Armindo Vaz, OCD
Hoje em dia, com a necessidade de concentrar a atenção no essencial da vida, é inevitável contactar o pensamento de S. João da Cruz. A isso obriga a sua inclusão entre os clássicos da poesia e entre os cultores do espírito. A nossa sociedade, tão rápida em levantar ídolos como em derrubá-los, não pode desligar-se dos génios que determinaram o curso da história com a sua obra e o seu pensamento. Sobretudo os círculos culturais com sensibilidade mental para os grandes problemas do espírito desejam apoiar-se nos artífices do passado e tomar de empréstimo a riqueza dos seus valores imperecíveis. João da Cruz, cume da mística cristã, é um desses consagrados. Cantor inspirado do silêncio fecundo e da interioridade, ergue-se como monumento na literatura religiosa do séc. XVI espanhol, mesmo sem ter sido um profissional da pena. Os seus escritos, de alto quilate artístico, obra-prima da lírica hispana, são expressão de vigorosa travação doutrinal. É verdade. Não são fruto de intensa consagração à escrita, mas antes de uma actividade literária ocasional. E esta brotava do vigor das inefáveis intuições místicas, apesar de o santo avisar que «a sabedoria mística, que se comunica por amor e da qual falam as presentes Canções, não precisa de ser perfeitamente entendida para causar na alma efeitos de amor e afecto. É como na fé: amamos Deus sem o entender» – diz no Prólogo ao Cântico espiritual, 2. Mesmo assim, perseguia a palavra que mais harmoniosa e eficazmente podia comunicar a beleza e a emoção da sua experiência mística. Os seus poemas maiores (Noite escura, Cântico espiritual, Chama de amor viva) afirmam o amor total e a felicidade total, sem queda possível depois de atravessado o deserto do sofrimento para os alcançar. São pão delicioso e «fonte que mana e corre, mesmo sendo noite», sim. Ao mesmo tempo, porém, são fermento que produz mais pão, para todos os famintos e sedentos do Absoluto.
O santo carmelita é figura exemplar para crentes e não crentes. Com a sua poesia não pôs a circular inépcias sobre o amor a Deus. Enquanto tantos amores humanos não passam de miragem, João da Cruz amou (e amou Deus) de verdade, com um amor inalterável. Procurava vivamente o amor de Deus. Fora dele não pedia muito mais. Porque o tinha a jorros, a Terra inteira não lhe parecia senão moitas de pó. Investiu antes no humano, com intensidade e originalidade. Quase impermeável às correntes e aos movimentos que o rodeavam, pouco do exuberante mundo circunstante transparece nos seus escritos. Através deles não conseguimos captar ideologias e ressonâncias políticas, sociais e religiosas do seu tempo; ao máximo, apontam-se tímida e genericamente. Se não fosse pelo seu envolvimento literário, o que ele escreve poderia provir de qualquer momento da história humana: diz respeito ao substrato profundo e perene do humano. Isso, sim. Cada verso corta no vivo e no pessoal da existência humana. As incomparáveis estrofes são retalhos da sua alma à procura do imperdível Amor escondido:
Aonde te escondeste,
Amado, e me deixaste com gemido?
Como o veado fugiste,
Havendo-me ferido.
Saí atrás de ti clamando: tinhas partido!…
Porquê, tendo chagado
Este coração, não o curaste?
E pois mo hás roubado,
Porquê assim o deixaste
E não guardas o roubo que roubaste?…
Mostra a tua presença,
Matem-me tua vista e formosura,
Pois olha que a doença
De amor jamais se cura
Senão com a presença e a figura (Cântico espiritual, 1.9.11).










