Armindo Vaz, OCD
“Jesus fez esta pergunta aos seus discípulos…: E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15). A «resposta anda a soprar ao vento» (The answer is blowing in the wind) – canta Bob Dylan. Mas quer ser apropriada por cada pessoa, estudada, meditada, orada em silêncio e dada com alma. Qualquer conhecedor da fé cristã poderá confrontar-se com ela. Por sua parte, Pedro respondeu com uma solene profissão de fé: “Tu és o Messias/Ungido, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16). Mas este é o mesmo Pedro que logo a seguir pretendeu impedir Jesus de avançar para a morte na cruz (“Senhor, isso nunca te acontecerá!”: v. 22), porque ainda não a compreendia: não tinha da vida a necessária visão global. A adesão a Jesus tem algo de dramático, porque, ou damos sentido à vida com ela ou sentimos o fracasso recusando-a. E, se lhe queremos dar sentido, não o podemos fazer sem a cruz, porque ela está esculpida na noite da dor que a vida humana integra juntamente com o dia.
Como para Pedro, tampouco para os discípulos a morte de Jesus na cruz era revelação plena de Deus: como é que Deus se poderia revelar numa morte trágica? Mas Jesus tinha sido claro: “era necessário ele partir para Jerusalém, sofrer muito da parte dos anciãos, dos chefes dos sacerdotes e dos doutores da Lei, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia” (v. 21). Este final da história de Jesus aqui anunciado por ele torna-se aos olhos de muitos humanos uma história sem futuro. Só dá para falar de uma esperança frustrada, lacrada com a morte.
Mas, para Jesus, a morte na cruz é mesmo lugar de revelação. É neste registo que se entende a interpretação feita pelo Ressuscitado aos discípulos a caminho de Emaús: “não era necessário que o Messias padecesse estas coisas e entrasse assim na sua glória?” (Lc 24,26). Necessário? Porquê? Porque o Pai o tinha mandado vir à terra para morrer? O sofrimento e a morte foram impostos por Deus a Jesus? Pensar assim, seria, como mínimo, herético: uma imagem perversa de Deus. Isto faz lembrar o profeta Isaías (53,10): “aprouve ao Senhor esmagá-lo com o sofrimento”. Deve-se ler, não como se Deus o quisesse fazer sofrer, mas neste sentido: se Jesus continuasse fiel a Deus e bom para com as pessoas, viria a conhecer o sofrimento por parte dos malvados poderosos, incomodados com a mensagem libertadora. A vida que acabou na cruz foi o resultado de uma vida a fazer o bem segundo a vontade de Deus e a denunciar o mal que os poderes estabelecidos faziam. Jesus não quis que o matassem, nem quis sofrer ou morrer. Até resistiu a beber aquele “cálice”: “Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice” (Mt 26,39). Mas a um dado momento a sua morte cruenta tornou-se um facto inevitável, necessário, para revelar de forma suprema até onde chegava o amor de Deus pela humanidade. Foi na aceitação da morte por amor que Jesus “manifestou a sua glória”, ou seja, quem era ele, e revelou em plenitude a glória de Deus, ou seja, que Ele é amor.
É por isso que a cruz é símbolo do cristianismo: não por ser patíbulo de morte ou instrumento de suplício para executar um condenado, nem por ser trono de infâmia que expõe ao vento dos transeuntes a dilaceração interior de um fracassado. Simboliza o cristianismo por ser o lugar da revelação superlativa do amor humano sem conta nem moderação ou condição: revelação de tanto amor que este teria de ser também divino, sugerindo que quem assim morre de amor só pode ser Filho de Deus. E revela que Deus é um “Deus para nós” e um “Deus por nós”. Num mundo de injustos, o justo é rejeitado e tem de padecer, como resultado, seja de aceitação, seja de rejeição. Num mundo injusto, o inocente tem um fim injusto. Jesus morreu de morte cruenta, não por vontade de Deus, mas por vontade dos poderes políticos iníquos: não foi vítima do Pai, foi presa fácil de criminosos; o Pai aceitou-lhe a morte como redentora, por a ter aceitado por amor. Jesus salvou os humanos pelo amor com que se deixou livremente morrer. E porquê os injustos se voltam contra o sumo Inocente? Porque ele está do lado do bem; porque ele revela amor aos que estão do lado do ódio. “Quantas mortes são precisas para eles saberem que já morreu demasiada gente?” – continua Bob Dylan a cantar. Para eles saberem, não foi suficiente a morte inocente de Jesus.
É preciso, porém, compreender que, se Jesus não tivesse aceitado morrer, não teria revelado Deus tal como Ele é, diferente de como muitos o imaginavam ou queriam que Ele fosse. O imenso amor levou à imensa dor e a dor, por sua vez, revelou o imenso amor. Morrendo por amor, Jesus proclamou que viver é amar, mas amar é morrer, é não ser senão pelos outros e para os outros.
“E vós, quem dizeis que eu sou”? Não importa uma bonita frase decorada e floreada. Só uma resposta saída do nervo da vida, que também diga quem eu sou e me ligue com amor à cruz de Jesus é que será verdadeira e interessante. O amar de Jesus até à cruz também quer que o amado seja o que deve ser.










