Armindo Vaz, OCD
Aquando do terramoto na Turquia em Agosto de 1999, que causou mais de 17 mil mortos, alguém fez nos meios de comunicação social esta pergunta: «Que mal fizeram os turcos a Deus?» Há mais de 23 anos. Mas a tentação de explicar o mal associando-o a um castigo de Deus não terá mudado muito. Sempre houve dificuldades para lidar com o mal moral: apesar de ser o verdadeiro mal, cometido livremente por humanos em desconformidade comportamental com a ordem moral, os crentes rezavam para que Deus varresse as injustiças sociais, violência, guerras e agressões degradantes da dignidade da pessoa. Mas também há dificuldades para integrar na vida o mal físico, natural, psíquico, sofrido. Diante dele, crentes e descrentes, por razões diferentes, aliviam-se psicologicamente com uma interpretação religiosa. Ligam a Deus a dor que não provém da responsabilidade mas da condição humana (como as doenças) e de catástrofes naturais, como terramotos, inundações, erupções vulcânicas destruidoras, acidentes: censuram-no por não a evitar, invocam-no para que a evite. Também agora naquela noite trágica do sismo de 6 de Fevereiro de 2023 bons crentes terão sentido resignação à vontade de Deus, pensando que o mundo é pecador e precisa de se purificar…
Esta associação, ao mesmo tempo que perturbadora e labiríntica, tem várias linhas rectas interrogativas: Que tem Deus a ver com o mal? Causa-o? Quere-o? Permite-o? Livra-nos dele? Pode livrar-nos dele? As diversas respostas a estas perguntas dependem da imagem de Deus que a espiritualidade forjar e contribuem para uma imagem coerente ou inaceitável de Deus; jogam com vários atributos de Deus, com o da sua omnipotência, o da bondade, o de Deus criador…
Uma forma de enfrentar o problema do mal em associação com Deus foi, já desde o filósofo Epicuro (341-270 a.C.), lançar este desafio em jeito de dilema: ou Deus pode mas não quer evitar o mal (e então não é bom) ou quer mas não pode (e então não é omnipotente) (Epicurea [ed. H. Usener] Leipzig 1887, n.º 374). Este dilema levantava um problema humano, mas fazia de deus um dos termos do problema: degradava Deus, não respeitando o mistério da sua transcendência e não explicando o que ele entendia com o «não pode» e «não quer».
Se o que dizemos de Deus fica sempre aquém daquilo que Ele é realmente, qualquer afirmação sobre Ele terá de ser coerente com as outras: na plenitude da revelação cristã não podemos dizer, por um lado, que Deus é bom, amoroso, e, por outro, que castiga ou não quer evitar o mal. Não podemos construir expressões da fé em Deus que sejam incríveis. A coerência interna delas requer que se reveja e se limpe a imagem de Deus e a sua acção no mundo. Deus só quer – sempre – o bem e nunca quer o mal para qualquer ser humano. As incoerências na meditação que associa Deus ao mal devem-se em boa medida à pressuposição de que a fé quer dar – ou deveria dar – a explicação da causa física e material do mal, argumentando, por exemplo, que, se Deus é o criador do mundo, é o responsável pelos mais de 50 mil mortos que o terramoto de Fevereiro de 2023 fez na Turquia-Síria. Na realidade, as afirmações bíblicas que relacionam Deus com o mal físico são uma meditação religiosa que não atende à sua origem fenoménica e à trama das causas objectivas que contribuem para o desencadear do terramoto (que compete às ciências). Como a fé em Deus criador de tudo, expressão suprema da sua omnipotência, não atende ao acontecido fisicamente mas vê as coisas em Deus e à luz de Deus, assim quando a fé associa Deus a um terramoto mortífero não põe a questão dos agentes físicos, nem diz que Deus é um deles: interroga-se junto de Deus sobre esses fenómenos naturais, procurando dar-lhes sentido. E se reza pelos mortos do terramoto, é consciente de que a sua causa real tem a ver com as leis da natureza e não com Deus. Assim procedeu Jesus perante situação análoga. O acidente dos dezoito que morreram com o desabar da torre de Siloé serviu-lhe para corrigir a mentalidade que via as desgraças humanas como consequência do pecado: “julgais que eles eram mais culpados do que todas as pessoas que habitavam em Jerusalém? Não, digo-vos. E, se não vos converterdes, perecereis todos de modo semelhante” (Lc 13,4-5). Jesus demarcou-se dessa visão religiosa: não há relação directa entre culpa moral e calamidade. Tirava assim o mordente fatalista ao mal físico e explorava-o antropologicamente acentuando o convite ao arrependimento e à conversão ao bem: “se não vos converterdes…”.
Aliás, mal é noção relativa: é privação do bem devido à intrínseca natureza de um ser ou que faz falta a um ser para ser o que é. Logo, do ponto de vista natural o terramoto não é um mal: são as placas tectónicas a estabilizarem a Terra. Já o de Lisboa em 1755 suscitara um aceso debate no mundo ocidental sobre a providência divina e a ira de Deus, procurando culpados para a tragédia. E já então as grandes mentes da época (Kant, Voltaire, Rousseau, Leibniz…), suscitando um dos mais vivos debates filosóficos da História, se sentiram convocadas para a reflexão à volta da catástrofe, desligando-a da vingança de Deus pelos vícios da cidade.
Podemos, pois, pensar: os turcos não fizeram mal a Deus; e Deus não fez agora nenhum mal aos turcos e aos sírios quando a sua terra tremeu. Onde estava Deus então? Estava lá, a sofrer com as vítimas e a acolhê-las no seu colo de Pai.










