Frei João Costa, OCD
Teresa Martin viveu tão-só 24 anos. O fechar dos seus olhos (1897) quase coincide com o cerrar do século XIX. Passado o séc. XX, e quase no fim do primeiro quartel do séc. XXI, os jovens de hoje estão, ao contrário dela, apenas a acordar para a vida.
A não poucos surpreendeu a eleição de Teresinha para o calendário evocativo da UNESCO: primeiro, porque o proponente era a França, país laico por antonomásia que ousava relevar este tão proeminente ícone da Igreja Católica; e, segundo, por prescindir evocar Gustave Eiffel (1832 – 1923), no centenário da sua morte! Na verdade, porém, o olhar que sobre ela se propõe é o de alguém que merece ser celebrado porque «mulher de cultura, de educação e de paz».
O que nos calha perguntar é: o que de relevante fez esta jovem mulher para que o 150º aniversário do seu nascimento mereça ser universalmente recordado? E mais ainda: onde aprendeu ela, a fim de que possa erigir-se como referência para a sociedade em geral (e modelo imprescindível para a espiritualidade cristã, em especial)?
Fique dito de início: Não frequentou nem Harvard, Sanford ou Cambridge, nem o MIT, Berkeley ou Princeton. Não, nada. Apenas o ensino básico, e este inconcluso. E a casa de uma ama até aos 16 meses; o colo da mãe – «uma educadora espiritual de excelência!» – até aos quatro anos e pouco; e a atenção das irmãs mais velhas que, até aos nove anos, lhe ministraram os rudimentos do conhecimento. Ao ingressar no colégio das Irmãs Beneditinas, ali se revelou como a melhor aluna da turma, com especial predileção para a narrativa e o catecismo. Era ali, porém, vítima de bullying; e isso, mas sobretudo, a violenta rutura advinda da separação da sua segunda mamã, Paulina, prostra-a tão violentamente, com tão frequentes dores de cabeça e de corpo, a que haja de associar-se a permanência invencível de um sentimento de escrúpulos e de uma imbatível tristeza, que levou a que não concluísse a escolaridade obrigatória. Cuidadoso e preocupado, o sr. Louis Martin, porém, jamais se poupou para que a filha tivesse aulas particulares.
Dizem os biógrafos que depois da morte da mãe tardou dez anos a curar-se, sofrendo de permeio, como sucede com todas as crianças, um sem número de naturais sucessos que ora a revigoravam, ora por demais a submergiam e entorpeciam. Se a entrada de Paulina, e depois, de Maria, no Carmelo, a prostraram, muito a espevitaram as explicações da primeira, quando esta, conscienciosa e atempadamente, lhe descreveu o que era o dia a dia do Carmelo; então, para si mesma, logo Teresinha intuiu ser algo belo, porque só pode ser bela a vida com Jesus e só para Jesus! E concluiu ser esse, também para si, o seu destino.
Donde, pois, lhe veio a sabedoria que a constituiu como mulher de cultura (e doutora da Igreja)? Ao arrepio de tudo o que possamos imaginar e até aceitar — a realidade não nos dá pé para algum viés —, esta chega-lhe por vias inesperadas e por veios hoje tidos por impossíveis de assumir pela nossa sociedade: a frequência da dor e do sofrimento ao longo dos seus curtos dias — não foi a sua vida uma contínua e dolorosa separação, para mais amplificada pelas cordas da sua hipersensibilidade? Sim, as ruturas, as separações, as mágoas e os sofrimentos atrozes foram o duro pão do seu dia a dia, do qual se alimentou para crescer a alturas inauditas; e ainda: uma vida familiar carinhosa e piedosa — onde se lia e rezava todas as manhãs e fins de tarde, além das habituais passagens pelas igrejas de Lisieux para breves momentos de adoração! —; uma sofrida e inacabada vida escolar — «os piores dias da minha vida!» —; uma mãe atenta e exigente; umas irmãs mais velhas cuidadoras; um pai encantador que, inclusive, na viuvez, soube ser pai e mãe, e que só de o ver rezar dava para ver como «como são os santos»; o silêncio, a contemplação, e a abertura ao rio da graça que a discreta vida abscôndita do Carmelo proporciona a quem aquele jardim é chamado!
O escopo de Deus é a santidade dos seus filhos e filhas; os meios, os que Ele dispõe, e a vida a cada um concede. Não por acaso ao olharmos para Santa Teresinha nos dispomos a aprender que no fim da escola da vida o que Deus mais em nós aprecia são «as mãos vazias». Tudo o que haja para saber e aprender é o que Ele lá, grátis, possa dispensar. Por isso, a concluir, propomos que ouça Jesús Adrian Romero cantando Con Manos Vacías, em https://www.youtube.com/watch?v=2LwBFKH2cUI.
* Publicado no Diário do Minho de 2 março 2023










