Três perguntas e… mais uma

Sobre o livro “São João da Cruz: Cantor da glória de Deus e da dignidade do homem”

1.           São João da Cruz é assim tão atual que o possamos dizer nosso companheiro de peregrinação?

É verdade. São João da Cruz (1542-1591), apesar da distância temporal, é de uma atualidade gritante na vida do Carmelo, da Igreja e do mundo, pois, como disse São João Paulo II, estudioso e discípulo do «Mestre na fé», «os santos nunca envelhecem». O essencial da sua experiência, doutrina e mensagem, é-nos mais necessária ainda hoje do que aos cristãos e religiosos da Espanha do século XVI. Constitui um dos antídotos mais eficazes contra os perigos de uma civilização voltada para a exterioridade e, pela via da interioridade orante, pode preservar o nosso cristianismo da anemia espiritual. A pessoa humana é digna, não pelo que faz ou produz, mas porque é infinitamente amada por Deus.

Ele consagrou toda a sua a vida a cantar e amar a glória de Deus e a honrar e servir o homem e a sua dignidade. A união com Deus é o sentido primeiro e último da vocação e missão do homem sobre a terra. O que há de mais provocante em São João da Cruz, é que, a um mundo que toma cada vez mais consciência de seus próprios valores, não cessa de lhe atirar à cara o antigo adágio: “Só Deus basta”, e isto com uma exclusividade que reserva a poucos a realização do “homem em verdade”. Neste sentido, ele é um verdadeiro mestre, pedagogo, mistagogo e companheiro de viagem espiritual desde a graça do batismo até à glória eterna.

É «o grande mestre da verdade viva sobre Deus e o homem e dos caminhos que conduzem à união com Deus». «Só Deus pode libertar o homem». «A dignidade e liberdade do homem é a comunhão com Deus».

2.           São João da Cruz não nos saiu ousado quando afirma que o ser humano é «Deus por participação»?

O Santo é de uma ousadia bíblica e patrística ao afirmar que o ser humano é «Deus por participação». Como afirmava Santo Ireneu, a pessoa humana é a manifestação da glória de Deus na dignidade da sua vida. João da Cruz, à luz da glória de Cristo e da glória da Igreja, cantou da glória de Deus e serviu a dignidade do homem, com a santidade da sua vida e o seu magistério sobre os mistérios da fé cristã. O Doutor místico é uma testemunha singular e excecional do rosto humano de Deus e do rosto divino do homem, à luz de Cristo, na vida atual da Igreja. «Jesus Cristo é o rosto humano de Deus e o rosto divino do homem». Para o Santo, Cristo, a única Palavra do Pai (2 S 22, 3) – «em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade (Cl 2, 9)» –, contém e revela toda a riqueza do mistério de Deus e do mistério do homem: «O mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente (GS 22)».

A união de amor com Deus é o princípio que unifica o sistema sanjoanino. Deus e o homem «buscam-se» reciprocamente (CH 3, 28), e «desejam», a união (CB 21, 1). Deus pretende igualar consigo o homem (CB 28, 1). O homem «nunca descansa» (CB 22, 6), nem «pode estar satisfeito» até chegar a ser «Deus por participação» (CB 38, 3). A união é «uma vida por união de amor» (CB 12, 8), são «duas naturezas num espírito e amor» (CB 22, 3), é ser um com Deus «por unidade e transformação de amor» (CB 39, 5). O amor produz «tal semelhança» que «se pode dizer que cada um é o outro e que ambos são um só» (CB 12, 7). A alma está «feita divina e Deus por participação, quanto se pode nesta vida» (CB 22, 3).

A união é o grande milagre do amor que une os amantes:

«Oh noite que guiastes!
Oh noite amável mais que a alvorada!
Oh noite que juntaste
Amado com amada,
Amada no Amado transformada”»
(Noite 5).

Nesta metamorfose amorosa «a alma mais parece Deus que alma, e ainda é Deus por participação» (2 S 5, 7).

Estou convencido de que São João da Cruz, que trabalhou generosamente pela glória de Deus ao serviço da dignidade do homem, subscreveria de bom grado a mensagem atual do Papa Leão XIV sobre a necessidade de salvaguardar o primado da pessoa humana à luz do Verbo encarnado.

«Em Jesus Cristo, esta magnífica humanidade torna-se o Caminho, a Verdade e a Vida, abrindo a cada um de nós a via para crescermos até à plenitude» (n. 1). «O ser humano, chamado à comunhão com Deus… não está confinado aos limites da própria natureza, mas é chamado a transcender-se a si mesmo» (nn. 48.127). «A verdade que não devemos perder é aquela sobre Deus e sobre o ser humano, tal como Cristo nos revelou» (n. 237).«Temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, salvaguardando com amor essa magnífica humanidade, que nos foi plenamente dada e manifestada em Cristo» (n. 231). «O centro da história continua a ser um rosto humano que pede para ser olhado. Este rosto humano é a plenitude para a qual caminha a história» (n. 233).

«O que salva o ser humano não é a autossuficiência aperfeiçoada, mas uma relação que liberta, uma comunhão que transforma» (n. 128). «O Deus vivo desce à nossa história e transforma-a num lugar de salvação… «Ó maravilha […] o homem é Deus e este Deus-Homem passa por todos esses graus, suporta todos esses estados e os enobrece, santifica e deifica em si mesmo!. O que salva o homem é o amor divino que desce ao ponto mais vulnerável da sua história e a regenera profundamente» (nn. 231-232).

3.           Deus é glorioso porque é Deus. Mas se o homem não fosse glorificado não seria a mesma coisa, pois não?

Não, não seria a mesma, morreria escravo do seu pecado e não viveria para Deus. na liberdade de filho de Deus.

«A Magnífica Humanidade criada por Deus encontra-se hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos» (n. 1).

Uma coisa é uma humanidade habitada por Deus – «e Deus habita no coração dos ser humano para fazer dele um construtor da civilização do amor» – e outra seria uma humanidade sem Deus e sem humanismo transcendente que certamente se tornaria uma sociedade fria e até anti-humana. Há eclipse solar total – escuridão e resfriamento – quando o sol, a lua e a terra estão perfeitamente alinhados. Quando Deus e o homem estão perfeitamente alinhados em Cristo e na Igreja tornam-se cooperadores na construção da cidade da convivência e da paz.

O Santo subscreve ainda o recente desejo do atual Papa: «Que a humanidade nunca perca a própria beleza e o mundo possa reconhecer mais uma vez, no coração do ser humano, o lugar onde Deus deseja habitar» (n. 16). «Também a era da IA pode tornar-se uma etapa em que o Espírito faz amadurecer a civilização do amor na nossa vida… de modo que possamos testemunhar a beleza duma magnifica humanidade habitada por Deus» (n. 245).

O místico-poeta afirma biblicamente que «Deus seria homem e o homem seria Deus». O sonho de Deus realizou-se: «Ficou o Verbo encarnado / no ventre de Maria». Cumpriu-se o sonho do homem: «E no homem a alegria», porque «dentro de Deus absorto, Vida de Deus viveria». Eis, como o homem é «Deus por participação».

O Deus da glória não só «nos predestinou, em Cristo, mas também n’Ele nos glorificou» (Rm 8, 30). Deste modo, Deus revelou ao homem o Seu rosto humano: «Deus com esse seu rosto cheio de graça, diz ao homem na sua união, não sem grande júbilo da sua parte: Eu sou teu e para ti; gosto de ser como sou por ser teu e para Me entregar a ti» (CH 3, 6). E manifestou ao homem o seu rosto divino, a sua dignidade de filho de Deus: «Olhando, com sua só figura vestidos os deixou de formosura e dignidade» (CB 5, 4).

e… 4. O processo de glorificação aproxima-nos de Deus, a ponto de nos enchamearmos Nele; podemos dizer, por isso, ao revés, que longe Dele enregelamos?

Deus, enamorado da bondade e beleza da sua criação, engrandeceu o homem chamando-o à união de amor com Ele, para contemplar e adorar com amor a obra de glorificação de Deus na sua vida.

Com o presente livro – São João da Cruz. Cantor da glória de Deus e da dignidade do homem – o Carmelo Teresiano e as Edições Carmelo querem oferecer à Igreja em Portugal, neste Ano Jubilar sanjoanino, um «valioso serviço» de «difusão da sua mensagem» sobre Deus e o homem, à luz de Cristo e da Igreja; de «facilitação da compreensão da sua doutrina», de «iniciação à leitura das suas obras», que nos interpelam e desafiam no «caminho seguro para chegar à santidade – o estado de perfeição ao qual Deus nos chama a todos».

A 24 de agosto de 2026 celebramos os 100 anos da proclamação de São João da Cruz como Doutor da Igreja, o qual, nos ensina a «gloriar-nos da nossa glória», da nossa grande dignidade, o grande dom do amor do Pai, na fonte da Eucaristia, na qual

«Cristo é nosso e todo para nós»:
«Esta viva fonte que desejo
Neste pão de vida eu a vejo
Ainda que é de noite».
«Uma esposa que te ame,
Meu Filho, dar-te queria,
Que por teu amor mereça
Ter a nossa companhia.
E comer pão numa mesa,
Do mesmo pão que Eu comia,
Para que conheça os bens
Que em tal Filho Eu possuía.
E comigo lhe compraza
Tua graça e louçania» (Rom 3).

É na mesa eucarística do Pai e do Filho que o homem é «Deus por participação», companheiro e comensal do pão sacramental e espiritual do amor de Deus.

«Meus são os céus e minha é a terra;
minhas são as gentes, os justos são meus,
e meus os pecadores; os anjos são meus,
e a Mãe de Deus e todas as coisas são minhas,
e o mesmo Deus é meu e para mim,
porque Cristo é meu e todo para mim.
Pois que pedes e buscas, alma minha?
Tudo isto é teu e tudo é para ti.
Não te ponhas em menos, nem repares em migalhas
que caem da mesa de teu pai.
Sai fora e gloria-te em tua glória.
Esconde-te nela e goza, e alcançarás
as petições do teu coração» (Dito de Luz e Amor, 26).