Frei João Costa, OCD

1.     Ao cumprir um ano da Tomada de Posse da Arquidiocese de Braga, D. José Manuel Cordeiro subiu ao Carmo — foi no passado dia 12 de fevereiro de 2023. Quase se poderia dizer que peregrinou, pois chegou a pé, ledo descendo a rua do Carvalhal. À porta da nossa igreja cumprimentou as muitas pessoas que o aguardavam, afectuoso saudou o Santo Fradinho, rezou, abraçou a comunidade e connosco celebrou a Eucaristia daquele domingo. Esta quase inesperada visita tinha uma razão de ser: rezar; rezar com a sua comunidade do Carmo, com este pequenino redil que aqui tem neste jardim. E também para dar graças a Deus connosco, pelos 60 anos da restauração da nossa presença carmelitana em Braga; ao não poder fazê-lo no dia próprio — na sexta-feira seguinte, 3 de março — D. José veio, solícito, e pôs-nos a celebrar a efeméride em antecipação.

2.      A data da fundação do convento do Carmo de Braga é 1 de fevereiro de 1652, dia em que Frei José do Espírito Santo, bracarense ilustre, tomou posse de umas casas no Campo de São Sebastião das Carvalheiras, à freguesia da Sé, e nelas, descalços, os Carmelitas ali entrámos e iniciámos a vida regular. (O investigador Pe. Marco Caldas aventa, porém, a hipótese, de que a vida carmelitana possa ter sido iniciada em Braga algo mais cedo, depois do achamento feliz de uma carta de Frei André da Encarnação datada de 9 de julho de 1639, que a isso dá pé; e a não ser assim, crê aquele, no mínimo, as diligências para a nossa vinda para a cidade arcebispal achegar-se-iam àquela data e não a alguma outra mais tardia!).

3.      Posteriormente, depois de haver comprado uns terrenos fora das vetustas muralhas da cidade, situs «ao fundo da rua do Carvalhal, e princípio da rua do Lameiro», o fundador e prior primício do Carmo, Frei José do Espírito Santo, lançou a primeira pedra do actual convento, no dia 4 de novembro de 1654.

4.      Em menos de um ano as obras tinham crescido o suficiente para albergar os Carmelitas, de tal forma que no dia 22 de outubro de 1655, o fundador mandou que se procedesse ao ingresso no novo convento, o que se fez com uma solene procissão do Santíssimo, desde as Carvalheiras para o Carmo.

5.     O andamento inicial da vida carmelitana foi muito precário; tenha-se em vista, por exemplo, que a conclusão da igreja, depois de erguida a portada, demorou quase 150 anos, pois só foi concluída em 1695, mercê de uma piedosa ajuda do Senhor Arcebispo D. José de Meneses, que faleceria nos inícios do ano seguinte! Por simpatia, o demais, celas, anexos e diversos outros acondicionamentos mostravam-se e prolongaram-se muito modestos, pobres, mesmo.

6.     Pese embora o desprovimento de confortos, desde as primeiras horas, porém, a vida desta comunidade ficou marcada pelo atencioso cuidado do confessionário, pela dedicada vida pastoral entregue à pregação, à oração e contemplação, e pela entrega à docência neste seu colégio superior onde se ensinou filosofia, teologia e moral em ordem à formação de novos sacerdotes carmelitas descalços. E se aqui ensinaram mestres célebres, daqui também partiram missionários com o Evangelho ardendo-lhes no coração; partindo daqui cruzaram mares, adentraram-se pelos perigos de selvas e de desertos sem olhar a desconfortos, nem a empecimentos de frios ou calores, nem a tantos outros constrangimentos, só por que eram acesos carvões da Palavra que liberta.

7.      Também as glórias dos claustros deste mundo são efémeras. E assim foi que por um decreto governamental de 26 de maio de 1834 o governo do reino procedeu à extinção das Ordens Religiosas, pelo que também neste Carmo de Maria se encerraram as portas à vida conventual. Foi seu último prior Frei João das Dores, com quem ou a mandato de quem desapareceram os objectos do culto. Por essa razão, segundo parece, no dia 19 de maio de 1834, as autoridades entraram no Carmo e inventariaram móveis e imóveis, assim sumariados: «objectos de adega, dispensa, celeiro, cozinha, dispensa de louça (da fábrica do Porto) e roupa, trastes de pau, botica […] livraria».

8.      De 1655 a 1834 residiram no claustro carmelita bracarense vários ilustres religiosos: o fundador, Frei José do Espírito Santo, Frei Luis de Santa Teresa, Frei João da Cruz, Frei Cristóvão dos Reis; Frei Inácio de São Caetano; Frei João d’Ascensão — o muito famoso e jamais olvidado Santo Fradinho do Carmo, e outros muitos, cujos méritos e virtudes comporiam generoso elenco que honraria galerias bem mais lucentes que a deste Carmo.

9.      Desclaustrados de Braga e de Portugal (ou no mínimo, impedidos de viver em comunidade ou de se mostarrem revestidos da libré carmelitana) os Carmelitas Descalços só restauraríamos o nosso estilo de vida nas terras de Santa Maria no decorrer do ano de 1929; e em Braga, a 3 de março de 1963.

10.   Depois da expulsão das sandálias dos Descalços de Braga, o convento e sua cerca, segundo nos demonstrou a professora Maria da Conceição Ferraz de Sousa Gama, foram arrematados pelo senhor Governador Civil de Braga, Dr. António Vieira de Araújo, no dia 17 de junho de 1843, pelo valor de 54.000 reis; foi sua herdeira Dª Maria das Dores Vieira de Araújo, solteira. No ínterim de 1834 a 1913 o convento serviu como hospital militar, vindo, entretanto, a ser comprado àquela, em 1881, por Francisco Lopes Ferraz, um brasileiro de torna viagem, e posteriormente vendido, por herdeiros deste, em 14 de fevereiro de 1930, a Dª Maria José Ogando que, vindo da vila do Prado, ali instalou, e por várias décadas manteve aberto o Colégio de Dublin, até quase aos inícios do séc. XXI; por sua vez, a cerca conventual que destinada fora, inicialmente, para cemitério, viu gorada tal finalidade, pelo que o mesmo brasileiro de torna viagem nela construiu um palacete típico do traçado dos brasileiros; a igreja ficou, entretanto, aos cuidados da Real Irmandade de Nossa Senhora do Carmo que viria a cedê-la aos Padres Carmelitas Descalços, com o acordo do Senhor Arcebispo D. António Bento Martins Júnior, do Presidente da Irmandade do Carmo, Senhor António (?) Granja, e contando ainda com a assinatura do Delegado Provincial, Pe. Isidoro da Nossa Senhora do Carmo Maguna.

11.   Entretanto, à Real Irmandade de Nossa Senhora do Carmo, se ficaram a dever importantes melhoramentos na nossa bela igreja do Carmo que aquela zelosamente cuidava desde 1865; a saber: a construção da actual tribuna e da actual fachada, que se ergueram com as esmolas oferecidas pelos romeiros e peregrinos à sepultura do Santo Fradinho do Carmo durante décadas a fio.

12.   Desclaustrados que fomos, a Igreja do Carmo logo ficou ao cuidado do capelão de turno nomeado pelo Senhor Arcebispo; vários foram, portanto. E talvez o mais célebre tenha sido o Pe. João Pedro Airosa (1836-1931) — Monsenhor Airosa — que, ainda jovem, «era dos poucos que aqui se dignou confessar» e que, um dia, ao escutar uma confissão de uma mulher que desejava sair dos grilhões da prostituição, a si mesmo se interrogou: «Que posso eu fazer pelas mulheres que aqui se achegam nesta situação?»; e foi assim que no Carmo brotou o Instituto Monsenhor Airosa, que na primeira hora recebeu o nome de Casa d’Abrigo!

13.   A igreja esteve ainda entregue aos Padres Franciscanos, que a seu cuidado já detinham Montariol, e as capelanias dos Terceiros e a da Penha (?). Não era pouco o trabalho nem menores os cuidados.  Aqui foram eles capelães «por mais de quarenta anos», pelo que se entrega da igreja aos Carmelitas se deu em 1963… Consta ainda que, ao menos nos últimos tempos, «nem sempre aqui celebravam missa ao domingo, e isto sem prévio aviso ao povo!; e aqui confessavam mui raramente», pelo que à data em que a recebemos, se pode considerar que a Igreja do Carmo se encontrava quase fechada e ao abandono. E o todo não era bonita de se ver…

14.   O restauro da vida dos Carmelitas em Braga muito se deve ao interesse e diligência da Irmandade do Carmo, nas pessoas dos senhores Joaquim Costa Duarte (tesoureiro) e Francisco da Cunha Ferreira (secretário), com a anuência do presidente da mesma, Senhor Granja. E não menos se deve à oração, inteligente diligência e apurada diplomacia do Pe. Isidoro Maguna.

15.   Se o povo da cidade, a Irmandade do Carmo e os Padres Franciscanos chamaram e anuíram à presença dos Carmelitas Descalços, já não assim outros que, por serem quem eram, detinham maior responsabilidade nas coisas de Deus e da Igreja.

16.   Os primeiros habitantes do Carmo restaurado foram o Pe. Romão de Jesus Crucificado Knorr e o Irmão Francisco Xavier da Imaculada Conceição, quem receberam a incumbência de preparar a igreja e as adjacências «limpando-as do pó que ao longo de 129 anos se tinha ido lentamente depositando em muitos lugares, a fim de permitir uma digna entrada das capas brancas dos carmelitas».

17.   No domingo  3 março de 1963, pelas quatro da tarde, na presença de muitos Irmãos da Real Irmandade de Nossa Senhora do Carmo, de muitos surpresos bracarenses que de novo fizeram fervilhar as ruas do entorno do Carmo, de muitos Terceiros Carmelitas e de muitos Confrades dos Escapulário do norte do País, dos filósofos do Santuário do Menino Jesus de Praga (e entre eles, o Pe. José Carlos Vechina), e dos seminaristas do Seminário Missionário Carmelita de Viana do Castelo, com primacial pontualidade, o Delegado Provincial recebeu à porta da igreja Sua Excelência o Senhor Bispo Auxiliar de Braga D. Francisco Maria da Silva que logo entrou no templo e celebrou missa; e que na sua alocução com «sentidas palavras não regateou elogios ao bem espiritual que futurava com a entrada nos Carmelitas Descalços em Braga».

18.   Desde a nossa rechegada, em 1963, até ao ano de 1986, a mais relevante marca pastoral desta comunidade do Carmo de Braga foi a fiel e pressurosa atenção ao confessionário – o que, com toda a naturalidade, se tem prolongado no tempo; de facto, a diário, mas mais relevantemente nos tempos fortes do Advento e da Quaresma, o Carmo era demandado por milhares de pessoas que aqui pontualmente vinham confessar-se – foram e são milhares de milhares de horas ininterruptas a ouvir, abençoar e a enxugar lágrimas.

         Depois de umas obras de urgente requalificação e adaptação da casa, do outono de 1987 ao verão de 1996, a comunidade gratamente assumiu a responsabilidade de acolher e formar os jovens postulantes da nossa Província Carmelitana, isto é, os jovens candidatos na sua primeira fase de formação e inserção na vida de carmelitas descalços. E de 1991 a 2011, ocupou-se ainda da condução dos destinos da comunidade paroquial de São Vicente.

Não é de somenos registar o que o cronista escreveu no fim do ano de 1984: «distribuíram-se na nossa igreja ao longo deste cerca de 50.000 comunhões»; e em 1985, escrupuloso, e mais assertivo, registou: «distribuíram-se mensalmente cerca de 4.000 comunhões, e nos meses em que caiu a Páscoa e o Natal, mais de cinco mil!».

19.   Porque é típico do carmelitanismo as nossas igrejas serem de portas abertas – mesmo numa cidade com muitas igrejas – além da celebração do sacramento da reconciliação sempre à nossa porta bateram com frequência, e foram recebidos com solicitude, todos quantos exigiram um tempo de escuta qualificada; tanto ontem como hoje. Procurando responder a estes e outros anseios, especialmente dos muitos adolescentes e jovens, em 1969 nasceu o Grupo Coral e Instrumental do Carmo, que se mantém activo, e cuja existência e animação musical incomodou as aves mais canoras e os tubos mais selectos de Braga. Além do acompanhamento deste grupo houve depois de acompanhar-se o grupo de oração e canto – Apocalipse – nascido em Maio de 1989, e que também ainda se mantém em exercício. Este grupo nasceu da vertigem da nossa acção pastoral com jovens, primeiro com o Movimento Shalom — 1970 a 1995 —, e depois, noutro modelo, e de forma mais alargada, na colaboração com a pastoral juvenil da cidade (1986-1996) ao ponto de, mensalmente, se reunirem na nossa Igreja do Carmo, em rotação com alguma outra capelania desta cidade arcebispal, cerca de um milhar de jovens rezando «ao estilo Taizé». Aliás o Carmo foi a porta de entrada da espiritualidade de Taizé em Braga; e os do Carmo foram os primeiros, e só depois, os muitos outros jovens bracarenses, a peregrinar (agosto, 1990) àquela localidadezinha da Borgonha francesa, que se atreveu a sonhar com o Irmão Roger uma maneira outra de se ser Igreja.

20.   Entretanto, e porque o santo Espírito, generosa e gentil força de amor, tira coisas velhas e coisas novas de velhos baús que na casa haja, no ano de 2008, uma fraternidade de irmãos seculares começou a caminhar connosco, sob a invocação de Santa Teresinha do Menino Jesus.

21.   E depois de havermos cruzado a dolorosa travessia do deserto da covide, o longo ano de 2021 esplendeu em outubro, com a oportunidade de resgatar a figura de Frei João d’Ascensão, o Santo Fradinho do Carmo (1787 – 1861), através da publicação de um livro biográfico – O Resgate – e da construção de uma estátua posicionada defronte da nossa igreja. É justo referirmos que, em seus dias, este santo varão foi carmelita descalço inteiro, jamais desvestindo o hábito do Carmo, mesmo quando correu risco de prisão, e foi preso; também não pode jamais ser esquecido que o povo, especialmente o de Braga, mas também o de Coimbra, Évora e Lisboa o tratou como mestre, Mestre Neiva. É ainda mui notável de registar que na memória das pessoas mais antigas da freguesia de São Vicente, de São Romão de Neiva e não só perdura ainda hoje uma suave fragância do Fradinho do Carmo como o amigo e benfeitor dos pobres.

As celebrações da efeméride dos 160 anos da sua morte mexeram com Braga e Viana do Castelo.

É ainda justo referir que tendo O Fradinho morrido no dia 16 de março de 1861, sábado, dia de Nossa Senhora, foi sepultado no dia 18, depois dos bracarenses terem corrido ao Carmo para dele se despedirem. A sepultura foi aberta no chão da igreja, junto à grade do presbitério, do lado do Evangelho, e ali ele descansou até ao verão do ano de 1969. Temos, pois, por certo, e é, aliás, sabido, que por mais de cem anos, no escuro chão da Igreja do Carmo, brilhou uma lâmpada que vontade alguma, mesmo se arcebispal, jamais conseguiu apagar; antes, ao revés, mais e mais gente aqui atraiu e encandilou. Foi naquele infausto verão que a comunidade se decidiu pela instalação de um soalho novo na igreja. E, consequentemente, foi também nessa data que os ossos do Santo Fradinho dali foram retiradas e trasladadas para a Capela das Relíquias, adjacente e com entrada pelo templo. Na sequência desta trasladação a pedra tumular levou indocumentado e misterioso sumiço; apesar de tudo, porém, a presença das relíquias do Fradinho ficou ali identificada por uma lápide na parede da referida capela. Posteriormente, as obras de requalificação dos anexos do Carmo – iniciadas em meados de 1987 – levaram a novo reposicionamento das relíquias do Fradinho, para o lugar em que hoje se encontram: um anexo da sacristia.

22.   Na sua primeira visita ao Carmo, no dia 12 de Fevereiro de 2023, o Senhor Arcebispo D. José Cordeiro dirigindo-se aos fiéis que enchiam o templo saudou e agradeceu aos Padres Carmelitas Descalços «o muito bem que têm feito à Cidade e à Arquidiocese mantendo vivo o seu carisma». Desde o ambão e tendo diante de si a porta que se abria para a Rua do Carmo — onde o tráfego de carros e de pessoas não cessava de subir —, D. José agradeceu ainda «a paz que deste templo irradia e daqui corre em benefício de todos desta cidade e mais além, crentes e não crentes» e estimou que «a bela luz branquinha da Senhora do Carmo nunca aqui se apague».

23.   Rezam as crónicas orais da comunidade que ao longo destes últimos 60 anos, nem sempre a vida dos Carmelitas Descalços de Braga foi fácil, e que em algum momento se houve de vender os anéis para não se perderem os dedos e se manter a cabeça erguida. (Ainda entre nós vive e reza quem aqui, por anos a fio, passou apertos vários e indigências sublimes — aliás, como as demais famílias pobres da cidade; e mais declara aquele que se mais houvera de mais passar, mais passaria. E não duvidamos que fale verdade, mesmo se positivamente no-lo disse mais que uma vez, embora não precisemos de ser muito sábios que o não adivinhássemos com inteireza.)

24.   O primeiro prior do Carmo de Braga restaurado foi o Pe. Dario do Santíssimo Sacramento (1963-1965), que era músico e tocava violino; não era virtuoso, e até, dizem, era mais santo que músico. Naquelas assaz mui duras horas primeiras, e de continuado aperto, felizmente, nunca o Padre Dario e os seus companheiros tremeram perante as tribulações que as sucessivas comunidades aqui houveram de sofrer. Isso os de hoje temos muito presente, e prometido está lembrá-las sempre; e jamais esquecê-las, porque elas costumam ser mais incentivo que empecilho. Mas lá que houveram e há dificuldades, isso sim; é o de sempre, pois nunca a fagueira nau falha agreste tempestade que a desafie. Conta-se, aliás, que nas alturas de maior afogo, pronto o Padre Dario se revestia de hábito e de capa branca, puxava do violino e, terno e confiante, ia para o presbitério da igreja dar música e encantar o coração da Senhora do Carmo.

25.   É esse também hoje o nosso espírito. Venha o que vier, suceda o que suceder, traga o futuro no ventre o que quiser trazer, aqui queremos continuar a cantar, com alma, os louvores da excelsa Virgem Mãe e Irmã do Carmo. Assim Deus também aqui nos queira.

Amen.