pela necessidade constante de produzir resultados imediatos, a mensagem de São João da Cruz conserva uma extraordinária atualidade. Ela recorda-nos que existe um espaço interior onde Deus continua a falar em silêncio e onde o coração encontra a sua verdadeira liberdade.
Como escreveu São João da Cruz: «Para chegar a gostar tudo, / não queiras ter gosto em nada. / Para chegar a possuir tudo, / não queiras possuir algo em nada. / Para chegar a ser tudo, / não queiras ser algo em nada.» (Subida I, 13, 11).










