Frei Marco Caldas, OCD
Nota de abertura
Num mundo saturado de ruído exterior e interior, o silêncio torna-se resistência espiritual, fidelidade ao essencial, pedagogia da atenção e caminho de purificação. A nossa interioridade entra no silêncio não para fugir do mundo, mas para regressar ao Centro, lugar onde Deus habita. O silêncio é uma das realidades mais discretas e, ao mesmo tempo, mais transformadoras da vida espiritual. Não é ausência nem vazio estéril, é lugar de revelação, morada do Mistério, espaço onde o nosso ser interior aprende a escutar Deus.
Aprender a calar é aprender a estar diante de Deus com verdade, simplicidade e despojamento. Cessam as palavras, repousam também as imagens, os desejos e as ideias sobre Deus. No fundo, o nosso ser interior aprende a escutar a brisa leve, a notícia de Deus. Não é conceito nem pensamento, é presença que dilata o coração.
A nossa dimensão intelectual cai em silêncio profundo e o coração interior descobre uma paz que não depende de esforço, que é condição para o encontro com o Senhor. Quem se aproxima d’Ele agitado não escuta as Suas Palavras, que são sussurro e brisa suave. O nosso ser interior dispõe-se, como Samuel: «Eis-me aqui, Senhor.» (1 Samuel 3,4-10). É a sabedoria sem ruído de palavras.
I. O silêncio: morada interior
O místico, João da Cruz descreve-nos o recolhimento interior como um movimento de libertação das coisas transitórias, das distrações e dos apoios espirituais que antes ajudavam, mas agora estorvam. O silêncio está presente nesta dinâmica de transformação. Para ele o silêncio não é apenas método, é sim, sinal de maturidade espiritual. Para o nosso místico os «sinais do recolhimento interior são três: primeiro, se a alma não gostar das coisas transitórias; segundo, se gostar da solidão e do silêncio e se sentir impelida para o mais perfeito; terceiro, se as coisas que antes a costumavam ajudar, por exemplo reflexões, meditações e atos, agora a estorvam, não encontrando outro apoio na oração senão a fé, a esperança e a caridade.» (Ditos de luz e amor, 118).
A contemplação busca o silêncio interior, pois é uma forma de oração, já não apoiada em imagens, raciocínios ou sentimentos, mas sustentada apenas pelas três virtudes teologais, isto é, fé, esperança e caridade. É o momento em que o coração interior começa a «voar sobre todo o entendimento». Entre as imagens mais belas da tradição carmelita está a do pássaro solitário, que o nosso místico São João da Cruz utiliza para descrever a interioridade que entrou na via contemplativa. Para ele, as «propriedades do pássaro solitário são cinco. Primeira, voa para a parte mais alta; segunda, não tolera nenhuma companhia, nem mesmo da sua natureza; terceira, vira o bico para o ar; quarta, não tem cor determinada; quinta, canta suavemente. Estas mesmas qualidades há-de ter a alma contemplativa: colocar-se acima das coisas passageiras, fazendo tanto caso delas como se não existissem; ser muito amiga da solidão e do silêncio, de modo a não tolerar companhia de outra criatura; voltar o bico para a brisa do Espírito Santo, correspondendo às suas inspirações, a fim de se tornar mais digna da Sua companhia; não ter cor determinada, ou seja, não ter tomado nenhuma outra determinação a não ser naquilo que é vontade de Deus; cantar suavemente na contemplação e no amor do seu Esposo.» (Ditos de luz e amor, 120).
O silêncio torna-se então não apenas uma prática, mas um modo de estar diante de Deus: a sós com Deus, sem cor e sem distração. Aqui é voo, é altura e é liberdade. A interioridade desprende-se das cores que a definem, das companhias que a prendem e das distrações que a dispersam. Aprende a cantar suavemente, não com palavras, mas com amor. A transformação interior acontece no silêncio, não é obra humana, mas divina. Cessam os modos antigos de pensar, de querer e de recordar. Deus introduz a pessoa, num novo modo de conhecer e amar, espaço de transfiguração: «Abandonado o velho modo de entender humano, Deus dá-lhe um novo modo de conhecer Deus em Deus.» (1 Livro da Subida do Monte Carmelo 5,7)
Aqui, o silêncio já não é apenas caminho, é morada. A pessoa permanece em Deus não por esforço, mas por graça e Deus permanece nela. Aprender a calar é entrar numa sabedoria que não se explica, não se demonstra, não se discute. É uma sabedoria silenciosa recebida, que ilumina sem fazer ruído. É o saber dos enamorados, o saber dos que escutam, o saber dos que se deixam transformar. O silêncio torna-se morada, espaço onde Deus age sem ruído, lugar de encontro e lugar de purificação. É a sabedoria sem ruído de palavras, aquela que só se aprende calando.
II. Quando o entendimento se cala
Há um momento na vida espiritual em que o entendimento, tão habituado a construir caminhos, se descobre «sem escada» para ir ao Encontro. Procura subir, procura compreender e procura agarrar Deus com conceitos, imagens, raciocínios, mas tudo lhe escapa. É então que começa a verdadeira «Subida».
O Poeta do ser interior, São João da Cruz diz-nos que: «não existe uma escada pela qual o entendimento possa chegar até este grande Senhor.» (2 Livro da Subida do Monte Carmelo 8,7). Mas o entendimento é ponte para o Mistério. E é no silêncio, não num silêncio vazio, mas num silêncio que renuncia às escadas humanas, que abandona o desejo de compreender Deus com ferramentas de criatura e que aceita a noite como lugar de passagem. Despojado das suas seguranças, o entendimento, aprende a não subir, e, é nesse não subir que Deus o eleva. O ser interior abandona as escadas do entendimento entra numa forma nova de conhecer, não por provas, mas por presença, não por esforço, mas por graça, não por conceitos, mas por comunhão. Então a nossa interioridade torna-se o espaço onde Deus faz tudo, ilumina sem ruído, conduz sem mapa e transforma sem aviso. Subimos não porque compreendemos, mas porque amamos. E o amor quando é puro, não precisa de escadas, apenas precisa de Deus.
Há imagens na Sagrada Escritura, que só compreendemos quando entramos na noite de Deus. Nuvens, trevas, véus e águas turvas, são símbolos de uma presença que se oculta para ser acolhida. Deus vela-se porque a Sua luz é demasiado assombrosa para o olhar humano. O Profeta do Silêncio, João da Cruz interpreta as imagens bíblicas como linguagem da fé, essa escuridão luminosa onde Deus habita escondido: «que pôs as nuvens debaixo dos Seus pés, que das trevas fez o Seu véu.» (2 Livro da Subida do Monte Carmelo 9,2).
A fé é a tenda onde Deus se recolhe, é o véu que protege o coração e a nuvem que impede o entendimento de se perder em luz demasiado forte, é o modo como Deus se deixa ver sem ferir. Só o próprio Deus pode descer, velado, escondido, silencioso, para se dar àquele que O espera na noite da fé. Pois sobre todas as coisas «está o ser de Deus, ao qual ninguém pode chegar só por si.» (2 Livro da Subida do Monte Carmelo 9,2).
O Cantor do Amado, São João da Cruz com a delicadeza dos contemplativos recorda-nos que a fé é noite, mas é noite habitada. É escuridão, mas é escuridão luminosa. É véu, mas é véu que protege o coração para que possa amar sem se perder. Ao aceitamos noite aprendemos a caminhar sem escada, a amar sem compreender, a permanecer sem ver. E é então que o véu se torna luz, não luz que se vê, mas luz que se sente, que transforma, porque «para a alma excede todas as palavras.» (2 Livro da Subida do Monte Carmelo 26,1).
A nossa interioridade entra no silêncio onde Deus habita sem ruído de palavras, que preparam o coração para O acolher sem «palavras sucessivas» (2 Livro da Subida do Monte Carmelo 32,4). Há um ponto na nossa peregrinação espiritual em que o nosso coração humano deixa de procurar Deus com pensamentos, imagens ou raciocínios, porque percebe que já não o conduzem a Cristo.
O Mestre da Subida do Monte Carmelo, São João da Cruz descreve este estado com precisão e ternura: «se a alma gostar de estar a sós, com atenção amorosa em Deus e sem meditar nada em concreto, em paz interior, em quietude e repouso, sem actos e exercícios das potências — memória, entendimento e vontade —, excepto os da imaginação que saltam de um lado para outro. Fica apenas numa atenção e notícia geral amorosa. » (2 Livro da Subida do Monte Carmelo 13,4).
A nossa vida interior entra então numa solidão habitada. Não pensa, não discorre, não medita: ama. E esse amor é apenas presença. Uma atenção suave, uma notícia geral, um saber sem compreender. Neste estado, as potências — memória, entendimento, vontade — repousam. É o repouso onde Deus sussurra. Não se anulam, mas descansam.
A imaginação, essa inquieta viajante, continua a saltar de um lado para o outro, mas já não perturba. É como ruído distante, como vento que passa sem tocar o Centro. O essencial permanece: uma paz sem forma, um repouso que não é vazio, uma presença que não se explica.
III. O toque que não se sente, mas transforma
O Doutor Místico, João da Cruz fala-nos do saber dos enamorados: um saber que não se analisa, que não se descreve, que não se traduz em conceitos, ao que chama a este estado «notícia amorosa». É uma expressão delicada e quase musical. A nossa pessoa interior sabe — mas não sabe o quê. Ama — mas não sabe como. É o saber que nasce do silêncio. Quando o nosso eu profundo se cala, Deus age. O silêncio torna-se espaço de transformação, a quietude torna-se morada e a atenção amorosa torna-se união. Deus começa a ensinar no silêncio. A novidade espiritual chega como brisa leve, um toque sem forma, uma paz sem nome, uma presença que não se deixa agarrar. E, no entanto, é já Deus a aproximar-se.
O Companheiro da Noite descreve este começo com a delicadeza de quem conhece bem os caminhos da alma: «esta notícia amorosa costuma ser muito subtil, ténue e quase insensível; […] estando a alma habituada ao exercício da meditação, que é totalmente sensível, não é capaz de ver e quase sentir esta novidade insensível, que é puramente espiritual.» (2 Livro da Subida do Monte Carmelo 13,7).
O coração humano, habituado ao que é sensível, procura o que conhece: meditações, imagens, raciocínios e consolações. E, ao procurar o que é mais sensível, perde o que é mais profundo. A paz amorosa que Deus lhe oferece passa despercebida, como água que corre silenciosa por entre pedras. A «notícia amorosa» é subtil porque é espiritual. Não se apoia nos sentidos, nem nas potências, nem na imaginação. É como luz que não ilumina os olhos, mas o coração. Como perfume que não se cheira, mas se reconhece. Como presença que não se vê, mas se sabe. A alma, ainda inexperiente, não entende esta forma nova de Deus se comunicar. E, por não a entender, não permanece nela. Procura o que é mais sensível — e perde o essencial. Mas Deus não se apressa. A paz interior permanece, mesmo quando não é percebida.
A notícia amorosa continua a tocar, mesmo quando não é acolhida. O sossego é quando o coração humano aprende a estar. O Mestre da Subida diz que tudo muda quando a interioridade começa a acostumar-se ao sossego, deixa de procurar sensações, abandona a necessidade de sentir e aceita simplesmente estar, pois, «quanto mais a alma se for acostumando a ficar em sossego, tanto mais irá crescendo e sentindo-se nela a geral e amorosa notícia de Deus.» (2 Livro da Subida do Monte Carmelo, 13,7).
A «amorosa notícia» cresce. A presença torna-se mais suave e a pessoa interior começa a perceber que Deus estava ali desde o início. A nossa interioridade aprende a permanecer e descobre que esta «notícia amorosa» é mais doce do que tudo o que antes a consolava. «Desfruta mais dela do que de todas as coisas, porque, sem nenhum trabalho, recebe paz, descanso, prazer e bem-estar.» (2 Livro da Subida do Monte Carmelo 13,7). É Deus a ensinar a nossa interioridade a amar no silêncio, pois «toda a palavra substancial é formal, mas nem toda a palavra formal é substancial. Substancial é só aquela que, como antes dizíamos, imprime substancialmente na alma aquilo que significa. Por exemplo, se nosso Senhor dissesse formalmente à alma: «Sê boa», imediatamente seria substancialmente boa. Ou se lhe dissesse: «Ama-Me», imediatamente teria e sentiria em si a substância do amor de Deus. Ou se, tendo muito medo, lhe dissesse: «Não temas», sentiria logo grande coragem e tranquilidade.» (2 Livro da Subida do Monte Carmelo 31,1).
Notas finais
Aprender a calar é entrar num silêncio que não é ausência, mas morada. Não é vazio, mas espaço de transfiguração. Não é pausa, mas linguagem. É o lugar onde Deus se comunica de modo discreto, onde a nosso eu interior aprende a amar sem compreender, e onde o entendimento se recolhe para que o agir divino se torne possível.
A nossa peregrinação aprofunda-se quando nos desprendemos das distrações e dos apoios sensíveis que antes nos davam segurança. O que é transitório perde sabor, a solidão e o recolhimento tornam‑se naturais, o que antes ajudava passa a dispersar. O silêncio revela‑se como o espaço interior onde tudo se simplifica e onde o essencial se acende.
O ser interior torna‑se semelhante a um pássaro que busca a altura: sobe ao mais alto, liberta‑se das formas que o definem, não se prende a cores nem a imagens, e canta suavemente no íntimo. Este canto interior nasce da liberdade, da quietude e da capacidade de permanecer só com Deus. Quando cessam os modos antigos de pensar, querer e recordar, a alma recebe um modo novo de conhecer e amar. Já não procura escadas criadas para chegar ao Criador, porque compreende que nenhuma criatura pode conduzir ao Infinito. A fé torna‑se o véu luminoso que envolve e protege quem se deixa conduzir.
A oração transforma‑se numa atenção amorosa, vivida em paz interior, quietude e repouso. O toque é breve, aprender a calar é descobrir que o silêncio é o lugar onde Deus transforma o ser interior, elevando‑o da meditação sensível à união, onde tudo o que é figura cai e só permanece o Amor.










