Armindo Vaz, OCD
João abre o seu evangelho com uma nota dramática relativa ao Jesus que ele vai apresentar: “O mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, mas os seus não o acolheram” (1,10-11). Com o passar dos séculos, o mundo foi-o reconhecendo. Como expressão de reconhecimento, dedicou-lhe capelas, igrejas, basílicas, catedrais, que foi enriquecendo de ouro, cores, mármore, imagens, quadros, vitrais, mosaicos e pinturas. Embora conscientes de que Jesus se identificou com “estes meus irmãos mais pequenos” (Mt 25,40.45) e que ele está em solidariedade com os que mais sofrem, os artistas de todas as épocas e de todas as nações, como que representando-os e dando-lhes voz, encheram templos e museus de evocações do seu nascimento. O canto dos poetas, as cores e a elegância das artes verteram o encantamento da humanidade perante o Natal de Jesus. Se focarmos só a reacção da música, vemos como ela o encheu de sons miríficos e de vozes maviosas. Nem poderia haver Natal sem música, elemento imprescindível para solenizar a grandeza do evento e exteriorizar a alegria da festa. Os séculos fizeram da ligação entre música e Natal um binómio indissociável.
Os primeiros cânticos natalícios foram compostos em função da liturgia cristã. No I milénio o canto gregoriano brindou-a de inumeráveis melodias, que inicialmente eram executadas pelas scholae e pelos monges e escutadas pelos fiéis em silêncio. Do séc. XI em diante também se compuseram, ainda em latim, melodias populares, que depois foram sendo traduzidas para as línguas medievais, com adaptações e reelaborações. Eram cantos para-litúrgicos que integravam peças dramáticas de teatro sobre o Natal, representadas nas igrejas e nos adros da Europa medieval. Nalgumas regiões chamavam-se Mistérios de Natal, que no séc. XVI evoluíram para o nome de pastorais. No vasto repertório musical natalício, temas provenientes dos respectivos âmbitos culturais assumiram caracterização distintiva, como os carols ingleses, os noël franceses, os canti di questua italianos, os villancicos espanhóis e os vilancicos portugueses. Em 1582, quando Teresa de Ávila, que reelaborou villancicos, morria em Alba de Tormes, um finlandês publicou 17 Canções piedosas, tradicionais, de Natal. Inspiraram posteriores músicos nórdicos. Algumas ainda se cantam hoje. E por todo o mundo cristão paráfrases dos evangelhos transformaram-se em poesia, sublinhando a dimensão humana do neonato que deu voz a Deus. Outros cantos aliavam a frágil humanidade do menino à sua omnipotência de Deus, a virgindade de Maria à realeza do recém-nascido, o silêncio de José ao “coro celeste que louvava Deus” (Lc 2,13). A música contemplativa tomava consciência da grandeza do acontecimento Natal.
A um dado momento, a música culta enriqueceu a tradição de cantatas, corais, oratórias… Já em 1690, Corelli legou-nos o seu Concerto grosso n.º 8, fatto per la notte di Natale, cheio de espiritualidade. Em 1716 a Cantata pastorale per la Natività, de Alessandro Scarlatti, mandava uma mensagem de paz a todo o mundo. Mais célebre é o monumental Weihnachts Oratorium (1734-35) de Bach, seis cantatas para o tempo de Natal, em que vozes e instrumentos concorrem para caracterizar os temas tomados de Mateus 1-2 e de Lucas 1-2. A 1739 remonta a melodia de Felix Mendelssohn, Ouvi! Os anjos do arauto cantam.
Mas a jóia musical do tempo do Natal é a grandiosa oratória Messias (1741), de Händel, que une magistralmente o canto polifónico à orquestra. Embora cubra toda a vida de Jesus, ficou inextricavelmente associada ao Natal, em virtude do esplendente Aleluia. Depois de citar Isaías 7,14 (relido por Mateus 1,23) no recitativo “eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, que será chamado com o nome de Emanuel, que significa Deus connosco”, remete para outra página de Isaías (9,1-5), que se abre com uma estrofe de luz e de alegria, como se o profeta lido no Advento e profeta da esperança, em contraponto com Mateus 4,15-16, intuísse uma nova criação: “O povo que caminhava nas trevas viu uma grande luz; para os que viviam em terra de sombras brilhou uma luz; multiplicaste a alegria, aumentaste o júbilo”. A primeira narração da criação divina já começava assim: “Deus disse: ‘Faça-se a luz’. E a luz foi feita” (Gn 1,3). O Natal de Jesus é assim entendido como inauguração de uma nova humanidade, de uma humanidade salva pelo nascimento do absolutamente novo. As causas da alegria irrefreável eram a libertação da opressão dos tiranos, a paz sustentada e Deus connosco, “porque um menino nasceu para nós, foi-nos dado um filho…: o seu nome será Príncipe da paz”. Para a tradição bíblica é este o retrato completo do Messias.
Se Händel é vibrante, Mozart faz-nos estremecer com a incomparável harmonia do Ave verum Corpus natum de Maria Virgine, de 1791. O séc. XIX abunda em corais e cantatas, que refrescavam o fulgor do mistério natalício. Como as alemãs, também se compuseram oratórias francesas sobre o Natal. Berlioz em 1854 compôs L’enfance du Christ. Como ele, também Saint-Saens compôs Oratorio de Noël sobre um texto latino. Para Dezembro de 1876, Tchaikovsky escreveu a valsa Natal. Até no séc. XX a mensagem natalícia foi musicada. Messiaen compôs em 1935 La Nativité du Seigneur e em 1944 Vingt regards sur l’Enfant Jésus, olhares que pousam nele, desde o olhar bondoso do Pai ao olhar doce da mãe, desde o dos anjos ao dos magos. Perosi († 1956) compôs com profusão melódica Il Natale del Redentore. E com a Sinfonia n.º 2 ‘de Natal’ (1980) Penderecki recuperou a clássica forma da sonata.
Ocupados com a grande música, não podemos esquecer as populares melodias Adeste fideles (atribuída a D. João IV), O Tannenbaum (que remonta ao séc. XVI ou XVII), Tu scendi dalle stelle (de S. Afonso Maria de Ligório, em 1754, difundida como pastoral), Gloria in excelsis Deo (tradicional francesa, de autor desconhecido, do séc. XVIII), Stille Nacht, de Franz Gruber, executada por primeira vez em 24.12.1818 (declarada ‘património cultural imaterial da humanidade’ pela UNESCO em 2011). Estas melodias vão evidenciando a expansão – ou distanciamento – da representação sagrada do Natal para uma representação humana ou profana, que sublinha outros elementos: a neve, o pinheiro ou abeto, o Pai-Natal e a renas… Esta tendência alastra mais nos séculos XX e XXI, como no famoso White Christmas, que na versão original só canta a nostalgia pelo Natal com neve. De qualquer modo, a música emerge como símbolo de procura e de compreensão da fé, contemplando o menino Jesus como vindo não só de humanos mas também de Deus e vendo-o como Deus connosco.










