1. É historiador?
Seria uma honra sê-lo, mas não sou. E de igual modo honrado ficaria se, ao menos, fosse um pequeno aprendiz. Mas nem isso sou. Mas porque pergunta, é por causa do livro cujo título é Estórias da história do Menino Jesus de Praga?
Bem, se é por isso, entendo a pergunta. Sim, entendo-a muito bem, pois há ali um fundo histórico, sim! Mas repare: Não será por pormos o termo história na capa de um livrinho que possamos ser tomado por historiador! Aliás, o acento do título está mais nas Estórias, que na história. Ali apenas foi meu cuidado contar estórias, jamais fazer história, neste caso da devoção da nossa Ordem ao Divino Menino Jesus de Praga!
Outros por aí haverá cuja responsabilidade seja fazer história, mas não a mim. Como me compete, eu olho com muito respeito para os oficiais dessa arte e comovo-me muito com eles: queimam as pestanas por anos a fio (e se não fosse quase uma heresia, diria que parecem velas a arder diante do trono do Altíssimo, tal a estância e a permanência diante do objecto do seu estudo!), percorrem milhares de quilómetros para visitar arquivos esquecidos, e perdem (ou ganham?!) anos a classificar, e também a ler latinório e a confrontar fontes com a intenção de esclarecer uma decisão ou um singelo dia que mudou o curso de uma comunidade ou nação! Nem sabe como eu aprecio isso, mas não é por aí que me movo, pois me falham as competências!
Desculpe a divagação, mas eu sou assim. Aliás, a história do Menino Jesus de Praga já está contada e não pode mudar-se – O P. Alpoim diz isso no Prefácio do livro e acerta em cheio. Ele percebeu bem que eu nem mudo nada da história, nem descobri ou acrescento factos novos; eu apenas reconto os factos já conhecidos e, em Portugal, são divulgados desde a lonjura dos tempos pelo P. Isidoro Maguna.
Outrossim quis, com este livrinho, falar daquela tão terna devoção – talvez a mais terna do nosso coração católico! – ao Menino Jesus que, para nós, carmelitas descalços, leva o honroso título de Praga (e de Avessadas, já agora!).
Seja, portanto, eu não faço história, não estou capacitado para isso, apenas conto estórias, e faço-o com a certeza de que estas ajudam a iluminar aquela. Para mim a história volve-se mais rica e veraz se se lhe acresce essas narrativas, mesmo as mais minúsculas, cujo efeito é o dos grãos de pimenta na comida! O que, pois, se pode ler no tal livrinho, são contos ou narrações que foram sucedendo, sobretudo em Praga, mas também por cá, ao longo do rio da história da devoção.
Resumindo a minha resposta: não sou historiador; dou-me por satisfeito se sou narrador de estórias ou contos.
2. E o que é o cartapácio que diz ter achado num alfarrabista em Amesterdão? Ele existe mesmo?
Existe, sim. Mas não está escrito em latim, nem é velho. É bastante recente, aliás. Conto-te com gosto como tudo aconteceu: um dia fui a Praga ajoelhar-me aos pés do Divino Menino Jesus. Isso passou-se há não muito tempo; não lembro o ano, mas foi no século passado. Eu ia acompanhado de muitos peregrinos. De lá uns trouxeram imagens, eu, pagelas e um livro em espanhol – é o meu cartapácio que me assessoreou e me inspirou a contar as benditas estórias… Claro que não estão todas no cartapácio, mas que foi uma inspiração, isso foi, não o nego, nem isso diminui estas estórias. E também serviu de certificação nas datas e nos pormenores mais históricos, o que é muito, muito bom.
Como estou longe da minha biblioteca – estou de férias – não recordo bem o título que leva na capa, nem lembro o nome do autor que, creio, é de um dos nossos frades duma Província italiana. Portanto, o cartapácio existe, sim.
Quero, ademais, referir-me ao contexto em nasce este livro das Estórias.
Antes de chegar ao formato livro, estes textos apareceram, ao longo de anos, no Mensageiro do Menino Jesus de Praga, o boletim do Santuário do Reizinho, em Avessadas. Portanto, foram lidos e, ainda que indirectamente, aprovados e validados pelos leitores e devotos. Sei aliás, de alguns que esperavam pelo Mensageiro para ler a estória do mês, e só depois liam o resto. Acontece, mas nem sempre!
O que quero dizer é que não pensei jamais escrever uma história, menos ainda em formato livro, mas tão-só ir falando, passo por passo, das estórias da história do Menino Jesus de Praga. Foi nesse contexto que me lembrei de falar do cartapácio, porque eu precisava de dizer ao leitor: olha, eu não sei tudo da história da devoção, eu tive de ir consultar e ler, tive de me informar, e li, e informei-me, e só depois é que falei, e foi assim que, por meses a fio, fui mantendo os leitores agarrados à história do Menino Jesus de Praga. Aliás, tal nem é difícil, pois os devotos do Reizinho gostam de ler, sei isso muito bem. Entenda-se: eu queria conferir alguma credibilidade às estórias que que queria contar. E acho que consegui. Aliás, se alguma data ou algum pormenor estiver menos bem contado, eu me penitencio e prometo corrigi-lo.
3. Se a sua intenção era contar, ou recontar a história da devoção ao Divino Menino Jesus de Praga, porque acrescentou à história da devoção, por assim dizer, uma segunda parte intitulada O que ainda havia para saber?
Basicamente porque urgia fixar a história recente da devoção em Portugal. Já agora, diga-se, a devoção ao Menino Jesus de Praga chegou rapidamente a Portugal. Chegou mais cedo a Portugal, e daqui ao Brasil, às Índias…, do que chegou a outros países europeus mais prósperos! Existem, desde muito cedo, em Portugal, altares em muitas igrejas que lhe são dedicados! Hoje, pouca gente liga a devoção aos carmelitas descalços, mas sim, ela é nossa, ela é aprendida do amor de nossos pais Santa Teresa e São João da Cruz a Jesus, pois Jesus Cristo é o nosso centro, o único Salvador. E é já Salvador desde os dias da sua Encarnação!
Que maravilha poder meditar nisso…
Ora, como é sabido em finais de outubro de 1961, em Avessadas, Marco de Canaveses, nós, carmelitas descalços, construímos o Noviciado da Ordem – o primeiro em séculos! – e a ele adossado, o Santuário do Menino Jesus de Praga! Foi um feito enorme, incomensurável! Mais e mais, porque foi construído em pouco mais de um ano!
É verdade que muitas coisas estão escritas na Crónica do Noviciado e, depois, na da comunidade do Santuário. Mas como é sabido, o cronista não vê tudo, não sabe tudo, nem escreve tudo o que sabe. Sim, há naquelas Crónicas coisas interessantes, que aparecem nestas Estórias, mas além disso, existia muito mais que eu ouvia contar aos frades mais velhos, e eram preciso fixar o que eles nos contavam a nós, mais novos, nos recreios dos nossos trabalhos e estudos. Não se podia perder, não é? Sempre são estórias em primeira mão!
É bom lembrar que na tarde do dia da bênção do Santuário, tomaram hábito um bom punhado de noviços e professaram quase outros tantos! Isto é, desde o primeiro dia o Santuário foi habitado por uma boa turma de santos, alguns deles jovens rebeldes, é certo, mas todos muito piedosos e dedicados a honrar a Senhora do Carmo e o seu divino Filho! Ora, eu entendi que era chegada a hora de falar das coisas que ouvi, por exemplo ao P. Manuel de Jesus Brito, que foi meu mestre de Noviciado, ao P. José Carlos Vechina, arquivista da Ordem, ao P. Manuel Dias, e ao P. Alpoim Portugal que não é desses dias, mas é um grande apóstolo do Reizinho. E a outros muitos… Urgia escrever a glória dos dias primeiros do Santuário, e este era o tempo, antes que desaparecessem todas as testemunhas. Foi tão-só nisso que eu reparei…
Entendi claramente que essas estórias não se podiam perder, e fiz tudo para que não se perdessem… Porventura, já alguém reparou que, fora hoje, e não se construiria o Santuário do Reizinho? Naquele tempo fazia sentido construí-lo, como também hoje faria, aliás; mas hoje falham as forças que antes sobravam, sobravam as vocações, as ajudas, o empenho e o engenho – e era por aí que ia a compostura da glória que só a Deus cabe e é devida. Já hoje, esse caminho é outro.
e… 4. Uma última pergunta: ficou alguma coisa por contar?
Quero crer que o essencial sobre aqueles gloriosos dias primeiros do Santuário do Menino Jesus de Avessadas estará dito, o que para mim é um grande gozo. Mas é sempre possível surgirem pérolas novas. Nisso também creio.
Uma coisa, porém, quero deixar aqui dita: eu não interroguei as testemunhas, não fui a elas com um formulário e um gravador. Aliás, quando fui com intencionalidade, eles calaram-se. Por isso, o que registei foi tudo aquilo que ao longo de anos fui ouvindo e voltando a ouvir. E ouvi-o à mesa, durante as refeições, tal como o ouvi nos recreios, nos corredores, sempre com a informalidade de quem vive junto, ri junto, reza junto e agradece junto! Nunca ninguém me pediu ou mandou: escreve isto! Foi ao contrário: por tê-lo ouvido tantas vezes, achei que deveria gravar-se a letras de fogo. E assim procedi. E não é por ter sido assim que tem menos valor, bem pelo contrário, acho eu. Até tem mais valor, parece-me.
E também deixo dito que as testemunhas não são todas iguais, e se umas confirmam o dito por outros, o que confere muito conforto, outras não falam muito, não são dadas ao muito falar, e é dessas que eu ainda espero pérolas…










