Irmã Sofia da Cruz, Carmelo de Aveiro

Meu querido irmão,

Por muito tempo a minha fraqueza impediu-me de perguntar a Deus qual o projecto Dele para mim. Tinha medo porque era uma desconhecida a mim mesma, porque não encontrava no meu interior nada de valor, porque não me sabia reconciliar com aquela que não era eu e na qual eu me tinha transformado. Medo porque não sabia assumir a minha pobreza interior e não encontrava em mim algo que pudesse atrair o olhar de Deus sobre este pobre ser…

Sim, não tinha nada. E o pior é que não sabia estar assim, pobre de tudo e de mim mesma. Eu e o meu nada…

Por então, o único que prevalecia é que eu pertencia a Deus, mas também isto era um dilema. Como podia ser de Deus não tendo nada, do qual Ele pudesse servir-se para atrair os irmãos? Pelo contrário, se pudesse isolava-me …

Tal como Job, sempre tinha tido tudo. Sempre tinha disposto as coisas desde o centro que era eu, sempre tinha colocado os talentos a render e dum momento para o outro até a minha própria identidade me tinha sido tirada. O meu nome já não se identificava com a pessoa que eu conhecia. O meu projecto de vida tinha deixado de existir. Começar outro, como, quando no meu ser não existia nada que justificasse o Amor de Deus por mim?

Era o acto mais puro da gratuidade do Amor de Deus para comigo e eu não o era capaz de reconhecer. Ele estava-me amar, apenas por ser obra do Seu acto criador, sem mais nada, e faltava-me a humildade para me acolher e aceitar na força do seu Amor, faltava-me passar do conhecimento de fé para o conhecimento experiêncial de Deus. Agora, sei que este foi um dos momentos mais fortes de purificação passiva do meu ser… e agradeço profundamente a Deus.

Queria ter algo para lhe oferecer, como segurança do Seu Amor por mim, como garantia de que pelas minhas qualidades eu O poderia servir e assim “mereceria” o seu amor. Eu servi-lo-ia e Ele teria motivo para me amar…veja que amor impuro e egoísta, veja quão longe e distante da gratuidade do Amor, de amar a Deus pelo que Ele é em si mesmo e não pelo que Ele é em mim, tão longe de O amar sem me deixar condicionar pela minha incapacidade para o Amor, sem me deixar condicionar pelas minhas feridas… Ele é digno de todo o amor, porque Ele é o próprio Amor. Independentemente do que sou ou sinto, o único necessário é Amar a Deus.

O nosso coração está criado para um amor grande como o de Deus. “Que possuis que não tenhas recebido e se o recebeste, porque ages como se não tivesses recebido?” São tantas as vezes que sinto que Deus me faz esta pergunta… Tão pequeno o meu sentimento de gratidão e de felicidade.

Como temos dificuldade em entender a gratuidade! Como temos dificuldade em entender que valemos  o preço do Sangue de Cristo, não pelo que fizemos ou fazemos, mas pelo que somos, não por vontade nossa, mas por vontade do nosso Pai Eterno! Como temos dificuldade em acreditar que o Pai nos quer e nos ama, assim, nas nossas fraquezas, debilidades e impotências, que é assim que a nossa história se converte em história de salvação!

Por  algum tempo  vivi e convivi com classe social alta da sociedade portuense. Um dia em que estava sozinha em casa, tocou o telefone, era alguém que estava a passar uma tremenda crise de escrúpulos. Alguém que já não acreditava que Cristo tinha morrido na cruz, para lhe dar a vida da graça. Naquele momento tudo era posto em causa. A mim o que o Espírito Santo me inspirava fortemente eram as Palavras de S. Paulo: “A vida do momento presente, vivo-a animado na fé do Filho de Deus que me amou e Se entregou a si mesmo por mim.” (Gl 2,20) Falei-lhe da verdade histórica e da impossibilidade de negar a morte de Cristo na Cruz e da verdade de fé que ela já tinha experimentado na oração. Da força do chamamento que o Senhor lhe tinha feito e pelo qual tinha renunciado a tudo. Da experiência de resgate do pecado da qual tantas vezes tinha dado testemunho.

Enquanto estava ao telefone, o elevador parou no nosso andar, mas a campainha não tocou.

 Eu estava junto à porta, onde existia uma parede toda espelhada na qual reflectia a pintura da silhueta dum homem deitado, atado com amarras, em tons de preto e cinzento e que para mim evocava fortemente a presença da libertação interior que Cristo nos tinha conquistado pelo seu Sangue. Apesar de ser o hall de entrada, era o lugar que mais evoca e invocava a presença ressuscitadora de Cristo e vivificadora do Espírito de Deus, por isso, quando falava de Deus era o espaço que frequentemente ocupava. Aí sentia a força da necessidade de libertação da humanidade e sentia-me intimamente solidária com Cristo, na luta por essa mesma libertação. Tal como diz S. Paulo:

“A criação encontra-se em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus. De facto, a criação foi sujeita à destruição – não voluntariamente, mas por disposição daquele que a sujeitou – na esperança de que também ela será libertada da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus. Bem sabemos como toda a criação geme e sofre as dores de parto até ao presente.

Não só ela. Também nós que possuímos as primícias do Espírito, nós próprios gememos no nosso íntimo, aguardando adopção filial, a libertação do nosso corpo. (…) O Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza, pois não sabemos o que pedir, para rezarmos como deve ser; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. E aquele que examina os corações conhece as intenções do Espírito, porque é de acordo com Deus que o Espírito intercede pelos santos.

Sabemos que tudo sucede para bem daqueles que amam a Deus, segundo a Sua vontade.” (Rm 8, 18-28)

Creio que ao telefone se apoderou de mim essa força de Cristo, que me faz ser testemunha do poder de Cristo, e, que naquele momento me fez ser insistente e persistente, para dissipar as dúvidas do amor de Cristo que tinham assaltado aquela pessoa. Quando desliguei o telefone alguém voltou a puxar o elevador.

Dias mais tarde, quando ia para a faculdade um Senhor com o ar de muito importante, parou para me cumprimentar, o que fez muito delicada e atenciosamente, eu como sou muito desatenta à realidade material dos factos em si . mesmos, ocupo-me na procura da manifestação de Deus por meio das realidades visíveis, fiquei muito admirada porque não conhecia o Sr de parte nenhuma, mas retribuí com toda a cordialidade. Quando regressei a casa disseram-me: “o Sr tal aprecia-a muito, tem uma grande consideração por si”. Eu perguntei quem era o Sr. Ao que me responderam era o dono da cadeia de lojas de Pronto a Vestir internacional. Eu voltei a perguntar como é que ele me conhecia, se o meu amor à pobreza não me deixava frequentar as suas lojas. Parece que ele tinha ido lá a casa,  eu estava ao telefone, e ele ficou do lado de fora da porta a escutar a conversa. Ele tinha ficado a escutar o que nunca ninguém se tinha atrevido a dizer-lhe: que ele valia o preço do sangue de Cristo, que a vida que estava a viver seria vazia de sentido se não fosse vivida em comunhão com Cristo, senão fosse vida eterna e que a vida eterna era o conhecimento do Pai como único Deus verdadeiro e Aquele que ele enviou, Jesus Cristo. (Jo 17,2) Este era o único sentido da vida e por ele tínhamos de lutar.

E no fim tinha-se sentido bem com a novidade de vida que lhe era proposta e que estava muito além de toda a riqueza das roupas, e da imagem que ele possuía, tratava-se da fé. Esta era para ele um verdadeiro desafio, porque nem o dinheiro, nem os bens que ele tinha, lha podiam garantir, nem adquirir…

Muitas vezes temos medo de propor aos outros a fé. Muitas vezes nós mesmos negamos a graça recebida, porque não acreditamos que ela tenha poder para curar as nossas feridas. Não manifestamos a Deus as nossas feridas e não lhe manifestamos a nossa confiança no poder que tem para nos curar.

Após uma longa temporada de muita oração e num desses momentos de encontro íntimo e pessoal com o Senhor, nesses momentos em que somos convidados a entrar no quarto e fechar a porta, e a rezar ao Pai no segredo, num mar de turbulentos sentimentos de fraqueza e impotência foram determinantes, para mim, as palavras de S. Paulo: “Se vivemos, vivemos para o Senhor e se morremos, morremos para o Senhor. Quer vivamos, quer morramos pertencemos ao Senhor.” Então, se mesmo “morta ou agonizante”, estado em que interiormente me sentia, pertencia ao Senhor, o que me fazia ter medo d’Ele? O meu estado interior? Mas Ele conhecia-o melhor do que eu…

Faltava-me a humildade para me acolher das mãos do Senhor; a docilidade para me reconhecer como um instrumento pobre e débil, mas cheio da sua graça, segundo a Sua vontade; a simplicidade para o reconhecer como Senhor da minha história e criador de cada detalhe da minha existência; a confiança para permanecer na paz de quem se sente envolvido pelo amor; o verdadeiro espírito de comunhão de amizade com o Senhor, de oração, para saber que não sou mais, nem estou chamada a ser mais do que o seu querer para mim. E como é desconcertante o Seu querer para mim, liberta-me continuamente do meu “eu” egoísta e orgulhoso. E o eu de cada um de nós está mais vivo e actuante do que possamos pensar.

“Pertencer-LHE é uma aprendizagem contínua, que se funda não no amor que LHE temos, porque não O sabemos amar, mas na gratuidade do Seu amor por nós. E quando nada valemos, então, é quando temos o verdadeiro e justo preço – o do amor de Deus por nós.

“E o amor de Deus manifestou-se desta forma no meio de nós: Deus enviou  ao mundo o Seu Filho Unigénito, para que, por Ele tenhamos a vida. É nisto que está o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou primeiro e enviou o Seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados.” (1Jo 1,4) 

Não receba a Graça de Deus em vão. Não se preocupe com o que está oculto e um dia se virá a manifestar, porque “não cai um cabelo da sua cabeça sem que o Pai do céu o saiba.” Não há nada oculto em si que Ele não conheça. E quanto mais o oculta aos irmãos, mais eles o descobrem pelos seus comportamentos. Isto não é incoerência, nem denuncia, prefiro chamar-lhe caminho para a verdade. Lembre-se “que tudo acontece para bem daqueles que O amam, segundo os desígnios da Sua vontade. Porque àqueles que Ele de antemão conheceu, também os predestinou para serem uma imagem idêntica à de seu Filho, de tal modo que Ele é o primogénito de muitos irmãos. E àqueles que predestinou, também os chamou; e àqueles que chamou também os justificou; e àqueles que justificou, também os glorificou.” (Rm 8, 28-30)

Meu querido irmão, Deus ama-o total e incondicionalmente, até dar à morte o seu Filho único, para o fazer filho no Filho, e, se isso já não fosse muito, para o fazer comungar da mesma missão do Filho.

Ocupe-se apenas Dele, nas circunstâncias concretas e reais em que Ele se lhe manifesta e Ele ocupar-se-á de si. Centre-se n’Ele, não deixe que a graça Dele seja vã em si…

A sua desunificação e dispersão interior  continuarão e levá-lo-ão ao total desânimo e cansaço até que O tenha colocado como único centro da Sua vida. É isto que Ele pede de si…

Deixe-se amar e não fuja ao Amor. Tem Cristo esculpido no centro da sua alma, deixe que a oração o liberte.