Armindo Vaz, OCD

Uma cultura onde não há espaço para a oração é uma cultura menos rica. A cultura entende a oração como dignificante do ser humano, porque favorece a experiência do Inefável, para onde sentimos a necessidade de entrar descalços, pela impressão de ser chão sagrado. Mas, se pensarmos especificamente na oração cristã, o seu principal objectivo é a comunhão com o Deus de Jesus, com o Deus que em Cristo encontrou definitivamente o ser humano e deu mais sentido ao seu existir, mesmo que doloroso ou custoso.

Ora, esse potencial místico liga-se sem intermitência a outro aspecto da oração cristã: o do seu efeito. Ao pôr o orante na presença de Deus e em comunhão com Ele, torna-o mais presente a si próprio e mais atento ao pulsar dos acontecimentos, mais sensível às realidades que o rodeiam e às pessoas que com ele convivem. O Papa Francisco disse (10.12.16) que “o fruto mais maduro da oração é sempre a caridade”. Não podemos senão concordar com ele. O Catecismo do santo Cura d’Ars já tinha dito – ligando a oração ao amor e à felicidade – que “esta é a grande tarefa do ser humano: rezar e amar. Se rezais e amais, aí tendes a felicidade do ser humano na terra”.

Tanta simplicidade desconcerta. Mas é inegável que a oração bíblica cristã não é realidade abstracta ou genérica. É um modo de estar na vida, de sentir e entender o mundo, como movimento que culmina em Jesus e que configura em nós “os mesmos sentimentos que estavam em Cristo Jesus” (Fl 2,5). A oração cristã genuína conduz ao amor. Se prova a qualidade da fé, acrescentem que faz terminar a fé no amor. Não nos tira do mundo. Ao contrário, faz-nos comungar das suas dores e gozos com mais intensidade. Quem reza não esquece a comunidade e a fraternidade em que se move. A oração renova, amacia e dilata o coração, tornando-o compassivo. Não evade a realidade. Gera uma dinâmica que intui as implicações humanas e sociais da comunhão com Deus. Ou seja, quem na oração cristã encontra o Deus vivo encontra o Amor e, se é coerente, põe-se ao serviço do amor. O amor ao Deus escutado na oração gera amor ao próximo escutado na vida. Os dois são complementares. Se não formos coerentes na vida, a oração obriga-nos a sê-lo. O chamado Mahatma, Gandhi, dizia que «a oração não é um ocioso passatempo para senhoras idosas mas que, bem compreendida e aplicada, é o instrumento de acção mais poderoso». E o primeiro bom efeito que ela produz é no próprio orante, porque, se autêntica, gera experiência do divino e torna-o mais humano. De facto, não faz sentido de manhã pedir boas relações com os membros da família e de tarde injustiçá-los, murmurar deles ou chegar a vias de facto com eles. Como não se ora pela paz com o coração em guerra mas é preciso tê-lo em paz para pedir a Deus o fim da guerra, assim o orante é obrigado a empenhar-se nas causas que faz objecto de oração. Rezar para que Deus sacie os esfomeados sem mover um dedo para que tal aconteça é transformar a oração em alienação ou na apologia da indiferença. Até seria cómico pedir: ó Deus, faz de mim uma boa pessoa, mas não te incomodes muito com isso, pois, tal como sou, estou a ter uma dolce vita, em grande.

A oração só como exercício de interioridade ou de introspecção no regalo tranquilo de uma paisagem idílica, autocentrados para relaxar a mente, como nómadas digitais, peregrinos do absoluto (idealmente na Ponta do Sol, na Madeira), não assegura só por si a experiência do Deus vivo nem modifica o modo de processar as realidades da vida e o elo de ligação aos outros; se o exercício de interioridade não for acompanhado pela absorção do espírito do evangelho de Jesus, capaz de transformar uma vida, não fará efeito. A oração que nos descentra, num autêntico êxodo para os outros, olhando para eles a partir de Deus, sentido como Pai que nos torna irmãos com eles, é a oração de Jesus, que nos ensinou a orar dizendo «Pai nosso» e a considerar irmãos e a tratar como igualmente filhos desse «Pai nosso» todos os que estão à nossa volta, os que nos amam e os que às vezes nos incomodam. O Deus da oração cristã é o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacob e o Deus de Jesus, Deus das pessoas vivas. Sem dúvida, é bom e necessário parar e cultivar a interioridade em contraposição a tantas pressas e urgências. Mas a oração cristã não se contenta com um diálogo eu-Tu, tranquilo, que prescinde do mundo e enche mais o eu. Saindo do coração – que leva o sangue a todas as fibras do ser – atravessa o corpo. Leva-nos para o Deus que é Pai de Jesus e para os filhos do «Pai nosso». Rezando o «Pai nosso» com consciência do seu alcance, já não se pode pensar que tanto faz rezar como não rezar. Quem fez o mal e ora «Pai nosso, livra-nos do mal» já está a renunciar ao mal e a aproximar-se de Deus: a oração produziu efeito. Para a oração ser mesmo eficaz, seria preciso, não só pedir coisas, mas também pedir Deus, para que se dê como se deu em Jesus. De qualquer modo, se da oração se levanta uma pessoa mais amável, quer dizer que foi escutada.