Frei João Costa, OCD
1. Escrevo em novembro da folha caída.
É incrível como quão vivo seja, no contexto em que me movo e rezo, o sentimento de comunhão com as Almas. Atrevo-me até a reconhecer na consciência comum, inclusive naquela mais sócio-cultural que litúrgico-eclesial, uma portentosa torrente subterrânea de vida. Tem essa torrente muitos veios e até, talvez, nem todos sejam puros e cristalinos, todos cristãos. Um deles é, certamente, a crença na comunhão com as Almas.
Se durante a dura jornada da terra os nossos nos beijaram e amaram – rudes que fossem suas mãos e palavras, eles amaram-nos, sim! –, melhor eles nos amam agora. Não me conclamem a evidências que evidências não demonstrarei, e se as tenho não as mensurarei nem as prestarei para mensurabilidades que as amesquinhem, as empequeneçam ou desdigam.
Mais acordado ou mais vigilante eu ande, mais eu me convenço de que daqui não sou, mas de mais longe, mais longe, mais longe. Se de passagem aqui estou – e isto o compreenderá melhor quem da vida fizer caminho para o céu – então é bem possível que amanhã, sim, amanhã mesmo, já não esteja onde agora estou. É possível, que o próprio do caminho também é terminar. E um dia – enquanto aqui for ora manhã ora tarde ora noite – viva eu já o glorioso dia eterno por todo o sempre, ámen, um dia, dizia eu, viverei já sem nada dever aos laços do sangue e da sede, sem nada dever aos passos, aos cansaços, aos suores. Nesse dia sem laços nem humores, inundado de Sol sem ocaso eu serei. Nesse dia eu sei que amarei a terra que agora amo, os caminhos que agora amo, os ribeiros que agora amo, os outeiros e nevoeiros que agora amo. As gentes e os anjos que agora amo, os peregrinos e saltimbancos que agora amo, as estrelas e a noite que agora amo, as madrugadas e poentes de ribó, e os aleluias e ámens que agora amo.
Nesse dia sem laços melhor amarei o que agora amo. Sei-o pela fé. Sei-o pela esperança. Sei-o pelo amor. Sei que não posso desejá-lo e tal ser-me negado; assim eu saiba merecer desejá-lo mais que por mérito, por graça.
Só o amor não morre. Ora se só o amor não morre é porque seguirei amando desde o outro lado do rio, desde aqueloutra margem; sim depois que o sol se ponha, eu seguirei amando os de esta e os daquela banda. Sei, pois, que da outra margem onde depois me verei e viverei, seguirei amando os daquela, e os que desta ficarem por mais um tempo e meio, descendo rio abaixo. Ou subindo à nascente, não sei bem…
Só o amor não morre e eu seguirei amando.
Seguirei amando os pecadores e os santos, os andarilhos e os anjos, as amendoeiras e os lentiscos. Ora, se depois de atravessar o rio da tribulação eu seguirei amando, então, ali, só poderei amar, bem mais, bem melhor, e bem mais melhor de melhor do que agora amo aqui!
Eu acredito nisso, acredito no amor. Acredito que os que me beijaram no berço e pelos caminhos fora, os que me lavaram os pés e deram a mão, o seguirão fazendo com tanto amor, com tão grande amor, com um amor tão imenso como o mar e o céu juntos, porque me amam e o amor não morre; e amando desde antes, não podem depois querer-me mal, mas muito mais bem do quanto me beijaram ao longo do pó dos caminhos pela terra além, ámen. Como posso duvidar eu disso? Como posso eu duvidar que tendo o amor passado pelo cadinho da morte não saia purificado, melhorado, exaltado, exponenciado ao divino? Sai, sim; e eu sei que as Almas é assim que nos amam, nos velam, nos beijam e estimam, nos estimulam, nos tomam nos braços, amparam e abençoam para que cresçamos!
Se na terra o bem querer nos faz levar pelos caminhos do bem, então as Almas…
2. Escrevo em novembro, de rosto e alma voltados já para o Natal.
No chão do presbitério da igreja está uma alcofa fofa com uma bíblia aberta. E uma chupeta. Uma jovem mamã grávida assim o pediu! E repetindo-nos, assim o fizemos nós, pois o Mistério volveu-se menino para ser amado sem medo. E deixando-se amar e beijar por nós, Ele nos provou e abençoou.
Escrevo virado para o Natal, mas não é ainda Natal. É espera. Apenas espera. Em esperanças nos encontramos nós, tal como a jovem mamã. Em novembro. É deste novembro das Almas que saco o que a seguir mais direi.
3. Mês das Almas.
Tal como há o das sementeiras, há o das podas. Tal como o do pousio, o dos frutos. Assim o da Ressurreição, assim o das Almas. Vamos pelo caminho das Almas que, por alguma razão, a alma portuguesa tantas alminhas semeou pelos nossos caminhos além, ámen.
Como por nós bem sabido é, as representações dos santos de Deus são modos de sublinhar ora esta ora aquela característica, com a intenção de que por ela seja dito a quem os contempla, em imagens ou pagelas, aquela particularidade que melhor os define e distingue dos demais. Esta ou aquela particularidade é, pois, uma fala; atentemos, por isso a que hoje singelamente quero evidenciar.
Sempre me impressionaram os santos com um pau nas mãos de ponta cimeira recurva e um chapéu em bico apontando para o alto, tal como me impressionaram os que se apresentam com uma palma nas mãos, ou os que se fazem acompanhar de grossos livros, e aqueloutros com o Menino Jesus ao colo. Uns e outros e os demais, cada um em sua classe, e com o símbolo correspondente nas mãos, sempre porém bem os distingui do homem com uma serra e uma enxó por perto. Se, porém, a mulher dele nunca a vi representada com panelas, sertãs e tachos pelo rodopio das saias, creio não dever perder pela demora.
Uma coisa, pois, é certa: os santos que mais e há mais tempo me impressionam são os que se nos apresentam com uma caveira na mão! Sim, muito me surpreende aquela alva caveira com três buracos e os dentes a rir para nós. Como desde miúdo me impressionam esses santos assim representados!
Sempre a visão da caveira me repulsou, embora agora melhor a leia e a entenda: A verdade é que aqueles santos assim representados, algo nos quiseram ensinar, e por isso assim no-los apresentam. Mormente com a caveira posicionada no antebraço, estão eles a dizer-nos terem sido homens e mulheres – embora maioritariamente apareçam os homens – que passaram grande parte das suas vidas em considerações sobre a morte!
4. Ora, cabaças! E quem é que hoje quer pensar na morte?
5. Ninguém! Ou talvez o Papa, ou apenas alguém ainda mais santo que ele!
6 Para a mentalidade dos dias de hoje existem melhores considerações em que utilizar o tempo, nomeadamente em nada considerar. Não é de todo inútil, porém, pensar-se no fim e na morte. Pelo contrário. Mal algum não há em perspectivarmos o nosso fim, como se morrêramos hoje. Sei que muitos muito se assustam em pensar tal, mas que mal haverá em pensar nisso, nomeadamente nas coisas que restariam diferentes depois da nossa morte?
Muitos se recusam a tal, sim, por tal ser o pavor que o assunto lhes acomete. Mas se hoje tanto se assustam, por não estarem preparados para morrer, melhor estarão amanhã? Se não sabes se depois aqui não és, por que deixar para amanhã o que com proveito hoje devas fazer? Pensa nisso hoje, sim, que não é que amanhã seja tarde; ou melhor seja dito: bem pode ser que amanhã mais assoberbado possa ser o dia e boa oportunidade se perderia. Sim, pensa nisso hoje, que no pensar nos distinguimos das cigarras, e assim, encarando de frente o assunto, mais verdadeiro serás; que uma coisa é certa: de todos em todos os modos, a vida neste mundo é passageira.
(Tão passageira que não sei se assinarei este texto…)
7. No Evangelho deste domingo – o XXXII do Tempo Comum do Ciclo C – escutaremos a voz de Jesus reafirmando o nosso Deus como um «Deus de vivos», jamais de mortos, por que para «Deus todos estão vivos» (Cfr Lc 20:27-38). Ora, se Jesus o diz, quem seremos nós para o negar? É verdade, não o podemos negar. Não é certo, porém, que de coração aberto e pacificado inteiramente assumamos tais palavras de Jesus; e por duas razões: i) É verdade que este mundo é injusto e passageiro, mas também é verdade que nos assustamos com o desconhecido, pois ninguém gosta de dar um pulo no vazio; que haverá, afinal, do lado de lá da morte? Que nos espera do lado de lá? ii) E mais: A verdade é que este mundo passa; porém, por qual razão nascemos nós para um mundo passageiro? Que justiça há em que se nos dê uma coisa que em breve nos será tirada?
É incompreensível e assustador.
8. As respostas a estas perguntas são complicadas e nada consensuais. Para uns, nada existe do lado de lá do salto da morte; logo nada esperam, por nada lutam; para outros, existe, sim, pois é-lhes inconcebível o nada, o vazio, o desaparecermos num poço sem fundo. A mim também. Para mim, até a breve existência duma florinha tem sentido, quando mais a nossa! É verdade que eu já fui jovem, que me fui a-percebendo de mim no abrir e no escancaro dos olhos, e no ver-me crescer. E agora… Agora vejo-me a mirrar, o corpo a falhar, deteriorando-se mais e mais, a cada ano que passa, respondendo pior. Já sinto isso, sim.
Nunca me senti eterno, mas anos houve que me duraram uma eternidade a passar; agora, meu Deus!, agora, quando de manhã acordo, já é Dia de Finados! Cada vez me dou mais conta que não poderei contar com o meu corpo para sempre: antes nunca tinha frio, saltava como um cabrito, perseguia em campo um avançado com a fúria de uma chita, dormia até ao meio dia. Agora não, agora é mais sofá, mais leitura, menos memória, menos agilidade, mais artroses. Isto apaga-se, é o que de mim vou considerando! Cada vez mais vou pensando que um dia terei de dispensar o meu corpo. Claro que o assunto não me é pacífico, que tal me vai custar muito. Afinal, é ao espelho que me reconheço careca e de barbas; que sei que sou obeso e de olheiras profundas. Enfim, mas lá que vou ter de dispensá-lo, lá isso vou!
9. Um dia apagar-se-me-ão as energias do meu cérebro, morrerá a candeia dos meus olhos, a lâmpada da minha consciência, o fio da minha voz. Mas não será o fim, que de mim algo restará – eu mesmo!
10. Não me perguntem como serei do lado de lá, que eu não sei como serei. Quero-me, sim, com memória, com carinho e ternura pelos que amei, com gratidão pelos que me ajudaram, com beijos quentes, de coração a coração. Quero-me não sei com que saberes, mas até nem importará muito o que saiba ou não, importa-me, sim, hoje e além, ámen, amar e ser amado, amar a terra que me amamentou, as ervas que me fizeram cócegas na planta dos pés, os bichos tão diversos que me surpreenderam nas voltas do caminho, o céu que me fez ousar. Quero-me com sonhos, embora auspicie que o que me aguarda não caiba dentro de sonho algum. Quero-me saber eu, eu mesmo, eu que aprendi, que cresci, tomei pão nas mãos e o abençoei, e distribui. Quero-me saber eu, jamais difuso, jamais diluído. E quero-me agradecido a meus pais e a meus irmãos, aos meus amigos e benfeitores, a quem, mesmo com sofrimento ou tédio, me ensinou a ser homem. E mais isto humildemente peço ao Deus dos vivos: quererei saber-me filho de um homem e de uma mulher. Nunca um deus.
11. Hoje e por todo o sempre me recuso a ser como uma onda do mar que se esvai e perde na areia, ou se parte nas rochas. Não me quero fracassado, não serei fracassado. Não me quero sem-sentido nem imerso e inapto no absurdo. Quero a Deus, o Abbá de Jesus e meu, Aquele que por meu Irmão Mais Velho me prometeu uma mansão. Não, não preciso que seja uma mansão, basta que haja uma porta onde o Vivente esteja de braços abertos para à chegada me abraçar! Que se Ele é vivo, como há-de Ele querer-me morto para sempre?
Eu quero o Deus dos vivos!
Amen!










