Frei João Costa, OCD

I

1.   Confesso, não nego: por estes dias subo a custo ao altar. Subo com fome e com sede; subo por obrigação; subo porque prometi ao bispo que me ordenou ali subir todos os dias; subo porque sei que aquela fresca fonte de graça não pode nunca deixar de correr e derramar-se, e que por mais que se derrame nunca se esvai; subo porque o Senhor prometeu estar todos os dias connosco: todos os dias é também nos dias maus, duros, difíceis, depressivos, de vergonha, indignidade e vilipêndio; subo porque todos os dias a minha mãe, cansada ou não, mais feliz ou mais desanimada, me sentou ao seu colo ou me pôs à mesa, me animou a comer, me fortaleceu, me ajudou a crescer; porque todos os dias, algures, alguém depois de um pequenino diálogo em que me responde «Ámen»,  abertas me estende as mãos famintas, trémulas, peregrinas, quando não, exangues…

2.   Digo a verdade, não minto. Ao longo desta semana (12-18.02.2023) que não quero esquecer, que não posso esquecer, que nós, católicos, enquanto comunidade, não poderemos jamais esquecer, vexado, muito me custou revestir-me de alva, estola e casula, erguer as mãos e o coração e rezar missa.

(É certo que a sorte me fez calhar rezar em um mosteiro, a recato; mas ainda assim… custou!)

Ao longo desses longos dias, a cada dois matutinos passos que dava rumo ao altar, desde o fundo de mim, minha alma perguntava-me: João, como se reza, como se pode rezar depois do Relatório Final? Como podes tu rezar?

(Na quinta-feira cruzei-me com um pároco e expus-lhe o meu desassossego, a humilhação que comungamos e a mim me fere como afiado canivete, me esmurra e me perturba por causa de tanta dor, de tanto silêncio cobarde, tanto crime, tanta insensatez, tanta palavra que quer sair e não me sai para nomear algo que de momento me é inominável. Pergunto-lhe. Responde-me: «Frei, nem tempo tive para pensar nisso. Esta semana celebrei todos dias quatro missas: duas de agenda, e dois funerais em cada dia.

Não me pude dar ao luxo de pensar! Tive de substituir colegas, de ir à luta num corre-corre sem parar; de ir a reuniões para aqui, reuniões para ali. Reuniões com padres, reuniões, com leigos, reuniões com pais. Nem pensei, nem deu para pensar…».

Eu que parado estou, olho-me e verifico que ainda fiquei pior com a resposta, mais negro, mais inseguro, mais perturbado. À mesa viro-me para o lado e aferroo os meus, pergunto-lhes o mesmo, mas eles choram como eu a violência, o abuso, a vergonha, o indiscritível.

3.   E é assim que acabo sentando frente a esta alva folha de papel. É assim que celebro dia em pós dia, uma missa, tão só uma, uma missa de reparação e de justiça, e de confiança no perdão e na misericórdia, apesar de também Deus ter sido violado em cada menino, em cada menina! No corpo e na alma de cada menino e cada menina! Meu Deus…

Sim, houve crianças violadas, não nego, não podemos negar, não queremos ignorar. Tinham nomes, vidas a florir, pais e avós que confiavam, irmãos e amigos. Não, não podemos negar, não podemos esquecer. Não podemos negar. Não podemos esquecer.

Não podemos negar a tragédia, o ultraje! As lágrimas, a noite! O medo, o terror, a depressão!

Que horror, que sufoco! Tanto sofrimento imerecido, tanto futuro truncado, tanta consciência humilhada, tanto sem-sentido! Tanto…

Não sei que diga, não sei bem o que digo. Olho para um lado, olho para outro, olho para dentro de mim, olho em redor, hesito buscar uma balança que sopese palavras como: «confiança», «alegria», «meninice», «amor», «ternura», «amigo», «crescer»,  «vida», «Jesus», «catequese», «Missa»…

4.   É óbvio que rezo pelas vítimas, pelos meninos, pelas meninas, pelas famílias, por mim que sou vítima, por nós todos que somos vítimas, pelos abusadores que o são também – ok, aceito que discordem… – pela Igreja Católica, por Francisco, pelas famílias, pela sociedade…

(Estou com falta de fé, Senhor!) Rezo e não sei se nisto Deus me ouve, se me compreende, se me acha digno de eu Lhe rezar – mas tens de ouvir-me, meu Deus, tens de ouvir-me, rezo-Lhe, peço-Lhe, imploro-Lhe. Senão, que vai ser de nós? Que vai ser de nós, e como iremos erguer-nos? –; e o que é pior: como se diz às vítimas (e não, não penso agora em mim…) que Deus as ouve e as atende, as acolhe e abraça, quando foram, precisamente, os Seus mais lustrosos servos, os sacerdotes, que mais indignos delas e dEle se mostraram?

5.   É óbvio que este texto não fala de mim, mas da perplexidade de toda a comunidade católica que se viu enxovalhada, humilhada pela violência e pela indignidade de alguns dos seus clérigos, e agora se vê sob o estrépito escarninho dos seus inimigos – e não digo ou nego que não tenham razão!

6. Como fazer? Como levantar-nos? Para onde erguer o olhar? Onde pousar a cabeça, onde sossegar o coração? Meu Deus… por onde andais?

Na oração para meus adentros, peço lágrimas, oro por lágrimas; das que molhem e reguem por fora, que as de sangue jorram-me pelo esfacelado do lado de dentro. Lave-se-nos a alma, oro, com água e com sangue, sangue do nosso, água dos nossos olhos. E não bastará. Não bastará. Não bastará.

7. Ouvi dizer que alhures querem erguer um monumento às vítimas, um monumento que perpetue a nossa vergonha. Não sei se é verdade, se li bem; se sim, até me parece que possa fazer sentido. Será mais um para apodrecer, é certo, mas enquanto de todo não caia, não serei eu a lamentar um dedo que se nos aponte e nos denuncie a abominação de que somos autores e responsáveis, e continuamente nos recorde os crimes e os vexames por nós semeados. Não, não o lamentarei jamais…

Tenho, porém, por mais certo, que o reconhecimento de tanto sofrimento injusta e criminosamente provocado tem de dar-se; disso não duvido. Ou ninguém se curará. O que não sei é quais possam ser os tempos e os movimentos, mas lá que tem de dar-se, isso tem. Não duvido que a comunidade tem de confrontar-se com tal imerecida e iníqua montanha que alguns, injusta e sisificamente carregam desde a mais tenra infância; tal como não duvido que em algum lugar tem de abrir-se uma porta que possa dar para um canal de graça e de perdão, para a serenidade de uma eira onde vítimas e agressores possam encontrar-se, e mirar-se olhos nos olhos, a fim de que elas possam falar e eles ouvir.

E se as exauridas vítimas puderem perdoar, tanto melhor.

8. Na próxima quarta-feira iniciaremos a Quaresma. Nesta hora em que a iniquidade se multiplica e medra em terreiro que deveria ser jardim e paraíso, ajoelho-me, prostro-me e humilho-me também eu porque o amor parece ter esfriado; e oro em prece confusa e sem palavras, para que jamais ele esmaeça ou se apague do coração de Deus; e para que nos queime e nos purifique, e nos dê novas ocasiões para recomeçarmos a amar como convém. A servir como convém. A ouvir como convém. A sarar como convém. A cuidar como convém.

Sim, sem pejo nem medo, quarta-feira também eu enfarruscarei a cabeça de cinza, sinalizarei o opróbrio em plena igreja, comerei pão de cinza e beberei do cálice de lágrimas; que outro caminho para já não vejo. Não vejo, porque as feridas de tantas vítimas dos abusos de sacerdotes me ferem, nos ferem a todos, e por isso, por agora, só alcanço chorar a tristeza e a dor do meu povo ferido.

9.   Abaixa-nos e abate-nos, Senhor,
e faz-nos entrar na Quaresma pelo pórtico da cinza,
e seguir o caminho da penitência e da oração.
Como eu gostaria, Senhor, de saber pedir-te
o bálsamo que unge e cura
as feridas do corpo e da alma
do teu povo…

II

10. Vemos, ouvimos e lemos; e não podemos ignorar.

11. O que a seguir contarei não elide da nossa face e dos nossos corações católicos, e menos ainda dos dos agressores que temos entre nós, o negrume e a vergonha, e o dever de ouvir – e se possível cara a cara! –, e o da premência em pedir perdão às vítimas.

Esta emergência em contar o que a seguir contarei deve-se apenas ao facto de ter acontecido na semana da ignomínia católica em Portugal, que a todos nos toca, ao menos em tangência. O que conto nada elide, mas faz pensar.

Sei que, por me falharem alguns termos, não saberei contar bem o sucedido numa turna do Oitavo Ano. Ainda assim, conto-o.

Julgo saber que o Ministério da Educação promove – não saberei dizer desde quando, e quer-me parecer que de escola para escola o projeto muda de nome… – um projecto de educação para os valores; sei que antes tal sucedia nas aulas de Religião e Moral; hoje, porém, mantendo-se estas, acresceu-se aquela proposta que toca também os alunos que nada querem com as aulas de EMRC.

Pois, que passou-se?

Ora sucedeu que numa escola, uma educadora social a quem os alunos de 12,13,14 e 15 anos chamam ‘Stôra e, mesmo em dia de greve, aguardam juntinhos e a pé firme que ela chegue para mais uma sessão, lhes propôs no encontro do dia 16 de fevereiro, quinta-feira, a seguinte dinâmica: a turma dividia-se em dois sub-grupos, e cada grupo escolhia um observador que registava as reflexões que sucederiam no interior do seu próprio grupo. A reflexão formalmente proposta foi: imaginai que, de repente, cada um de vós teria de fugir para um refúgio nuclear. Ora como no refúgio só cabem sete pessoas, de entre os doze tipos de pessoas que a seguir se elencam, dizei as seis que levaríeis convosco e justificai.

(O universo de pessoas donde escolher as seis a entrar no refúgio, era: um poeta fanático; um físico de 28 anos que só aceita entrar se levar uma arma; uma prostituta; uma universitária de 18 anos celibatária; um sacerdote; um violinista; uma menina de 12 anos de baixo QI; um toxicodependente; um advogado com HIV; a mulher do advogado; um jornalista homicida; um homossexual; um intelectual epilético.)

Proposto o desafio, aqueles adolescentes atiraram-se com unhas e dentes ao debate durante uma hora. Não interessará aqui o resultado global, tão só que as pessoas doentes não foram consideradas elegíveis para o refúgio por, eventualmente, virem a dar muito trabalho, e por se temer que a mais que provável escassez de medicação viesse a limitar as possibilidades de sucesso daquela clausura. Entre os eleitos, porém, encontrava-se o sacerdote. Se, porém, a razão da sua eleição por ambos os grupos é meramente utilitária, o facto é que a sua presença é desejada; as justificações dadas foram as seguintes: i) a presença do sacerdote pode tranquilizar e trazer a paz ao grupo; ii) Consideramos que quem melhor é capaz de transformar as dificuldades em oportunidades é o sacerdote.

12. Que esta semana fica na história, fica. E o opróbrio que ela revelou terá de servir-nos para o nosso (v)exame de consciência; para a auto-acusação dos nossos pecados e crimes; e, parece-me também óbvio, que as linhas com que o futuro da nossa comunidade há-de coser-se têm de ser também estas.

Estes são dias negros sobre os quais brilha um sol de noite escura. Doa o que nos doer é de noite e é na noite que temos de abrir os olhos e lavar a alma. Não sei que luz brilhe ou alumie a dura noite que sobre nós caiu e, por mim falo, nem sei se vejo ou se miro esperança, escolhos ou nevoeiros. Sinto o peso do gume negro da noite sobre o meu peito e não me bastam as histórias do Oitavo Ano. Ainda assim registo que alguns dos nossos meninos consideram que «a presença do sacerdote pode tranquilizar e trazer a paz». No contexto em que vivemos, tal não é tudo, mas já não é pouco. Porém, o que eu, desassossegada sentinela, mais imploro, é pelo anúncio do dia novo que o canto dos passarinhos anuncia; ah, e que venha a Luz, que venha a Luz e que de nós expulse as trevas.

13. Um último registo que, sinceramente, não sei se se passou naquela turma e naquela mesma sessão; mas passou-se no mesmo contexto das sessões para os valores. Um rapaz de quatorze anos assumiu-se católico e fez-se chacota. Perante a troça dos pares, não se intimidou e declarou:

— Porque se riem de mim? Por eu ser católico? Eu sou católico, rezo em casa com a minha família e vou à paróquia ao domingo. Vou ao grupo de jovens, rezo sozinho e com os meus amigos católicos. Eu não tenho vergonha de ser católico!

(E a turma ria-se, mas já não toda. E ele continuou:)

— Não, não vos levo a mal o vosso gozo. Não, nada. Só há uma coisa que eu não percebo: porque vos incomoda que eu seja católico? É que a mim não incomoda nada que algum de vós seja hindu, judeu, muçulmano ou ateu, porque vós sois meus amigos. Não me importa se rezais ou não; ou se rezais a este ou aquele deus. Não me preocupa como sois, eu só quero amigos que possam respeitar-me tal como sou: um católico fiel ao Papa, e que reza!

14. É também pelos valentes Tarcísios de hoje que eu choro e me minguo. Eles não merecem que o trapo do opróbrio da noite caia sobre o seu rosto.