1. A esplanada vazia do Santuário num 13 de maio (em pandemia!) é por si só uma mensagem?
Sim, sem dúvida. O vazio físico e espiritual que se viveu nesse dia, uma experiência dolorosa, deveras indescritível, gritou em nós uma dupla mensagem: enquanto meros humanos podemos contemplar a visão nua e crua da efemeridade e finitude dos nossos “quereres” e “poderes”, que equivocamente temos como dados adquiridos e controlados. A nudez do Santuário gritou-nos o quanto andamos iludimos e enganados. Proporcionando-nos a oportunidade de aceitarmos e nos convertermos, definitivamente a esta realidade.
Enquanto fiéis e peregrinos de Fátima, a mensagem foi de esperança, com a firme certeza de que a Mãe nunca nos abandonaria. Essa foi a sua assumida missão quando no dia 13 de Maio de 1917 desceu às terras da Cova da Iria.
2. A solidão que a Catarina experimentou em Fátima, perto do Coração Imaculado, tem outro sabor?
Claro que sim. Para quem comunga e vive o espírito e carisma carmelitano, a solidão é um dos bens mais preciosos para a sua vivência espiritual. Obviamente, que este ambiente de solidão não foi previamente escolhido, foram as circunstâncias do Covid19 que o impuseram, e em boa verdade seja dito: bendita imposição!| Os lugares de Fátima, sobretudo aqueles que estão ligados, directamente, às Aparições e seus contornos e intervenientes, fazem-nos respirar e aspirar a bondade e o amor da Theotokos – tudo que nos envolve é pura Mariologia. Consequentemente, este ambiente abre-nos o caminho para uma maior união com a Trindade, atrevo-me a dizer que é um canal entre o humano e o divino. Claro que nos exige uma certa disponibilidade para a contemplação, e sabedoria de desprendimento, dois aspectos nos quais sou muito leiga, mas que, no entanto, penso eu, soube aproveitar. O Coração Imaculado de Maria dá-nos sempre um empurrão mesmo que as nossas limitações sejam mais que muitas. E isso, ficou bem patente neste pequeno livro, onde reiteradamente falo da fuga mundi.
3. Numa das páginas do seu livro afirma: «Sim, e as pedras de Fátima também falam». E noutra, creio, diz que rezam. Que lhe disseram as pedras de Fátima durante a covide?
E que rezaram juntas?
Ora, as pedras de Fátima falam, rezam, choram, cantam, embalam… Dizem muito, mas ouvem mais. O que me disseram? Não temos espaço suficiente para narrar tudo, e também haverá segredos que não se contam!!! Particularmente o que me tocou e toca mais são as narrativas das Aparições, a vida dos Três Videntes, as peregrinações… estas pedras são as testemunhas vivas dos factos ocorridos desde 1917 até aos nossos dias. Todas elas têm histórias, estórias, alegrias, amarguras, aventuras e desventuras de e com Maria, Mãe de Deus. Tendo um certo conhecimento das Aparições e do ambiente familiar dos Pastorinhos, facilmente nos deixamos arrebatar por uma dessas pedras, para entrarmos com todo o nosso ser nos mistérios inexplicáveis de Deus, através da Santíssima Mãe. Todos os peregrinos podem ouvir as pedras de Fátima!
E que rezaram juntas?
Os mistérios de uma pandemia desconhecida, medos, aflições, saudade, de casa, da família, dos amigos, e também esperança.
4. Se bem me lembro, o seu livro é o primeiro que cruza o tema da covide com Fátima. Isso é uma responsabilidade para si?
Sim, de facto é o primeiro com esta temática. Não sinto de maneira alguma que seja uma responsabilidade. Antes uma alegria em poder ser a primeira a contar aos leitores as dores de Fátima no tempo controverso da Covid19, mesmo que o livro seja muito salpicado com a minha vivência espiritual.










