Frei João Costa, OCD
1. Permita-me quem lê que volte ao meu tema favorito dos últimos tempos: a vida do Venerável Frei João d’Ascensão, Carmelita Descalço português (1787-1861).
Tem a vida voltas em que não há volta a dar. Assim foi que, algures nos inícios da década de noventa do século passado, acabados os meus estudos teológicos no Porto, me enviaram para Braga.
(Para que cumpra com a verdade devo dizer que apenas ali passara três augustas horas, pelo que nada conhecia de Braga, a não ser o Bom Jesus do Monte, onde estivera uma vez, a sé catedral e o túmulo de São Martinho de Dume, onde estivera de uma segunda vez, e uma portaria escura, húmida e gélida que eu vira, tinha eu, talvez, dez ou doze anos e que me levou a jurar, com firme convicção de criança, que jamais ali volveria a entrar…)
Chegado, não me apresentaram a casa por julgarem desnecessário. O certo é que num dia de inspiração o Pe José Carlos me falou do «Santo que aqui viveu há muito e ainda hoje aqui guardamos!». A notícia não me entusiasmou por aí além, talvez por jamais dele ter ouvido falar. Passados, porém, mais de vinte e cinco anos volvi a Braga e ao convívio com Frei João d’Ascensão Neiva, o Santinho do Carmo, o Santo Fradinho, o Mestre Neiva – cognomes com que os bracarenses lhe tributam preito. Para tão pronta aproximação muito contribuiu o facto de no curto horizonte da minha chegada ocorrerem os 160 anos da sua morte. Foi, pois, mais amadurecido e melhor espevitado que agucei a curiosidade, furei as barreiras do pó e o duro véu de silêncio e me encontrei com meu irmão, João Luís – no nosso claustro, Frei João d’Ascensão.
Desse encontro nasceu um livro. O livro não relata o encontro, tão-só a biografia possível; – chama-se: O Resgate de Frei João d’Ascensão. Escrevê-lo exigiu afoiteza. Na verdade, não é uma biografia, nem uma grande investigação, apenas o resultado de um mergulho num mar de indiferença sondando, rebuscando e unindo restos esparsos de naufrágio. Sim, foi um ousado mergulho em que muitas vezes me faltou o fôlego e, no restante, a arte suficiente para desenhar como era mister o rosto e a alma de tão veneranda figura.
2. Por uns meses virei rato de biblioteca, li jornais, li rascunhos de vidas, li milagres, falei dele, falei com sábios, vasculhei papelada solta, em português e em latim, vi pinturas, corrigi uma manca transliteração de uns Apontamentos que parecem ser de um discípulo, visitei-o no túmulo que não o dignifica, antes mais contribui para o seu desdém e oblívio. E, antes de tudo isso, como é sabido, mandei fazer três gravuras dele. A primeira, em outubro de 2020, a Sofia Maria de Oliveira; – é um corpo inteiro a carvão tão leve que mais parece que o ilustrado plana no ar, e que está, desde essa data, no cruzeiro desta Igreja do Carmo. E nos inícios de 2021, Hélder Carvalho produziu mais duas, um carvão algo misterioso, e uma sanguínea com o seu quê de etéreo e místico.
E em breve inauguraremos a sua estátua na frontaria da igreja. O autor é também Hélder Carvalho.
3. Agora que os dias foram passando e fui descansando do parto do livro, dou-me conta de que não foi um exercício tão arreliador assim. Não foi; apenas cansativo e compensador. Entretanto, reconheço que não sei desenhar nem pintar, mas que se me puser a sonhar aparecem-me gravuras minhas no céu. Por isso, se houvera de pintá-lo iria ele determinado, encosta acima, de seu descalço hábito carmelitano revestido. Assobio não tem, a palavra é mansa como as rolas das veigas, os olhos oferecem-se aos passarinhos para fazerem ninhos, e ao andar, em alevantando-se os pés, do chão nascem flores.
São assim os santos – mansos – ainda que de onde em onde os não vejamos como tal. É óbvio que quem assim o vir, ama-o. Mas quem não gostar de ninhos, passarinhos, flores e bálsamo, ignora-o ou odeia-o. E se o odiaram! E se o amaram! Meu Deus, como os dois opostos se entrecruzaram na mesma pessoa para lhe transpassar ou abraçar o coração tenaz! Se bem sei só amou, sobretudo os pobres, os indigentes envergonhados, os necessitados de última hora, os atribulados, os doentes, os jovens sonhadores, os que amavam a Deus, os que ansiavam consagrar-se-Lhe, a Igreja, o Papa, Nossa Senhora, o hábito e a Regra do Carmo.
4. Como me tem sido grato o convívio com Frei João!
Depois que o Resgate apareceu, da sua terra escrevem-me pedindo-me exemplares do livro que fala da sua «alma luminosa» e que foi escrito «com alma e coração». (Se é certo que às vezes os leitores não percebem os livros, também é certo que outras há em que os autores se surpreendem com os leitores…). O livro anda, pois, por aí, de mão em mão, de porta em porta, pelas casas de São Romão de Neiva e, obviamente, por Braga e por Portugal abaixo. E vai dar frutos.
Em Braga, durante este verão, apresentei-o na Biblioteca Professor Domingos Alves e na Feira do Livro da cidade. A primeira foi mais cálida que a segunda vez; mas não deixa de ser interessante que os leitores também fazem os livros, como já atrás arrisquei. Em São Vicente estavam os que conheciam e estimavam o biografado, na Feira do Livro, profissionais da investigação. Esta é mais fria, claro, que o cérebro sempre foi mais álgido que o coração.
Em meados de agosto levei-o até às portas da Figueira da Foz, a reclamo da Senhora da Saúde. Ora se a Mãe chama, o filho vai. Ali choquei-me com a quantidade de gente a acariciar o livro, a querê-lo porque fala de um santo, a pedir-me que volvesse para falar da leitura que todos dele faremos até ao Outono. E eu irei, que a comunhão dos santos sempre fez bem.
Na Figueira enterneci-me ademais com as pessoas idosas sentadas em cadeiras e em degraus, dedicando-se, prontas, à leitura lenta, ignorando, e ainda bem, o que do palanque ia eu debitando. De arrepiar.
Já não tenho mais livros, que os mil já voaram; andam por aí a incendiar. De quando em vez achegam-se-me ecos; alguns estranhos: um amigo atribui-lhe um milagre impossível; uma mulher reza-lhe metades de ave marias nas horas de insónia: não as reza por inteiro porque adormece a meio! E outra pede-me que não me canse de falar dele, pois tem uma história para me contar sobre um milagre, mas ainda não se atreve…
(Ah, e agora me dou conta de que se o pintasse o pintaria suavemente sorridente, um sorriso ameno num rosto plácido, que todo o bálsamo é delicado, terno e suave.)
5. Frei João d’Ascensão caminha de novo entre nós. Melhor dito, caminha no coração de muitos, nos sonhos de muitos, nas ânsias de muitos, nas tribulações de muitos. Caminha, que caminhar sempre foi seu ofício. Julgo, portanto, ter cumprido o que numa conversa me pediu o Senhor D. Jorge Ortiga: «— «Peço-lhe um favor: fale muito do venerável Frei João d’Ascensão, fale muito dele, muito, muito, por favor! O Santo Fradinho veio ao meu encontro como mestre da causa social. Olhe que ninguém ama o que não conhece; é por isso que deve falar muito dele. Eu estimo-o muito, você nem imagina! Sabe: na sua atenção aos pobres e na sua caridade diligente, o Santinho do Carmo resume todo o meu pontificado»!
6. No dia 26 de outubro próximo cumprir-se-ão os 234 anos do seu feliz nascimento. Será dia de jubilosa acção de graças porque, se ao nascermos nossos pais e avós se perguntaram: — Quem virás a ser tu, meu filho, quem virás a ser tu, minha filha?, isso mesmo foi o que de João Luís se perguntaram os seus porque, tal como nós, também eles nada sabiam das venturas e caminhos futuros de menino algum. Volvidos, porém, tantos anos, e nisso claramente nada há de sortilégio, dele, felizmente, muito sabemos, porque uma suave brisa ajudou a que se alevantassem alguns dos véus que embrumavam a luz que esplandecia do seu rosto. Sim, sabemos que é santo e que do céu nos alcança favores. Sabemos que caminha, que nos atrai ao Carmo e nos eleva para o coração do Bom Deus. Nesse dia inauguraremos a sua estátua, abriremos as janelas a uma exposição de pintura – dos mestres e alunos da Alvo, escola de pintura de Viana do Castelo – e lançaremos mais um livro sobre ele, da autoria de José M. Cruz.
Enfim, valeu a pena, porque a companhia e o exemplo dos santos sempre reconforta e anima os desvalidos. Mas o que mais me alegra em toda esta discreta odisseia é o refrescar das raízes. Para que se saiba a que me refiro, sempre direi que meu pai era agricultor e, na arte da poda, sempre tinha como último cuidado para com a videira, fosse velha, fosse nova, mas especialmente se era nova, cavar-lhe e a maciar-lhe a terra em volta, libertando-a das duras grilhetas das raízes do rengo, que assim «a vide respira melhor». Verdadeiramente hoje muito me mói a força daninha das raízes da desmemória, da incúria, do olvido intencional ou negligente, do ostracismo dos valores que nos fundam como comunidade. Isso tanto me impressiona que julgo tarefa urgente volvermos o olhar e debruçar o coração sobre o passado. E não basta fazê-lo como indivíduos, também como comunidade.
7. Sim, valeu a pena, porque também eu caminho acreditando que só se pode ser fiel ao futuro se se auscultar o passado! As raízes são sempre uma boa escola: segui-las ajuda a enfrentar tempestades de ignorâncias e jactâncias. Em boa verdade, não postulo o restauracionismo, mas também não aceito que se rasure o passado, se rasguem folhas da história ou se queimem bibliotecas. E sei também que não urge ser-se engenheiro para se saber que o cerceamento das raízes condiz com o lavrar da sentença de morte da árvore, ou por sede ou por força da ventania. E alguns até garantem que as verdadeiras raízes são as que apontam ao céu e dali bebem graça, ar e sol…
Daqui somos para o infinito. O convívio e a amizade com os santos são das nossas melhores raízes; quem, porém, no-las cerceie cimentando-nos, em volta, com argamassa bela, docemente nos agrilhoa, prestando-nos o mau serviço de nos anestesiar e amesquinhar a alma.
Por isso, Senhor Arcebispo, acredite que dei os passos que julguei que tinha que dar para cumprir o que me mandou: «– Falem muito dele e retomem a causa de beatificação de Frei João d’Ascensão».
Muito obrigado.










