Frei João Costa, OCD
1. Neste sexto domingo da Páscoa escutámos em nossas reuniões um excerto do Quarto Evangelho (João 14:23-29), onde Jesus, depois da Última Ceia, deixa palavras entranháveis que alimentam a comunidade cristã pelos séculos adiante; diz-nos ali, como naquela hora lhes disse: «Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada». Nesta frase pequenina, encontramos o centro de nossa fé cristã: Deus mora no mais profundo centro de cada um!
Escusam de buscar outra. E não, não podemos não conhecê-la. Não, não podemos jamais esquecê-la. Pessoal e comunitariamente.
2. Prestes a ser arrepanhado pelos inimigos e levado ao martírio, Jesus despediu-se longamente dos Seus amigos com uma ceia ritual, a sua última refeição. Já tudo à sua volta estava decidido e urdido e, Ele como que ignorando o perigo, em pós aquela postremeira refeição, deixou-se ficar em distendida conversa com eles. Na verdade, não parece que dela tenham eles retido ou compreendido grande coisa, porém, felizmente, João, mais sensível que outros ao que o Espírito iria recordando à sua Igreja, recolheu as aquelas palavras como o Seu legado central e transmitiu-no-lo com um enlevo ímpar: Filhinhos: «amai-vos uns aos outros»; «amai-vos como Eu vos amei»; «guardai a minha palavra e nós, eu e o Pai, faremos morada em vós».
Deveríamos ler mui pausadamente, com diário e renovado júbilo estas palavras, pelas quais Jesus nos diz que somos «morada» de Deus, isto é, que não estamos vazios, pois Ele está em nós!
Não estamos vazios, não somos casa vazia! Que grandeza somos!
Prestes a morrer (e a regressar para a gloriosa direita do Pai), Jesus confiou-nos que, afinal, ficaria, e bem, connosco; bastaria que guardássemos a Sua palavra e aprendêssemos a linguagem do amor, do coração rasgado e dos braços e mãos abertas. Estaria Ele ali, à mão de semear – bastaria entrar na morada em que Ele mais preferira ficar, o céu, o nosso mais profundo centro!
É curiosa esta afirmação, porque desde Jesus já não precisamos, nem devemos buscar, incansavelmente, a Deus fora de nós, mas em nós. E saborear a Sua delicada presença e companhia onde Ele preferiu permanecer: no meio da pobreza do nosso coração!
3. Talvez valha a pena peregrinar um pouco pelo Antigo Testamento, a fim de melhor percebermos aquela última conversa de Jesus com os Seus discípulos.
Durante a longa travessia de quarenta anos pelo deserto, do Egipto para a Terra Prometida, a presença de Deus situava-se na Tenda do Encontro ou da Reunião. Esta tenda ou morada de Deus era montada por Moisés, num espaço desviado do acampamento. Quando Deus mandava parar de caminhar, o povo armava o acampamento e, apartado dele, montava-se uma tenda e depunha-se aí a Arca da Aliança. E quem quisera encontrar-se com Deus, saía da sua tenda, saía do acampamento, embicava para a Tenda da Reunião ou do Encontro, e aí se encontrava e se entendia com Ele.
Este singular lugar de adoração, simbolizava, portanto, naquele período, a presença de Deus entre os israelitas, que ali buscavam a Deus para O adorar. Durante o dia uma nuvem cobria a Tenda, e de noite, uma coluna de Fogo postava-se por cima dela, e assim se sinalizava a presença divina entre o Seu povo que – jamais o abandonava ou deixava só. Quando a nuvem se movia, os israelitas deslocavam-se; e quando ela se detinha, eles paravam e, desta forma, concluíam que Deus estava sempre presente no meio do Seu povo, guiando-o e amparando-o pelas durezas e securas da travessia em busca do ansiado vergel.
4. E quando Israel alcançou a posse da Terra Prometida, a Tenda, pobre, frágil e instável, continuou a ser lugar de encontro de Deus com o seu povo. E onde estivera a Tenda, aí, solícito estava Deus; bastava procurá-Lo. Fora como fora, tinha-se sempre de ir-se ao Seu encontro.
Porém, se Deus sempre esteve disponível para o encontro, já o coração do povo nem sempre esteve aberto a Deus. Por exemplo, no tempo do primeiro rei de Israel, Saul, a Tenda e a Arca, isto é a Aliança e a Presença de Deus ficaram esquecidas e desprezadas, pois o rei e o povo deixaram de demandar o olhar para a Tenda e os encontros acabaram por terminar. Por sua vez, ao conquistar a cidade de Jerusalém, David logo quis levá-la para o Monte Sião, a fim de fazer dele o lugar preferencial, onde o povo pudesse acorrer para encontrar-se e adorar a Deus. Mas ainda que David muito se tivesse esforçado por ter esse gosto, e com ele melhor honrar e glorificar a Deus, coube apenas a seu filho Salomão, terceiro rei de Israel, a honra de construir um templo estável para Deus, o que sucedeu 586 anos antes do nascimento de Jesus.
5. De facto, tanto a provisória e peregrina Tenda do Encontro, como o Templo estável de Jerusalém, foram os dois lugares que no Antigo Testamento assinalaram a presença de Deus junto do Seu povo; o lugar onde cada um se podia reunir para falar livremente a seu Deus. E, afinal, no que um e outro lugar se assemelhavam entre si é que, um e outro, sempre obrigavam a que quem quisesse adorar a Deus e conversar com Ele tinha de deslocar-se, de sair de casa para se aproximar, ou da Tenda ou do Templo que albergavam a Arca da Aliança. Este aproximar-se era, porém, bem mais que isso pois, ao menos depois da fundação do reino, tal supunha realizar uma peregrinação longa e duríssima e, não poucas vezes, perigosa.
Aliás, viver apartado do Templo, não experimentar ali, de contínuo, a delicada e fresca sombra da presença de Deus era, enfim, algo bem duro para povo fiel e piedoso. Tão duro que, ainda hoje, os peregrinos de Jerusalém, ao chegar ali, cantam cânticos de antanho: Que alegria quando me disseram, vamos para a casa do Senhor… E, ao invés, quando já lá não estão, recordam sempre que: Um dia em vossos átrios vale por mais de mil!
6. A coisa, porém, mudou com Jesus; e é isso que Ele, no Evangelho de hoje, assinala com aquelas suas palavras de despedida na Última Ceias: dentro em breve, a presença da glória de Deus já não seria encontrável num espaço construído por mão humana, nem seria obrigatório sair de casa e peregrinar para ali, porque a partir da Sua ressurreição Ele, com o Pai e o Espírito Santo morariam no interior do coração humano!
Ó maravilha! Ó revolução inaudita de Jesus! Ó caminhos novos de Deus connosco! Ó morada santa de Deus, em meu e teu coração! Sim, irmã, sim, irmão, dentro de ti tens a Santíssima Trindade; é aí que A deves buscar e experimentar, porque Deus já não está fora de Ti, separado de Ti, longe de Ti. Já não tens de O perseguir e buscar, já não corres o risco de te perderes ou de morreres pelo caminho, não, nada disso, porque Ele já não se mostra distante e inacessível, mas próximo, atento e disponível para ti.
Ó delicada maravilha do nosso Deus!
De facto, desde a Páscoa de Jesus já não existe um lugar em que Deus seja buscável fora de mim, fora de ti, porque eu e tu somos morada Dele e Ele é o fundamento da existência, da minha e da tua! Descobri-Lo agora em mim, em ti, é tomar consciência da sua singular Presença, já não longe, mas em mim, em ti; é reconhecê-Lo em mim, em ti, como fonte da minha, da tua, adoração, da minha e da tua vida, dos meus e teus trabalhos de todos os dias.
Tu és casa cheia! Abundantemente cheia da glória de Deus! Porque vais para longe, encontra-O aí! Não conheces o caminho para o teu coração?
7. Sim, reconheço, que também hoje o processo não é fácil para qualquer um de nós, tal como outrora não foi fácil para os primeiros.
Na verdade, depois da aventura vivida pelo pequenino grupo de discípulos caminhando junto com Jesus, durante três anos, foi-se Ele embora e, surpreendentemente, parece que nada se alterou no mundo, pois, essa é a verdade, nem Jesus alcançou fazer com que eles, os primeiros, compreendessem e fizessem, à primeira, a experiência interior da presença de Deus!
Essa é que é essa!
E só quando Jesus morreu, só quando ressuscitou e subiu ao céu e se sentou à direita do Pai é que, descendo o Espírito Santo sobre eles, «os foi ensinando» e «recordando» que Jesus lhes havia dito que éramos morada de Deus! Sim, só assim é que aquela pequenina e tolhida comunidade compreendeu que, já não tendo Jesus consigo, que já não mais se podendo fixar nem nas suas mãos, nem no seu rosto, para estar com Ele, podiam, sim, um a um, aprender cada um, a recolher-se no mais profundo centro de si e encontrar-se com Ele. Dentro, não fora. Que sim, confidenciara-lhes Ele, atempadamente, que se O queriam ver em todo o tempo teriam de aprender a entrar dentro de si mesmos, no resguardo do seu coração – do seu coração, não da sua mente! –, para encontrar ali Quem eles mais amavam e que já não mais se encontrava fora deles mesmos! Que sim, se também nós, hoje, O queremos encontrar, temos de O amar, e amando-O, e amando-nos entre nós, e recolhendo-nos dentro de nós, ali O encontraremos!
Dentro, não fora!
Ah, esse abecedário do amoroso silêncio que nos leva pelos profundos e renovadores mares interiores nunca dantes bem navegados!
Eis o tal segredo que não sabemos, que não podemos, nem queremos saber guardar: amá-Lo; que «a quem me ama […] Eu virei a Ele», «viremos a Ele», disse Jesus naquela hora.
Ah, e por fim, para que quererias ser tu, amigo, amiga, uma casa ou casarão vazio ou assombrado, se podes ser morada pequenina do Rei dos reis, que ali, em ti, deseja morar como um amigo, tal como outrora morou na cova de Belém? Que ali, em ti, deseja morar e ser visitado por ti, como sereno e doce amigo?
Repara e recorda sempre, porém que, naturalmente, quem Lhe é hostil, quem não é Seu amigo, quem não consegue guardar a Sua palavra, por não O amar, por não amar, esse não tem morada digna para O receber; e ali, no seu interior, não O pode ir visitar. Ah, até podes ser rico em pérolas de muitas virtudes, mas não, se não consegues guardá-Lo em teu coração – que é onde Ele mais deseja morar –, isto é, se não sabes amar, também não O consegues depois ali visitar, com Ele entabular três dedos de conversa amiga e, de mão dada, caminhar, chorar, subir e crescer na amizade com Ele.
Assim não dá, não. Por isso, amor e uma cabana, eis tudo quanto precisas.










