LA CUEVA DE SAN JVAN DE LA †

Frei João Costa, OCD

1.           Récios correm os tempos aos dias de Juanico, Joãzinho de Yepes. Para mais precisão mire-se o cemitério da sua infância, cuja sementeira de brancas cruzes de madeira por demais ali mais eclode e mais cresce de dia para dia; e às adversidades que tanto assediam a sua pobre casa e à esteira em que no chão dorme, e que por demais o assoberbam, soma-se outra que melhor que alguma, talvez a todas metaforize: há uma baleia negra que, desde menino, o persegue. Não a que só duzentos anos depois na literatura tomará nome, mas aqueloutra a que podemos dar o performativo nome de mal. E não era só a pobreza, em muitos lugares entendida como castigo de Deus, nem só as penúrias e a miséria. Era bem mais que isso. Bem mais – o Mal.

Se os primeiros biógrafos juram a pés juntos que cresceu órfão, filho e neto de mãe esquálida e pobre, outros, mais recentes, dirão que Catarina era de linhagem mourisca, e o pai Gonçalo, bem poderia proceder da casta judia, aquela a quem mormente estavam confiadas as afobações tão características dos comerciantes. Em tempos, porém, em que a honra se sustentava na limpeza de sangue, um santo tinha de ser limpo. E não lhe bastaria que a casa de Catarina fosse limpa como a pura prata, já que era o sangue que mais importava ser limpo, cristão.

2.           Pela rua de Cantiveros abaixo saltita, descalço, um pardalito ao frio. Vive de migalhas que sua mãe cata entre as linhas do pequeno tear ou à caridade alheia. E ele sabe-o. E ele ajuda-a, pois que jamais lhe repugnou a mãe que o teceu de amor, muito embora não passasse duma serviçal dedicada aos trabalhos menores, habitualmente confiados pela sociedade de então a mouriscos.

Não te estranhes, leitor, leitora, é bem possível que nas veias de Juanico corra sangue de três fontes – a cristã, a judia e a árabe. E quando falo que pela sua vida fora o assolará um combate sem tréguas, nem sequer me refiro, porque não aceito, que os três rios de sangue que no seu coração confluem, se revolvam e bulhem e se digladiem entre si. Não, o pardalito de Fontiveros é demasiado insignificante, demasiado doce, demasiado sereno, demasiado pacífico, para que a seu peito possa dar-se usança de campo de lide ou batalha, ou sirva de rincão onde se digladie turbulência mortífera, só porque nele confluam três rios, sem que algum se sobreponha a outro, porque algum e outro e todos ergam seu gládio, querendo afirmar império sobre os demais. O menino é meigo, não guerreiro. Não levanta espada, nem punhal, nem cimitarra. Nem fisga, sequer. Espraia tão só o sorriso doce de quem só dócil sempre será à serena brisa suave que, bem para além das expectativas humanas, sempre sopra por onde e para onde lhe apetece.

Bem muchachillo ainda, qual pequenino pardalito sem penugem, vítima do desamparo e da inclemência do frio invernio, Joãozito foi exposto desde cedo a forças contrárias bem assombrosas: fome, orfandade, fome, desprezo da abastada parentela paterna, fome, desprezo por causa da impureza de sangue, fome, pobreza extrema, fome. Os castelhanos resumem esta história numa expressão que, ainda que para nós seja traduzível, não tem, que eu saiba, paralelo forte em português: Catarina e os dois filhos sobreviventes à fome pertencem à caterva dos «pobres de solenidade»; aos mais pobres dos pobres. Foi, aliás, por causa desta infinda nuvem de famélicos gorriõezitos que o visitador episcopal, acercado em seus dias à paróquia de São Cipriano de Fontiveros, mandou que se vendessem as alfaias d’ouro do tesoiro paroquial para que, em modo de caridade cristã, se socorresse de pão e de medicina tantas famílias de pequenitates que de fome tombavam sobre a gélida neve. E ao dar-se que sucessivos anos de carestia exaurissem a arca de São Cipriano, aos Yepes só lhes coube, ouvindo apelos e conselhos de vizinhos e amigos, saírem dali, da amada Fontiveros. Acabarão em Medina del Campo, industriosa cidade de mercados e feiras, terra de traficantes e negociantes. Já conhecemos a história.

Sim, já conhecemos a história e o vigor das forças adversas contra o delicado peito e os bracitos frágeis de Joãozito. Em Medina, terra das melhores feiras que a coroa de Castela possui, encontrarão, julgavam, abrigo e apoio, ou pelo menos, mais oportunidades de trabalho, maior alcance de esmolas, e melhor possibilidade de que o menino letras amanhe. E assim será, sempre com a assombração da adversidade por perto. Sempre sobre gelo fino e sob o assombrado olhar da baleia negra.

3.           E eis que aqui se deu um acontecimento que muitos biógrafos passam por cima, sem, contudo, querer dizer que seja apócrifo.

Catarina achegou-se com os filhos a Medina quando Juanico andava pelos nove anitos. E o acontecimento deu-se pelos dez, sinal de que já ele se encontrava enquadrado no contexto social e escolar da cidade.

Como deixo dito, uma baleia faz-se transportar nas profundezas destas páginas. E vem perseguindo o Santico. E aqui e ali ela irrompe de supetão, ela o surpreende, ela o assalta nas águas e fora delas, ela no-lo quer roubar para todo o sempre. De tudo fará para que ele não se achegue ao futuro. E eis que aqui, se acaso falta, nos deixa mais um aviso e já não é o primeiro: pelo meio do coração da cidade de Medina passa Zapardiel, o rio das frescas rãs. Não creias que se nos dias de calor gostam elas da frescura das suas águas, não creias tu, pois, que os miúdos gostem menos. Numa despreocupada tarde, Juanico de dez anitos, banha-se e delicia-se nas margens do rio quando um monstro, um peixe de grande envergadura, furtivo se aproxima e o abocanha. O miúdo esbraceja, o miúdo esfalfa-se, o miúdo luta como ingénuo gorriãozito na boca de gato, e porfiando, desunha-se e logra escapar. Não ganha para o susto, é verdade, pelo que, aturdido, não sabe que pensar, não sabe que dizer, e o melhor que decide é nada dizer a ninguém. Guarda a acometida para si só; contudo, porém, não perde pela demora – não tarda, as investidas sobrevirão novamente sobre ele.

Por aquelas horas, o menino é aluno do que hoje se chamaria uma escola profissional e que, à data, dava pelo nome Colégio de Doutrinos que, esta, a cristã, ali faz parte do cardápio e se ensina. Dali, com sucesso, migrará para o Colégio da Companhia fundado, mais mês menos mês, aquando da sua chegada à cidade. Volvidos oito anos, ei-lo pois ali, aluno de sucesso. É à data tão perspicaz, tão audaz e tão capaz que todos o disputam. Os jesuítas querem-no para si, por evidência; D. Alonso Álvarez de Toledo, seu protector, quere-o para capelão do Hospital das Bubas, porque precisa de capelão, não de mercenário, de quem cure as almas e não se atemorize, antes empatize com as pústulas do sofrimento alheio; também de outros lugares – ordens religiosas, digo – se lhe achegam outras lustrosas solicitações. Nenhuma aceita ele, porém; senão que um dia, aos vinte e um anos, secretamente, do hospital saiu. Atravessou de norte a sul, as poucas ruas que o separam do convento carmelita de Santa Ana, recentemente fundado, e pediu o hábito de Nossa Senhora. Nenhum dos carmelitas opõe resistência, antes se apressam a rapar-lhe na cabeça a tonsura monacal. Findo um ano, será o sexto noviço a professar naquele convento. Na cúria de Roma reina como prior geral o padre Rubeo de Ravena.

4.           Em fins de 1564, o recém-professo na Ordem, frei João de São Matias achegou-se a Salamanca. Às primeiras horas do novo ano, ei-lo frequentando já os dias mais gloriosos daquela universidade. E tanto na universidade como no colégio carmelita leva ele vida exemplar. Na comunidade é sóbrio e discreto; na aula, sagaz e competente. Além disso, por aqueles dias, no penúltimo ano do curso teológico, o padre João Batista Rubeo visita o colégio carmelita de Salamanca. Frei João é ali um dos estudantes teólogos. Permaneceu o prior geral no colégio de Santo André por sete dias, os suficientes para se «aperceber da santidade de frei João». Entrevistaram-se, é claro. O que já não é ciência certa, de papel escrito, digo eu, é se o jovem religioso lhe confidenciou que, desiludido com o Carmo, pensa passar-se para a solidão da Ordem da Cartuxa. Liso e lhano ele é, pelo que penso que nada lhe ocultou.

Pensarás, porém, tu, leitor, leitora, que esta situação, este aceso fogo que o consome, este irreformável desejo de maior perfeição é fácil de assumir? De si a si talvez seja; a outrem, mormente se superior geral, não é. Ai não, não é. Antes é outra face da silenciosa baleia que o mortifica.

Um par de meses depois, por feliz confluência de caminhos de santos, que só o Espírito pode abonar, frei João, já novel sacerdote, entrevistar-se-á no locutório do carmelo de São José de Medina del Campo com a Madre Teresa de Jesus. Àquela hora providencial, a monja fundadora guarda no bolso uma patente do padre Rubeo de Ravena licenciando-a a que funde dois conventos «de frades contemplativos». Falam-se. Quando obtém o assentimento do jovem carmelita missacantano, já ela guarda junto ao coração o sim do padre António Herédia, depois frei António de Jesus, pelo que se apressará a notificar as suas irmãs com palavras jocosas hoje muito conhecidas e citadas. O que já não é tão conhecido é o assentimento de nosso santo pai: «– Sim, aceito, mas com a condição de que não demore muito!». Dilações não são com ele – que homem!

E Teresa leva-o a peito. Tão a peito que no dia 28 de novembro de 1568, domingo primeiro de Advento, se inaugurou a nossa Descalcez em Duruelo, lugarejo de um barracão só, feito novo presépio de Belém. O jovem frei João não é o primeiro prior, mas a alma e a alegria da comunidade, e o mestre dos jovens que hão-de vir – de imediato conhecemos pelo menos três: frei João Baptista, frei Pedro dos Anjos e frei António de São Paulo.

Em finais de outubro de 1570, porém, por sugestão da Madre Teresa de Jesus, vemo-lo em Pastrana, a segunda fundação da Ordem. Dadas as suas competências de pedagogo e de mestre de espírito, é ali enviado para reorganizar a vida dum maltrapilhado noviciado constituído por dez noviços. Dali partirá depois num imparável corrupio que, ora o fará trilhar, descalço, por caminhos agrestes, ora, de pico na mão, lado a lado com operários, o veremos deitando paredes abaixo e a preparar conventos onde acomodar as novas vocações. E por entre uma e outras, em Pastrana e Alcalá de Henares, revelar-se-á educador paciente, capaz, e moderado nas penitências e nos exercícios propostos às primeiras vocações dos descalços.

Todavia, como a história tem das suas ironias, nos inícios de outubro de 1571 a Madre é nomeada prioresa da Encarnação – esse mosteiro assaz grande como um quartel militar, ligeiramente estabelecido a norte de Ávila. A ingente tarefa que terá por diante levará a Santa a exclamar: «Esta terra tem sido para mim tão grande provação que não parece tenha eu nascido aqui»! E não achando em lugar algum melhor ajuda, manda chamar frei João da Cruz para director espiritual das mais de centro e trinta monjas – as cinquenta que faltam à conta habitual, são senhoras piedosas e leigas que serviam de criadas a algumas das monjas de ascendência nobre, e que a prioresa eleita, ainda antes de entrar e tomar posse, mandou sair do mosteiro, já que nem por um mísero par de horas as quer ver em sua casa.

Seja qual seja o dia em que frei João se achegue ao seu múnus no mosteiro da Encarnação, uma coisa é certa: nem um ano depois, já se sentem os efeitos benéficos da sua presença e condução, pois que a sua palavra e sabedoria espirituais são um verdadeiro dom e graça, um bálsamo, um verdadeiro êxito espiritual. Mas o Santico que não se creia seguro, pois não perde pela demora, porque a escura baleia não dorme e continua rondando por ali. E por aqui.

E eis que nos inícios de 1576, quatro anos depois de se ter assumido como confessor do famoso mosteiro, o Prior do Carmo de Ávila, padre Valdemoro, invadiu, sem aviso e à luz do dia, a casuchinha em que na Encarnação viviam o padre João da Cruz e o seu companheiro frei Francisco dos Apóstolos, ambos descalços. E entre pontapés e insultos, prende-os e manda-os para a prisão do Carmo de Medina del Campo. Só que daqui e dali se alevantam pessoas e protestos, escrevem-se cartas e movem-se influências, e os dois fradicos descalços são libertados em um mês, visto que numa carta de fevereiro daquele mesmo ano, ao Geral da Ordem, a Madre lhe dá notícias de que «já regressaram os descalços».

É a baleia, sempre a negra baleia. Ainda que em perda, desta vez.

Será, porém, descanso de pouca monta, visto que acobertados pela escuridão da noite, a dois de dezembro de 1577, um grupo de Padres Calçados, alguns leigos e gente armada, de um pontapé só deitam abaixo a porta da casucha, de repelão invadem a cela do jovem fradico descalço, e o levam algemado para a casa da antiga Observância, onde o retêm durante alguns dias – não sabemos quantos – e onde o açoitam pelo menos por duas vezes. Também lhe prometeram tudo e de todos os seus erróneos caminhos o procuram demover; mas o descalço não se comove nem desiste.

Decidem depois levá-lo de Ávila para Toledo, sob uma chuva cruel de más palavras e maus tratos, a ponto do arrieiro que os conduz se unir a um estalajadeiro de circunstância, para o libertarem com toda a prontidão e segurança, mas o doce frei João, manso e grato, não aceita tão caritativa oferta que tão bondosamente lhe acabam de comunicar.

5.           Oh, como são os santos, mesmo diante da negra e feroz fúria da baleia!

Vamo-nos a ela. Que ela mais e mais se aproxima.

Dizer-te ainda, contudo, leitor, leitora, que nesta hora escura em que a baleia o assalta dentro de sua casa, para frei João nada no assédio é surpresa, aliás, é como se já o esperasse, pelo que quando o algemam, não resiste; e quando lhe mandam que se encaminhe para o cativeiro, apenas retorque: – «Está bem. Vamos!».

E que calvário não terá ele por diante…

Como te disse e agora redigo, eis que em breves dias, a meados de dezembro, sequestrado o levaram de Ávila para Toledo, por caminhos solitários e nevosos. À socapa e de olhos vendados o levam, à socapa o embrenham em Toledo, sem que alguém, nem mesmo o rei, sobre cujo território jamais o sol se põe, saiba onde o retêm. Aliás, à chegada, os esbirros dão voltas e mais voltas pelas ruelas estreitas e labirínticas da cidade imperial – se ousar fugir, não saberá por onde!

Quando o apresentam ao visitador geral, frei Jerónimo Tostado, dentro do hábito o fradico mais parece vara de varejar. De si já é amiudado; mas depois dos açoites que recebeu, e dos castigos, e privações, e da longa e álgida e dolorosa viagem, parece verdadeiramente perdido dentro do saial frailuno.

À sua chegada, logo corre a notícia por todo o convento e, ainda que feito um reles trapo, todos acorrem para o ver e insultar! Na aula capitular, pronto se constitui um tribunal formado pelo visitador geral Tostado, o prior Maldonado e os frades mais circunspectos da comunidade. Leem-lhe as acusações decorrentes das determinações do capítulo de Plazenza celebrado ao ano de 1575, mas ele fica calado. Notificam-no de rebeldia, mas ele calado fica. Acusam-no de ter abandonado o convento e de viver livremente na casuchinha da Encarnação, mas como não é verdade, ele permanece calado. Ameaçam-no de tudo, e o seu silêncio responde que não recua. E não recuará.

Logo, logo a baleia muda de estratégia e, de causticá-lo passa a aliciá-lo. Oferecem-lhe um priorato de boa e cómoda cela, e ele recusa. Oferecem-lhe admirável biblioteca, e ele recusa. Oferecem-lhe uma valiosíssima cruz de ouro, e ele não vai em subornos. Tudo, tudo se lhes mostra inútil porque, o fradico apenas diz e retorna: – «quem procura seguir a Cristo despojado de tudo, não precisa de jóias». E tudo, tudo, pois, se lhes revelou inútil; e visto que o fradico de Deus a nada cede, determinam sepultá-lo numa cela tão grande como uma tumba.

Ei-lo definitivamente apanhado e tragado pela escura baleia.

(Parece-me oportuno dizer-te aqui, leitor, leitora, que foi assim mesmo que São João da Cruz leu a sua permanência naquela terrível e escura prisão. E convém ainda que te diga que ele inteiramente assume a metáfora da baleia retirada do livro do profeta Jonas, filho de Amitai, que profetizou pelo século oitavo antes de Cristo, no reinado de Jeroboão II. Aliás, o aconselhável seria que, antes de leres a do fradico, lesses aquela narrativa – encontrá-la-ás posicionada na Bíblia entre a profecia de Abdias e a de Miqueias. Verificarás então que narrativa de Jonas e a do pacífico fradico se distinguem numa coisa: Jonas permaneceu três dias no ventre da baleia; o fradinho santo, nove meses – e nove meses dão para fazer nascer uma nova criatura, não dão?)

A tumba ou cela – aliás uma velha latrina transformada em cárcere! – tem seis pés de largo por dez de comprimento. (Por favor, leitor, suspende a leitura destas linhas, levanta-te, e mede no chão o que sejam seis pés por dez! E diz-me: é esconso, não é? É sufocante, não é? É pouco mais que as dimensões de um ataúde, certo? É, é… – Está sepultado em vida!) E é desprovida de janela – tem apenas um bocal no tecto, do tamanho duma malga, donde se desprende um fiozinho de luz que, segundo a posição do sol, raro é que aponta ao chão. No solo jaz uma tábua e duas mantas para cama do prisioneiro. Em pleno inverno, despido de capucha e de escapulário, em modo castigo, e só com o breviário, ali entra frei João da Cruz, o rebelde descalço. Por efeitos das duras geadas toledanas os pés inchar-lhe-ão e os dedos abrir-se-ão em grandes ferias. Já no tórrido verão toledano, suará e abafará todo ele de calor.

E o fradico santo ali vai restando e jazendo abandonado no ventre escuro da baleia!

6.           A qualquer hora do dia fazem-lhe afrontas muitas: do lado de fora do ataúde param-lhe os frades à porta e, despropositadamente, riem, mofam, desconversam e falam impropriedades e atiram-lhe chantagens emocionais duras como pedras: que o descalço está só e abandonado pelos seus; que a Madre o esquecera; que nem a graça de Deus nem o rei algo podem; que os seus conventos serão reduzidos a nada; e que, ou o atirarão a um poço, sem que alguém o lamente, ou que só dali sairá morto para banhos de terra fria…

Sim, a diário o submetem a estas e a tantas outras humilhações.

Miserável é a comida que lhe dão: um mendrugo de pão, água e uma sardinha; às vezes, só meia. Às segundas, quartas e sextas, à ceia, só pão e água, acocorado ele no chão do refeitório, como um cachorro; os outros, em seus bancos e à mesa; algumas vezes, porém, consolam-no com as peles que sobram de seus pratos e com as espinhas que lhe cospem…

À ceia de sexta-feira, enquanto jaz prostrado de braços em cruz é áspera e publicamente repreendido por rebeldia. E o manso fradinho ouve. Em silêncio ouve as injúrias e as imprecações que o cruel prior Maldonado lança contra si e os seus. E no fim da repreensão, canta-se um Miserere. Então, ele desnuda as costas e, um a um, começando pelo prior, os frades chicoteiam-no – isto quatro ou cinco vezes ao mês, vezes nove meses. É fazer as contas… As chicotadas são tão vigorosas que as costas do pobre jorram sangue abundante, a ponto de muitos anos mais tarde ainda ele manter feridas por cicatrizar!

A esta negra tortura acresce que a branca túnica interior com que entrara no cárcere não lha deixam jamais lavar nem tirar, pelo que em consequência de tantos meses de sangrento martírio – obviamente esta não apenas se conspurcou, como também se vai esfarrapando!

Por esta altura, leitor, leitora, eu já não sei se o que o engoliu foi uma baleia, ou se uma cobra contristora. Nem eu, nem o santo, o sabemos, aliás. E depois de tanta vergastada, de tanta humilhação, de tanta má cara, de tanta injúria, de tanto dia sem luz, sem uma palavra amiga, sem o conforto da oração em comum, sem eucaristia, sem se confessar, depois de tanta recriminação, julgarás tu, leitor, que não chegou a duvidar que estivesse enganado! Ai duvidou, duvidou, que ainda que fora um anjo de graciosa luz duvidaria!

7.           Mais conta menos conta, mais dia menos dia, nove meses são vinte e cinco semanas. Se por tantas semanas o apertaram, o torturaram e o moeram – foram os próprios irmãos torturadores que o confessaram e o reconheceram –, só não sei como o Santico não sucumbiu, não o derruíram e o esmoeram a pó, ou como os torturadores não se cansaram de o torturar.

Mas hei-de procurar saber tal segredo.

Por ora, o que sei é que, filados e porfiados, os tenazes carcereiros o torturaram durante cento e oitenta dias, sem alcançar vergá-lo ou enlouquecê-lo; e quanto menos o vergam mais o vergastam, o humilham, o injuriam, mais o isolam abandonado numa cela quase sem luz, sem água e sem ar, em total solidão, sem o conforto da oração em comum, sem eucaristia, sem companhia, sem se confessar. Sim, de tudo fizeram para emocionalmente o quebrar, o rebaixar e o coagir, como se não houvera amanhã.

8.           No dia 14 de agosto de 1577, à tarde – o dia quatorze de agosto é a véspera da festa da Senhora de Agosto ou dos Mil Nomes! –, a porta da tumba abriu-se inesperadamente. Frei João, de costas para a porta, nada vê, de nada se apercebe, de nada suspeita. De joelhos está, de joelhos e de rosto por terra, rezando segue. Em paz.

– «Por que não vos alevantais vindo eu visitar-vos?», troa-lhe o prior Maldonado.

– «Pensava que era o carcereiro», desculpa-se o humilde prisioneiro, em esforço, enquanto, por causa da fraqueza extrema, se levanta com dificuldade.

– «Em que estáveis a pensar agora?», replica-lhe o prelado.

«Em que amanhã é o dia de Nossa Senhora e eu gostava muito de celebrar Missa!», responde frei João.

«Isso nunca, em meus dias!», brusco lhe devolve o prior Maldonado que se vira, sai e fecha a pesada porta atrás de si.

9.           A frei João da Cruz, cativo no ventre escuro da baleia, não se lhe ouve, como nunca se ouviu, ou ouvirá, um lamento. Um choro, uma raiva, um desabafo, sequer. Jamais se queixou ou se queixará uma vez que fosse. Pelo contrário, se houve de falar daquele assunto dirá: – «Faziam aquilo por pensarem estar na verdade!». E calava-se. E calado ficava.

Mas naquele dia, não. Sim, naquele dia não se queixou nem se revoltou. Mas decidiu ali mesmo que teria de fugir, nem que morresse na aventura. Por isso, de joelhos e cabeça no chão, reza e volta a rezar, e sente um impulso interior que não passa nem se dilui nem se esfuma, e convence-se que Nossa Senhora o ajudará.

Dispenso-te os pormenores da preparação da fuga, leitor, leitora; não todos, visto já te ter dito que o prisioneiro levou o assunto à oração e ao altar de Deus que é a consciência. Fugiria e fugiria. Fugirá numa noite de lua clara. Só precisado está duma noite de lua bem clara. Afinal, os descalços precisam dele e ele precisa da doce fraternidade dos descalços que, aliás, enquanto comunidade, por esses dias passam, como ele, muito mal, à mão dos Calçados e seus poderosos protectores.

Estamos na oitava da Assunção. Os dias são sufocantes, de canícula; as noites quentes e abafadas. Há tanto tempo silenciosamente sofrendo na barriga da baleia, tanto sofre que aprendeu a valorizar todos os acasos, a aproveitar todas as oportunidades – a volver-se sedutor, até. Dentro ainda da oitava, numa dessas raras oportunidades, o carcereiro deixa-lhe, por momentos, a porta aberta e ele logo arranjou modo de desapertar parafusos e desentaramelar as armelas do cadeado. A um canto escuro da tumba jazem já as mantas feitas em tiras e presas uma a uma; numa ponta acrescenta-lhe a velha túnica branca, suja, manchada e meio apodrecida, e na outra ponta, preso tem o gancho da candeia. Fugirá nessa noite, sem ser notado. Um pouco ao lado do cárcere há uma sala e da sala passa-se para um corredor com uma janela em arco, virada para o rio Tejo – um verdadeiro miradoiro sobre uns terríveis penhascos. Já ciente de todos os passos a dar e com o plano da fuga na cabeça, pelas duas da manhã, estando toda a casa sossegada, frei João empurra a porta da carcelilla e ela desaba como se fora as muralhas de Jericó. Dá-se naturalmente um estrondo, e os biógrafos querem fazer-nos crer que ninguém se apercebeu, que ninguém ouviu, ninguém acordou; mas outros, alguns de hoje, mais avispados, afirmam que tudo está combinado, ao menos com o carcereiro que mudado havia sido há três meses. De facto, quero crer, sim, quero crer que àquela hora alguém numa cela algo distante sorri por debaixo dos lençóis.

Alcançada a janela, frei João engancha o gancho, atira janela fora a corda de tiras, atira o hábito enfaixado na correia, sobe ao parapeito, faz o sinal da cruz e, «agarrando-se com as mãos e os joelhos», desliza lenta e suavemente. Ao alcançar o extremo das tiras e da velha túnica rota ainda está a metro e meio do chão coberto de pontiagudas pedras; deixa por isso descair um pouco mais o corpo e, ainda em suspenso, abandona-se e cai a dois palmos dum abismo. Ei-lo no chão, ei-lo solto, mas não livre. E daí a nada tão cheio de angústias que chegou a considerar ter de berrar pelos carcereiros para que o viessem buscar, quer lhe dessem a morte, quer não. A verdade é que depois de vestir o hábito, ainda lhe faltam saltar quatro altos muros e, buscando por onde busque, à luz da lua, não há modo de trepar e saltar o primeiro, quanto mais quatro! Depois de desconsiderar voltar a cair nas mãos dos Calçados, depois de voltas e mais voltas, de muita angústia e de muitos suores frios também, sem saber como, conseguiu trepar um e outro e todos os demais muros e achar-se livre. Está na rua, está livre, mas não seguro, pelo que se os Calçados o apanham, desfazem-no em migalhas.

Esconde-se.

Pelas oito da manhã achegou-se ao mosteiro das filhas de Santa Teresa, onde é prioresa a madre Ana dos Anjos. E um novo milagre se dá e se deu, mas este ficará para outras calendas.

10.        Aqui te deixo, leitor, leitora.

Aqui te deixo com um farrapinho descalço rodeado de encantadas freirinhas. Vendo elas como o veem, logo se apressam a cozinhar-lhe umas peras com canela – com canela, repararás!; o que à data, não é nada pouco e até é muitíssimo! –, e servem-lhas ainda quentinhas. E enquanto isso, ele conta-lhes aquela longuíssima noite de angústias, a imensa negra noite que sofreu no escuro ventre da baleia, e conta-lhes… Ah, espera, já te direi o que mais contou para delícia das santas monjinhas.

Volvo atrás. Preciso de interrogar-te, leitor, e é sobre o seguinte:

Acreditas no que te disse: que torturaram a nosso pai São João da Cruz durante nove meses? Acreditas que os torturadores era seus irmãos? Acreditas mesmo que foi durante nove meses? (Bem, os três últimos foram um pouco mais levadeiros, mas não menos cruéis nem menos ignóbeis!) Acreditas no que te disse? Julgas mesmo ter sido isso possível? (Olha que os carcereiros eram zelosos, fiéis à lei vigente; e como o Santo dizia: «Faziam aquilo por pensarem estar na verdade!»). Olha, acreditas agora melhor que essa tortura assim se deu, com a tenacidade de uma incansável mó de moinho bem calibrado, com a taramela sempre trémula, incansavelmente trémula, batendo incansável na mó? Se sim, acertas; e então, tenho para ti mais perguntas:

Explica-me se sabes, explica-me se porventura entendes; se passados anos as costas de frei João ainda não haviam cicatrizado, responde-me, por favor: como é que o não mataram? Como não o vergaram? Como não cedeu ele? Como não o enlouqueceram?

A pergunta que te quero propor é mesmo esta: Como é que não enlouqueceram aquele pobre de Deus? (Este é o meu espanto: como não o enlouqueceram tantas torturas horríveis, tantos espancamentos, torturas psicológicas, torturas morais, a privação de comunicação, a privação de eucaristia, a privação de todo o conforto, a privação da confissão, a privação?… Como não o endoidaram?)

Conforta-me e responde-me, leitor: como não enlouqueceram a nosso pai nu e descalço?

É que se o houvessem endoidado, tinham-no vencido de igual modo, tinham-no tirado para fora da barriga da baleia, tinham-lhe posto uma trela para exibi-lo às claras. E nós todos talvez tivéssemos soçobrado também com ele, não sei.

Sim, sim, mas como é que o não endoidaram? Porque, é claro, porque Deus existe – e à questão da existência de Deus acrescento-lhe mais esta prova!

Não o ensandeceram, não. E eu que de poucas letras sou, vou explicar-te porque o não conseguiram ensandecer: simplesmente porque frei João tinha a Bíblia do coração. Porque, enfim, inteiro vivia ele na Bíblia!

Eu não encontro isto em lado algum, mas na paixão do Senhor, ele revia a sua. No tribunal de Jesus e na sentença de Jesus, São João da Cruz nelas se via, se lia e se relia. Na flagelação de Jesus, ele se sentia. Nas costas retalhadas de Jesus, servo inútil, rasgadas via ele as suas. No risos e mofas, ele fechava os ouvidos como Jesus. Nas injúrias, ele se apoiava na debilidade de Jesus. Unia-se a Jesus, abandonava-se ao Pai, como Jesus. Só como Jesus. Sempre como Jesus.

Isto para mim é inteiramente verdade. Não; o mal e a baleia não o surpreenderam, jamais o enredaram e o encarceraram só a ele, pois já antes tinham feito o mesmo a Jesus, o cordeiro sem mancha. O Puro. E no Puro encontrou frei João da Cruz o modelo da sua paciência, da sua paz e da sua esperança, e ficou-se nelas. Fincou-se nelas e venceu a negra baleia.

Mas não foi tudo. Há mais.

Existem testemunhas – naturalmente posteriores à prisão no ventre da baleia; mas ainda assim, porque não hão-de algumas ser também anteriores? –, existem testemunhas que afirmam que São João da Cruz sabia a Bíblia de cor – eis o segredo!

Ao prendê-lo, ao recluí-lo na masmorra da baleia, privaram-no de tudo; sim, até do escapulário, sinal de aliança com a Virgem Maria. Mas não puderam jamais nem raspar-lhe nem arrancar-lhe a Palavra que levava gravada no coração. Não puderam, jamais puderam apagar-lhe a Palavra de Deus do coração, porque todo ele era uma bíblia aberta, uma bíblia peregrina, caminheira, andante, era Palavra-fonte, Palavra-leite que alimenta, Palavra-pão que sacia, palavra-mel que adoça o fel da falsa fraternidade, palavra-chave que abre os grilhões, Palavra-esperança que faz voar. Era aliança que Deus não quebra, Amor que não desmaia. Palavra-sabor que lhe temperava de terna luz as escuras horas do dia.

Ao prendê-lo, prenderam-no, sim, no ventre da baleia; e privando-o de tudo, fizeram-lhe um favor: não puderam impedir – ou até o favoreceram? – que ele fosse ao mais profundo centro de si mesmo, onde secreta e caladamente Deus mora, e ali morasse ele na Palavra e a Palavra nele, e assim, desse modo, a Palavra o ajustasse e o fortificasse como um baluarte seguro! Ali preso, ele era um com Deus. Era um hífen entre Palavra e corpo! Um hífen unindo palavra santa e corpo de um santo!

E morando inteiro – corpo, alma e espírito – num e noutro e noutro versículo da Bíblia, assim foi que o não enlouqueceram. Aliás, também ignoravam, isso é certo, que não existe gaiola que prenda quem anseie ser pássaro solitário!

Quiseram-no débil e postergável, é verdade, e fizeram-no forte – ó sofrimento heroico de quem, já morando na Palavra de vida eterna, ainda mora em terra estrangeira!

Mas algo mais existe e aqui quero deixar-to dito, leitor, leitora: daquela aliança entre Palavra e corpo de pássaro solitário acontecida na noite escura do ventre escuro da baleia – oh insondáveis desígnios de Deus! –, brotou da torrente impetuosa da Palavra uma fresca fonte de palavras: e o santo escreveu poemas! Dos mais belos que existem. São poemas de amor encantado, poemas de amor fiel e santo, poemas de amor puro, poemas de aliança, poemas-palavra de corpo e alma que se sentem amados. Poemas-poemas. E se outros não existissem, estes bastariam para salvar a humanidade! Oh, que poemas ele não escreveu!

Poemas assim não são hoje fáceis de ler; digo, não são interpretáveis num só, inteiro e definitivo sentido. Por isso, ponho aqui os seus títulos e tu busca-os por aí. E lê-os até que neles mores. Outros, dois ou três mais, escreverá ele depois da libertação do Egipto; mas o que bem sei é que quando se fugou, atirou pela janela o hábito (e depois, no chão, o vestiu!), mas aos poemas não. Deles jamais se desprendeu, porque não o enredavam, nem podiam obliterar-se nem raspar-se da Fonte que manava e lhe ardia no coração! E por isso os levou amarrados a si, porque a Palavra estava feita corpo no seu corpo!

Deixo-te aqui os títulos dos poemas que lhe borbulharam na escura prisão de Toledo. Ele os escreveu quando pôde, e hoje são luz clara para os passos da nossa fé: Cântico Espiritual (tem este poema por matriz o livro do Cântico dos Cânticos; mas se alguém tiver outra interpretação e te disser que não, vai por ele, leitor! O Cântico dos Cânticos é um livro bíblico, do Antigo Testamento; é uma coleção de poemas sobre o amor puro e fiel de um amado por uma amada. Porém, melhor o interpretamos agora, entre o amor de Deus e a humanidade ou, mais pessoal e circunscritamente, entre Deus e a alma – naquele caso, entre Deus e o prisioneiro frei João da Cruz que, apesar de cativo na baleia, se sabia fielmente amado por Deus! Vês agora, claramente, leitor, leitora, por qual razão o não venceram, o não puderam anular?  O não puderam elidir? Nem ensandecer?

O passarito solitário era amado.

E além do Cântico Espiritual (escrito à data até à estrofe Ó ninfas da Judeia), escreveu e memorizou ainda nove Romances sobre o Evangelho «In principio erat Verbum», mais um Romance sobre o salmo Super flumina; o poema Bem eu sei eu a fonte e o poema Noite Escura.

Oh, que clara poesia nasceu no seu seio amoroso vivendo ainda naquele ventre escuro! Tão clara que o salvou!

11.        Quem faz a manhã longa, encurta a tarde. Mas uma coisa te garanto, amigo, amiga, naquele mosteiro de São José de Toledo ninguém naquela manhã falou, senão um santo, já quase não homem, já quase todo ele cadáver, todo ele inteiramente fogo, todo ele carne, ossos e nervos feitos poesia, sim, todo ele feito inteira memória ali disse e redisse, estrofe a estrofe, verso a verso, os poemas que trazia na memória do coração (e num pequeno almaço). Naquela manhã quente, ninguém ali falou nem almoçou, não, que do coração de frei João, sempre livre, sempre fiel, irrompeu um veio de água fresca que nenhuma monjita quis desprezar ou deixar de beber.

Almoçaram todos a desoras, e até há um poema recente que nos recorda que enquanto as monjinhas ardiam de alegria diante daquela poesia santa, as peras do Santo se esfriavam no prato. Sim, não duvido que as saboreou frias. E também sei que três anos depois da miraculosa fuga, quando ainda nas costas tinha feridas abertas, escreveu desde Baeza uma carta a Catarina de Jesus, carmelita descalça, dizendo-lhe «Depois que aquela baleia me trouxe e me vomitou neste desconhecido porto…». É o que eu suspeitava, leitor, leitora, vomitado foi o Santo do ventre da baleia, mas esta ficou-lhe morando dentro por muitos anos, precisamente onde ele secretamente vive trabalhando a Palavra.

E a baleia negra resguarda-se algures, entre as letras de um poema por fazer, até certo dia.