Armindo Vaz, OCD
Só há verdadeira fé cristã onde houver esperança com conteúdo, para além da letra que a exprime. Miguel Torga disse com razão que «nenhum sequioso mata a sede a beber na miragem de uma fonte» (Poesia Tântalo, 20 de Julho de 1955). E é verdade que a esperança não é «pura emoção vertida» num cálice de cristal por uma linguagem figurada. Mas, que importa que a linguagem da esperança de chegar à fonte seja figurada, se conduz à verdadeira e real figura que mata a sede? É por isso que S. Paulo diz aos cristãos de Roma que «a esperança não ilude/engana». Não é ilusão porque tem conteúdo. Consiste na certeza de que nada e ninguém poderá jamais separar-nos do amor histórico de Jesus: «Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo ou a espada?… Em tudo isso saímos mais do que vencedores graças àquele que nos amou. Estou convencido de que nem a morte nem a vida…, nem o presente nem o futuro… poderá separar-nos do amor de Deus que é em Cristo Jesus, Senhor nosso» (Rm 8,35.37-39). Querendo ver o conteúdo da sua esperança, o cristão põe em movimento três virtudes: olhando para o passado, tem fé no acto histórico de amor de Jesus para quem o quiser receber; olhando para o presente, encontra-se a viver a força desse dom do amor de Jesus; olhando para o futuro, sente o grito da esperança que perpetua para si o Amor de Deus em Jesus.
«Ah! Bem parece que o Amor melhora
quanto a graça de Deus não fez bonito.
Há lá coisa mais linda do que um grito
quando foi o Amor que o pôs cá fora!…»
(Sebastião da Gama, Soneto “O segredo é amar”)










