1. Porque se publica em 2026 este livrinho intitulado Ditos de Luz e Amor?
Como todos os carmelitas sabem, 2026 é um ano jubilar pela comemoração dos 300 anos da canonização de São João da Cruz (27/12/1726) e dos 100 anos da sua proclamação como Doutor da Igreja (24/08/1926). Este santo e doutor da Igreja, “carmelita de sandálias e escasso de figura”, não é muito conhecido em Portugal. Muitos são os que já ouviram o seu nome, mas nunca leram a sua poesia, os seus escritos… No meu desejo de o tornar mais conhecido e amado – pois também é verdade que tem aumentado o número daqueles que o procuram conhecer mais e melhor – sugeri ao Diretor das Edições Carmelo, Padre Pedro Ferreira, a publicação em separata dos Ditos de Luz e Amor, uma vez que já foram publicados há muito tempo nas Obras Completas de São João da Cruz. O entendimento foi imediato e, em poucos dias, este pequeno tesouro de espiritualidade estava nas nossas mãos. É um livro maneirinho, que se pode levar facilmente no bolso e na bolsa, de preço a cheirar a oferta, e de grande ajuda para a oração e meditação em casa ou em viagem. O livrinho, além dos Ditos de Luz e Amor, contém ainda, do mesmo autor, as Cautelas, Graus de Perfeição e Quatro Avisos a um religioso para alcançar a perfeição. Fazem parte dos chamados escritos breves que, segundo Federico Ruiz, «representam a melhor introdução aos vários aspetos da personalidade e da obra escrita de S. João da Cruz: poeta, místico, asceta e pedagogo».
2. Como escreveu São João da Cruz este livro?
Dos encontros com o nosso saudoso Frei Eduardo Gil de Muro, lembro-me de ele nos falar do magistério oral e escrito de João da Cruz. Frei João da Cruz pegava num pequeno lápis e no papel que lhe tinha sobrado de algum assunto anterior, numa estampa ou num cartão, escrevia algumas palavras. E, assim que as escrevia, entregava-as como presente a qualquer uma das suas almas mais queridas: as das suas carmelitas, as dos seus noviços, as dos seus estudantes em Alcalá ou em Baeza, as das suas freiras em Granada, Ávila ou Segóvia. E certa vez recolheu estas relíquias da sua alma e anotou-as num livrinho a que chamou «ditos de luz e amor».
3. Qual a razão do título deste livrinho?
O testemunho do P. Alonso, que transcrevo, completa a resposta à pergunta anterior e responde a esta: «Quando regressava deste mosteiro de Beas ao seu, no Calvário, deixava a cada religiosa uma máxima sobre a virtude que, segundo sabia, lhes seria mais útil; ao lê-las com fervor, elas sentiam-se inspiradas, e apreciavam-nas tanto que, mesmo anos depois, vi que as conservavam em cadernos. Estas religiosas diziam-lhe, quando regressava ao seu convento, o quanto precisavam dele para lhes ensinar! Ele respondia-lhes: enquanto eu não voltar, façam o que faz a ovelhinha: ruminem o que lhes ensinei durante o tempo que aqui estive. E assim o faziam, meditando sobre o que lhe tinham ouvido e lendo as suas sentenças nos seus papéis. E quando regressava, ele avaliava o seu aproveitamento, ponderando sobre os descuidos que nelas encontrava e colocando no seu devido lugar o seu solícito cuidado». Um diretor espiritual em pleno trabalho de acompanhamento!
E… 4. Qual é o Dito que tu, Padre Leal, mais aprecias?
Eu aprecio-os a todos, mas, confesso, o n.º 131 é de uma atualidade e utilidade estrondosa: A maior necessidade que temos para progredir na união com Deus é silenciar os apetites e a língua, pois a linguagem que Ele mais ouve é só a do calado amor. Esta recomendação de silenciar a língua é repetida: Refreie muito a língua e o pensamento… (nº 165); é melhor vencer-se na língua do que jejuar a pão e água (nº 181) … João da Cruz vivia com a alma recolhida em Deus e, por isso, os seus conselhos vão no sentido do «calar e agir que recolhe e fortalece o espírito» (Carta 8). Calar não é só estar com a boca fechada, mas é também acalmar, apaziguar os pensamentos, as opiniões, os juízos, as expectativas. Calar é criar um espaço interior onde possa ecoar algo que não vem de mim. No silêncio encontramo-nos connosco mesmos quando deixamos de representar, construir uma imagem ou fingir com palavras e atividades. É pelo silêncio que vamos entrando na casa de Deus, no coração sossegado, onde o calado amor, de mansinho, nos une a Deus. O Papa Leão IV, na Quaresma, fez dois apelos: um, à abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso próximo (mensagem); outro, ao silêncio: vamos dar espaço ao silêncio, silenciemos um pouco as televisões, os rádios, os smartphones (22/2/2026). O silêncio favorece o estado de contemplação, propício para a escuta de quem tanto nos amou. João da Cruz expressa-o bem no Dito de Luz e Amor, 99: Uma palavra falou o Pai, que foi o seu Filho, e esta fala sempre em eterno silêncio, e em silêncio deve ser ouvida pela alma. Recomendação: não dar à língua!










