Frei João Costa, OCD
1. Eis-nos no início de nova caminhada quaresmal.
Sim, caminhamos, e caminhamos sempre recomeçando, e recomeçando, repetimos passos novos de libertação, ritos e exercícios há muito sabidos, consabidos e muito treinados. Porém, ainda que sempre com cinzas, não começamos nunca no mesmo ponto de partida. E se água mole bate na pedra dura até que a fura, que haveremos de dizer da frágil força da graça e do trato e efeito que em nossa vida ela possa produzir, ainda que lentamente?
Caminhando caminhamos, mas não sozinhos porque toda a Igreja está caminhando junta e em esperançoso jubileu. O convite, portanto, é o de todos peregrinarmos com Cristo nossa luz, nossa sombra e agilidade ardente da nossa esperança. Coloquemos os pés ponde Ele colocar os seus; e já que Ele sempre leva a cruz, fitando-a, levemos também nós a nossa – e por onde Ele e como Ele for, iremos nós, juntos.
Levemos também a cruz de Francisco que ele, desvalido e acamado que está, já inteiramente não pode com a sua; e levemos a de tantos irmãos doentes com forças e ânimo a menos para carregar peso a mais.
Esta Quaresma é, de facto, uma Quaresma especial.
2. Toda a Quaresma são quarenta dias – a palavra vem, precisamente, dessa cifra: quarenta; porque quarenta é o número de dias que vão da Quarta-feira de Cinzas à Quinta-feira Santa – início da Páscoa, portanto, já Páscoa; mas descontando-se-lhes os domingos. Este período formoso de tempo é sempre esperançosamente especial, porque pela provação dos exercícios quaresmais que estamos chamados a praticar, mais nos unimos a Cristo, mais à sua cruz, mais à sua Páscoa. E oxalá seja florida.
3. A Quaresma existe em função da Páscoa.
Ora se assim é, e se a Páscoa de 2025 é especial, deveríamos atender que entre as muitas que já celebrámos, esta tem tudo para ficar bem célebre. Não se trata de ficarmos nós célebres, mas de reforçarmos a distinção desta caminhada com o acerto dos nossos passos de regresso a Deus.
4. Ainda que por inteiro nos não digam – e talvez até nem o suportássemos – nós vemos que os dias que vamos percorrendo são de puro negrume, de escuro e duro terror, semeado por mão decidida e tenazmente louca que, semana em pós semana, vem medrando à beira da porta do nosso terreiro. Por demais pequeninos somos, logo não digo que sejamos nós quem arma a funda, dispara e faz guerra. Já digo que, para que não nos façam directamente guerra, nem destruam as praças das nossas cidades e o nosso estilo de vida, outros morram por nós. Não sei se exagero, mas parece que de todo não erro.
5. Temos nós um chefe ou pai que, por algo, se veste de branco. A sua voz é reconhecida e ouvida para lá do rebanho; mas pesa-lhe a idade e a doença persegue-o e corrói-o. E, ademais, encontra-se prostrado pela doença, na cama de um hospital. Leva doze anos a reger e a rezar e a dizer que estamos a viver a III Guerra Mundial aos pedaços – e eu que até já o vi de joelhos a beijar os sapatos de cabecilhas de partidos inimigos e em conflito mortal, não duvido que fez e faz tudo o que pode para parar qualquer guerra. Nós, os pequeninos, escutámo-lo, sim; e agradecemos. Mas quem devia, parece não querer ouvi-lo nem dele saber nada. Ou se sim, nada depois faz; e se fez ou faz, então ainda estamos pior. O facto é que estamos em guerra; e quando assim é, perdemos todos. É de lei.
6. O nosso mundo, seja numa praceta aqui próximo, seja numa ágora mais longínqua, seguirá cada vez mais escurecido pelo estrondo da destruição e da mentira, e pelo fumo da reabertura das fábricas de armamento – o que era impensável há três anos, é hoje verdade: a morte é cada vez mais um modo de vida e um negócio a meia porta com as nossas casas e as nossas vidas.
Ainda vamos sorrindo, mas já não podemos ignorar o martírio da Ucrânia. E outros muitos; aquele, porém, o mais recente e mais vizinho de nós.
7. Sim, é este o contexto infame em que peregrinamos e em que rezamos, nós, e não apenas nós. E é aqui, no que outrora foi um jardim de delícias, e agora é sala de terror que, hoje, a Palavra de Deus nos toca e nos chama à conversão. Não, não a podemos ignorar. Porém, não é apenas este contexto que faz com que esta Quaresma de 2025 seja muito especial. Senão, reparemos:
8. Neste ano de 2025 a comunidade dos cristãos católicos e a comunidade dos cristãos ortodoxos celebraremos a Páscoa no mesmo dia – a 20 de Abril. Em muitos séculos (desde o ano de 1054) será a primeira vez que tal acontece! Ora se católicos e ortodoxos celebraremos a Páscoa no mesmo dia, isso significa que, mais dia, menos dia, todos estamos em Quaresma; em caminhada de renovação e conversão.
Mas existe algo mais neste 2025, pois este ano a Páscoa judaica celebrar-se-á entre os dias 12 a 19 de Abril; isto é, enquanto nós, católicos e ortodoxos, nos encontrarmos celebrando os dias santos da Semana Maior da nossa fé comum! E existe ainda outra coincidência: também neste ano, o Ramadão, o mês do jejum ritual para os muçulmanos, calha no mês de Março, isto é, precisamente quando nós estamos em Quaresma, dedicados aos exercícios quaresmais da penitência, jejum e caridade!
Que, pois, pensar, senão que estas coincidências mais nos têm de fazer pensar e agir, suar, sofrer e, se necessário, sangrar? Se, pois, durante Março (e um bom pedaço de Abril) os seguidores das três grandes religiões abraâmicas estamos em exercícios penitenciais, não seremos nós, capazes de mais nos ajuntarmos, de mais forçarmos a união em clamor e oração ao Altíssimo e Bom Deus e Dele implorarmos a graça da paz entre irmãos fratricidas? Não ergueremos nós, terna e piedosamente, as mãos aos céus, quando outros as enchem de balas e as levam às armas? Poderão mais as armas de tantos que a penitência de milhões e milhões de crentes? Poderá mais a morte que a prece? O dinheiro que a oração em comum? O derrame do sangue do irmão que o louvor a Deus? Poderão mais o fogo e o fumo de morte que a penitência?…
9. Sim, esta Quaresma é especial; mas conseguiremos que ela seja mesmo especial, isto é, conseguiremos fazer com que ela seja mesmo especial para o coração de Deus e o nosso?
A Páscoa não acontece porque algum de nós, ou uma comunidade inteira, ou duas ou três reunidas e de mãos dadas, queiram que seja Páscoa. Não é isso, não, que a Páscoa não se fabrica. Será Páscoa quando tiver de sê-lo, mas apenas porque «Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não morra, mas tenha a vida eterna», relembrou recentemente o Papa Francisco. Acontecerá Páscoa também em 2025, mas apenas como altíssimo dom profusamente derramado, nunca comprado, nem por alguém programado ao milímetro.
Acontecerá Páscoa e será especial porque será uma Páscoa Together, rematou Francisco. Aliás, convirá não esquecer que em Maio, portanto, ainda dentro da cinquentena dos dias pascais, celebraremos os 1700 anos do primeiro concílio ecuménico – o de Niceia, onde primeiro brilhou a força do nosso Credo!
A Páscoa de 2025 é verdadeiramente especial, tão especial que bem pode ser o primeiro degrau, um degrau que não seja excepção, mas que de ora em diante nos permita celebrar juntos e de modo ordinário o Dia da Ressurreição. Ora, se tendemos a diluir divisões e a florescer na união, não daremos, nós, as mãos a Deus? Por estes santos dias que a nós se achegam e por nós vão passando, não haverá de mais doer-nos o coração, visto que morrem de forma atroz e ignominiosa tantos dos Seus filhos e filhas, nossos irmãos? Que faremos nós, cada um de nós, cada uma das nossas comunidades, nesta Quaresma especial? Não rezaremos mais, mais confiada e intensamente, reforçando a nossa união ao Senhor, a nossa união com todos e por todos – judeus, gregos, cristãos e muçulmanos –, todos os que nesta Quaresma rezarem e sofrerem pela paz?
Que faremos, nós, cada um de nós, nesta Quaresma especial? Não jejuaremos mais, não apenas de alimentos, mas, sobretudo, do supérfluo, do excesso nos gastos, de inimizades e de ódios, de malquerenças e invejas, de afectos desordenados, de sentimentos de posse, de desconfiança e indiferença perante o diferente de nós?
Que faremos, nós, cada um de nós, nesta Quaresma especial? Seguiremos de coração e mãos fechados; de coração mouco sem ouvir e mãos sem abrir, como os cárceres e os sepulcros? Coração que esteja fechado não sente nem ouve, e sofre menos, é certo, mas também não vê nem se condói, não se compadece de ninguém (nem de si); que, pois, haveremos, nós, de melhor fazer?
10. À porta da nossa Igreja do Carmo em Braga achegou-se um dia um profeta. Vinha descalço, de mãos abertas e Evangelho no coração; e puseram-no em cima duma pedra. Ali permanece como um farol, diante de nós, de mão franca e estendida. Pergunto-me sempre: verdadeiramente, essa mão não será a de Deus, que se nos estende na do pobre que, ao lado, ignoramos? Do injustiçado que não reconhecemos? Do pequenino que não abençoamos?
No Evangelho deste domingo lemos que Jesus, «cheio do Espírito Santo, Se retirou das margens do Jordão. E foi [sendo] conduzido pelo Espírito».
Para onde, pois, iremos se nesta Páscoa, como outrora em Jerusalém, vier uma rabanada de vento que nos arrebate? Talvez não importa para onde, já sim, que seja juntos!










