1. Parabéns, Verónica, por mais este livro para adolescentes. Os adolescentes são o teu amor ou a tua preocupação?
    Pois bem, Frei João, os adolescentes são, antes de tudo, uma presença constante no coração de quem escreveu este livro, no meu e no teu coração. São uma presença inquieta, luminosa e desafiadora. Os adolescentes são, sem dúvida, uma fonte de amor e preocupação. Não são apenas um “objeto de estudo”; são uma paixão, uma missão e, por vezes, sim, também uma preocupação. Mas preocupação no sentido mais nobre da palavra: aquele cuidado vigilante, atento que nasce do amor, do respeito profundo por quem está em crescimento e transformação. A preocupação é natural, pois sabemos que os adolescentes enfrentam muitos desafios, desde a pressão social até à procura de aceitação. Este livro revela uma clara entrega ao mundo juvenil, não com a pretensão de o resolver – não somos super-heróis, nem temos verdades absolutas –, mas tenta promover a humildade de os escutar e com eles estabelecer este diálogo relacional que tanto precisam, que tanto precisa o mundo de hoje. A adolescência é aqui vista como um terreno fértil, onde a semente da fé, da amizade e do autoconhecimento pode e deve germinar; e se for bem acolhida, se for bem cuidada, temos frutos! Portanto, Frei João, a resposta é dupla, mas harmoniosa: os adolescentes são amor, e são preocupação – porque tudo o que é amado verdadeiramente, preocupa. Não concordas, Frei João?
  2. Qual é a origem deste livro; existe algum enquadramento que ajude a ideia para o escrever?
    A origem deste livro não está apenas num plano editorial ou numa intenção pedagógica. Ele nasce, claramente, de um percurso espiritual e existencial partilhado, alimentado pelo diálogo entre gerações, pela escuta atenta das inquietações dos adolescentes e jovens, e pela vontade de criar um espaço onde a fé, a amizade e o crescimento interior se possam encontrar – que bela triangulação temos! Talvez, a sua origem esteja profundamente enraizada na experiência e na observação das realidades que os adolescentes enfrentam no dia a dia. Ao longo de anos, eu como educadora social e tu como sacerdote, tivemos a oportunidade de acompanhar muitos jovens nas suas caminhadas, ouvindo as suas histórias, os seus medos e as suas aspirações. Por isso se pode dizer que a semente germinou no seio do Carmo Jovem e foi regada por muitos encontros, por muitos Akampakis, Carminhadas, Clarminhadas, partilhas e experiências vividas no chão da realidade, no contacto com as famílias, nas escolas e nos grupos de jovens que emergiam ao redor dos conventos carmelitas. Este livro é, pois, fruto duma caminhada vivida – uma “jornada de montanha”, como é dito no livro. A ideia de escrevê-lo surgiu da necessidade de criar um recurso que pudesse aproximar-se a um arremedo dum guia, dum companheiro de viagem para os adolescentes, uma bússola com a qual possam encontrar os seus próprios caminhos, pois todos eles serão diferentes de Betânia e, ao mesmo tempo, tão parecidos… O livro, assim, não é só para adolescentes e jovens: é com eles, por causa deles e inspirado por eles.
  3. Quem é Betânia?
    Ora bem, podemos filosofar dizendo: Betânia é, acima de tudo, símbolo e pessoa. É personagem literária e realidade vivida. Não é um arquétipo idealizado, nem uma figura mítica; é alguém concreto, com raízes numa aldeia, com ligação à terra e ao invisível… Enfim, Betânia somos todos nós! Betânia representa em cada jovem que, mesmo pequeno no mundo, se mostra grande na alma e na procura de um sentido. Betânia é um nome, carregado de ecos evangélicos, evoca acolhimento, espiritualidade e intimidade com o sagrado. Mas não é apenas personagem – é também espelho. Espelho de todos nós quando à procura, quando ousamos perguntar, quando queremos compreender mais profundamente a vida, a fé, o amor – tal é a verdade acerca de quem é Betânia. É a adolescente que ainda não sabe todas as perguntas, mas que não tem medo de fazer algumas. E isto faz dela, não uma figura distante, mas uma amiga de caminho. Betânia é o rosto de muitos adolescentes reais com quem caminhamos e continuamos a caminhar.
  4. Achas mesmo que os adolescentes o vão ler? Ou está mais indicado para os pais, professores de Moral e Catequistas?
    Pois bem, Frei João. Esta é uma pergunta legítima e importante. A verdade é que o livro pode, sim, e dever, ser lido por adolescentes – especialmente por aqueles que têm sede de sentido, que vivem com intensidade as perguntas sobre a fé, o futuro, as relações e a interioridade. Mas também é verdade que nem todos os adolescentes o lerão facilmente. Não porque lhes falte inteligência ou sensibilidade, não porque não seja um jogo interativo, não porque não seja viral no TikTok, mas porque o texto exige tempo, espaço de escuta e, sobretudo, um certo grau de maturidade espiritual ou de orientação. Por isso, ele é também – e talvez principalmente – um instrumento precioso para pais, educadores, professores de EMRC e catequistas. Porque estes podem mediar a leitura, iluminar as entrelinhas, dialogar com os jovens sobre os temas que o livro levanta. A sua força está na relação, o ser humano é um ser relacional. E este é um livro para criar relações: para nos relacionarmos connosco próprios, com a família, a escola, a Igreja, com quem se cruza no nosso caminho de montanha, com o sistema onde estamos inseridos.
    É esta a nossa intuição: oferecer uma visão de espiritualidade, de interioridade e de educação relacional. Não é um livro para ser lido sozinho, de uma vez só, como se fosse um romance ligeiro. É um livro para ir sendo saboreado aos poucos, em comunhão, em partilha. Por isso, a resposta mais honesta será: é um livro para todos os que estão, de alguma forma, envolvidos no caminho dos adolescentes – sejam eles adolescentes, pais, educadores, catequistas ou mestres.