Armindo Vaz, OCD

Na ambivalência e relatividade das experiências da vida, o ser humano agradece a ajuda para discernir o bem do mal, para orientar-se por caminhos de verdade, liberdade e felicidade. Para isso, recorre ao melhor dos guias humanos, procurando mesmo o divino, como pensava Platão:

…Escolhemos, de entre as palavras humanas, a melhor de todas e menos falível; e, por ela levados como numa jangada, arriscamos a travessia da vida…, [guiados] por uma palavra divina (Fédon 85 d 1).

Escolher o melhor! A religião judeo-cristã descobriu uma experiência paradigmática na história do povo de Deus, com o ponto mais alto de orientação no homem Jesus Cristo. Conservou-a por escrito na Bíblia e fez dela guia da sua vida, vendo-a pela fé como palavra de Deus. Assim, o crente judeo-cristão caminha «com a Bíblia numa mão e o jornal na outra» (como diria Karl Barth), confrontando e iluminando os acontecimentos do dia-a-dia com a luz que vem da revelação bíblica. Sem o GPS que é a Bíblia, anda um pouco perdido nos caminhos da vida. Mas o GPS não interessa em abstracto, desligado da terra: sendo um Sistema de Posicionamento Global (Global Positioning System), a partir do alto dirige pessoas e a sua viagem a cada passo. Também a Bíblia quer orientar e transformar o percurso vivo de cada uma.

Para isso acontecer, o leitor tem de evitar a leitura literalista, à letra, leitura fundamentalista que acarreta desvios e extravios do sentido. É o que devemos fazer ao ler qualquer texto com mensagem. A leitura fundamentalista da Bíblia torna-se uma arma perigosa: o fundamentalismo pode degenerar em fanatismo e o fanatismo em terrorismo (que frequentemente nasce da leitura fundamentalista de textos religiosos). Se as pessoas à procura de orientação consultam a bola de cristal, o cartomante, o tarô, o quiromante, os variados testemunhos guardados na Bíblia correspondem a diversos holofotes focados sobre cada experiência humana que precisa de guia. Basta ligar o caminho da vida aos holofotes ou ao GPS da Bíblia, para que interajam com o leitor.

A filosofia, amor à sabedoria, exalta o valor do conhecimento da própria pessoa para ter o melhor que a vida pode dar. A máxima estampada à entrada do templo de Delfos, atribuída a Tales de Mileto, mas também a Sócrates, a Heraclito e a Pitágoras, soa assim na sua forma completa: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo”. Quer dizer: o processo de conhecer-se a si próprio tem consequências na forma como se interage com o mundo e com os outros e com o Mistério transcendente e abre a possibilidade de estar sempre a aprender e de ter novos interesses. Ora, a Bíblia facilita o conhecimento do ser humano, marcada como está pela relação dialéctica dos seus dois protagonistas, Deus e ser humano: “Tu examinaste-me, Senhor, e conheces-me… Estás atento a todos os meus passos… Tu conheces profundamente a minha alma” (Sl 139,1-2.14). Na Bíblia, um não está bem sem o outro. Um está sempre à procura do outro. Ela testemunha a revelação de Deus ao Homem e descobre ao Homem o mistério do Homem, ajuda-o na busca da sua verdade plena e abre-lhe janelas que as ciências não conseguem abrir. O filósofo judeu Franz Rosenzweig di-lo de forma cativante: “A Bíblia e o coração dizem o mesmo. Por isso (e só por isso) a Bíblia é ‘revelação’” (Carta a Benno Jacob, de 27.5.1921: Franz Rosenzweig, Werke, I, t. 2. pp. 708-709). Ou seja, a Bíblia testemunha a revelação divina, falando ao leitor da sua própria vida. Realmente, a razão principal da sua atracção e para a sua perene actualidade está no facto de ela mexer na vida concreta das pessoas. Tem a ver comigo. Essa velha história sagrada não deixa ninguém indiferente. Exerceu tão grande influência no desenvolvimento da cultura ocidental, porque durante séculos serviu às pessoas como clave interpretativa do seu passado, presente e futuro. Daí a importância de lê-la. Efectivamente, o livro que é a Bíblia exprime a verdade do livro que é o leitor diante de Deus e dos outros. Da correcta interacção entre Bíblia e leitor depende a qualidade da mensagem dela a ele. O leitor compreenderá o texto que medita, não quando se põe em ilusória neutralidade relativamente a ele, mas quando o aborda condicionado pela sua situação humana e espiritual, pelas legítimas preocupações da sua vida, pela sua experiência psicológica e afectiva, para descobrir algo de si próprio no texto e para descobrir algo do texto na sua alma. A página sagrada deve ser lida a partir dos valores e contravalores recebidos, amor, amizade, condicionalismos, possibilidades, limitações que ‘respiramos’, incoerências que enfrentamos. Texto e leitor precisam um do outro. O leitor não pode ficar passivo, à espera de que o texto ‘diga coisas’. Seja activo: “Procurai e encontrareis…, pois quem procura encontra” (Mt 7,7-8). Compreender uma página da Bíblia supõe um vaivém, de mim para o texto e do texto para mim, em fecunda colaboração e impregnação. Ao ler, o leitor tem de «se deixar ler pelas Escrituras». O auto-conhecimento é mediado pelo encontro com elas:

A alma e a Escritura, graças à referência simbólica de uma e da outra, esclarecem-se mutuamente… São dois livros a ler e a comentar um pelo outro. Se preciso da Escritura para me compreender, também compreendo a Escritura quando a leio em mim próprio… À medida que penetro o seu sentido, a Escritura faz-me penetrar no sentido íntimo do meu ser; ela é, portanto, o sinal que… me revela a minha alma. Mas também o recíproco é verdade. Uma serve de reagente à outra (Orígenes, resumido por H. de LUBAC, Histoire et Esprit: Oeuvres Complètes, XVI [Cerf; Paris 2002] 347-348).